ARACAJU/SE, 22 de junho de 2024 , 0:00:58

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Quadro roubado por nazistas é encontrado e exposto no Brasil

 

O Partido Nazista mantinha uma relação ambígua e frustrada com a arte. Adolf Hitler foi notoriamente um pintor mal-sucedido. Joseph Goebbels, infame ministro da propaganda, nutria grandes aspirações literárias, escrevendo peças teatrais, poesias e romances. Dietrich Eckart, um dos principais mentores intelectuais de Hitler, também se dedicava à poesia e às artes dramáticas. Já Alfred Rosenberg, principal teórico do nacional-socialismo, pintava e se apresentava como renomado escritor e pensador. Apesar do interesse manifesto, poucos conseguiram se destacar no competitivo mercado artístico do início do século XX. Esse descontentamento se agravou com o poder, levando os nazistas a empreenderem uma cruzada contra um inimigo comum: a arte moderna.

Um dos episódios mais lamentáveis desse embate ocorreu em 19 de julho de 1937, com a Mostra de Arte Degenerada, aberta ao público um dia após a inauguração da Grande Exposição de Arte Alemã, que exaltava o ideal artístico do regime. Enquanto a última aconteceu na majestosa Haus der Kunst, a mostra foi alocada do outro lado da rua, no prédio do Instituto de Arqueologia. O contraste entre os dois mundos estava em todos os cantos. Enquanto a arte nazista era exibida com requinte e exuberância, a mostra degenerada foi montada de forma caótica, com painéis cobrindo janelas, obras amontoadas sem cuidado e inscrições nas paredes denunciando a suposta subversão e degeneração dos artistas.

Apesar do aspecto vil, a exposição atraiu um dos maiores públicos da história da arte, com mais de 2 milhões de pessoas, uma média de 20 mil visitantes por dia. Cerca de 650 pinturas, desenhos e esculturas foram confiscadas às pressas de 32 museus para compor o acervo que enfatizava obras de movimentos como Expressionismo, Surrealismo, Dadaísmo e Cubismo, e incluía mestres importantes como Wassily Kandinsky, Pablo Picasso, Piet Mondrian, Vincent van Gogh, Henri Matisse e Lasar Segall. Nem mesmo simpatizantes do regime, como os pintores Emil Nolde e Otto Dix, escaparam do expurgo público. As peças mais valiosas foram vendidas em leilões internacionais, enquanto as demais estavam destinadas à fogueira. “Nenhum quadro será poupado”, declarou Goebbels em seu diário no ano seguinte. Felizmente, essa previsão se mostrou equivocada.

Oitenta e sete anos após a fatídica exposição, o quadro ‘Viúva (Witwe)’, do pintor lituano Lasar Segall, ressurgiu como uma testemunha viva dos tempos sombrios do regime nazista. Considerada perdida, a obra foi encontrada em 2022 em Paris pelo marchand Paulo Kuczynski. “Por algum motivo – e é aí que reside o mistério e o encanto desta história – alguém poupou o quadro. Talvez um oficial alemão. Não sabemos quem, como, nem o porquê, mas podemos concluir que a obra foi poupada pelo seu valor intrínseco”, diz Kuczynski. “O quadro não tinha grande valor na época, foi a paixão de alguém pela beleza da obra que a preservou”.

Segundo o marchand, a obra estava entre os pertences dos herdeiros do pintor franco-croata Slavko Kopac, que faleceu há quase 30 anos. “Não há como rastrear como ele chegou a esta coleção”, esclarece. A boa notícia é que, mesmo tendo sido pintada há mais de 100 anos, em 1920, e estando desaparecida por mais de 80 anos, a peça foi encontrada em excelente estado de conservação. “O quadro está intacto. Nem mesmo foi retirado do chassi original de madeira”, comemora o negociante, que após várias tratativas conseguiu trazer a tela para o Brasil e apresentá-la ao Museu Lasar Segall, um centro de referência para o estudo da obra do artista, onde foi minuciosamente analisada e autenticada.

Agora, a obra é novamente apresentada ao público, desta vez para ser apreciada e não mais rechaçada. O quadro é destaque da mostra Witwe: uma pintura reencontrada, inaugurada no domingo, dia 19, e em exibição até o dia 18 de agosto no Museu Lasar Segall, em São Paulo. Além da obra principal, a exposição inclui gravuras produzidas pelo artista na mesma época, parte do vasto acervo de mais de 3 mil itens que a instituição conserva e promove. “Em 54 anos atuando como marchand, eu sempre tive essa emoção de descobrir obras. Mas esse caso foi diferente, foi algo maior”, relembra. “Estamos falando de uma obra de arte que tem uma carga histórica muito importante e que nos mostra que a arte pode continuar viva e insistindo para denunciar alguma coisa”.

Lasar Segall, o modernista “degenerado”

Lasar Segall (1889-1957) nasceu na comunidade judaica de Vilna, Lituânia, durante o domínio da Rússia czarista. Reconhecido como pintor, escultor, desenhista e gravurista, Segall iniciou sua carreira sob influências impressionistas, mas rapidamente se voltou para o Modernismo. Após residir na Alemanha, migrou para o Brasil, onde absorveu as nuances culturais do país em sua obra. Viveu um período em Paris antes de estabelecer residência definitiva em São Paulo, em 1932.

Considerado “degenerado”, entre 1937 e 1938, quando já estava no Brasil, Segall teve 49 obras confiscadas de museus públicos alemães. Destas, 11 foram incluídas na infame exposição Arte Degenerada, composta por três pinturas a óleo e oito gravuras. Além de ‘Viúva’, outra tela, ‘Eternos Caminhantes’, datada de 1919, sobreviveu à incursão destrutiva dos nazistas.

A história de sua sobrevivência é tão intrigante quanto a de ‘Viúva’. Em 1954, Emerich Hahn, um negociante húngaro, entrou em contato com a família Segall para oferecer a obra. Uma carta do negociante revela que ‘Eternos Caminhantes’ foi descoberta pelas tropas francesas no final da guerra, no porão de uma alta autoridade nazista. Confiscada e levada para a França como restituição de guerra, a tela foi posteriormente vendida a Hahn por um escritório estatal, em nome das reparações de guerra. Um detalhe assustador: no verso da tela estava a inscrição “JÜDE” (judeu), feita pelos alemães.

Questionado se outros quadros poderiam ressurgir, Kuczynski pondera. “Acho pouco provável. O mais crível é que todos tenham sido destruídos mesmo. Mas a arte tem suas surpresas, sempre podemos ter esperança”.

Fonte: VEJA

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