ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 2:13:12

Desastres radioativos e/ou nucleares: entenda as diferenças entre os casos Césio-137, Chernobyl e Fukushima

 

Com a estreia recente da série ‘Emergência Radioativa’ na Netflix, volta ao debate alguns dos episódios mais graves envolvendo radiação na história recente. Ao revisitar o acidente com o césio-137 em Goiânia, em 1987, a produção coloca em perspectiva diferentes tipos de catástrofes radiológicas e nucleares — incluindo os desastres de Chernobyl e Fukushima Daiichi. Embora frequentemente comparados, esses eventos têm origens, impactos e características bastante distintas.

Os acidentes de Chernobyl e Fukushima, por exemplo, ocorreram em usinas nucleares e envolveram falhas estruturais e operacionais em reatores. Já o caso brasileiro teve início fora de um ambiente industrial nuclear, a partir do manuseio indevido de material radioativo abandonado. Ainda assim, todos compartilham um elemento central: a liberação de radiação com consequências humanas e ambientais duradouras.

Desastre de Chernobyl

Em 1986, em Chernobyl, então parte da União Soviética, um único reator sofreu uma explosão que resultou em uma liberação massiva de material radioativo. O impacto imediato foi devastador. Dois funcionários morreram na explosão inicial e outros 29 faleceram nos meses seguintes devido à exposição à radiação. A gravidade do acidente esteve diretamente ligada à forma como o núcleo do reator foi danificado.

“Como resultado, mais produtos de fissão foram liberados do núcleo único de Chernobyl“, explicou Edwin Lyman, cientista da União de Cientistas Preocupados, ao Live Science. A explosão, seguida por um incêndio de grandes proporções, gerou uma nuvem radioativa que se espalhou por uma vasta área, ampliando significativamente o alcance da contaminação.

Além das mortes imediatas, os efeitos de longo prazo foram expressivos. Houve aumento significativo de casos de câncer, especialmente entre crianças, e estimativas variam amplamente sobre o número total de vítimas ao longo dos anos. Autoridades evacuaram cerca de 200 mil pessoas, e uma zona de exclusão de 30 quilômetros foi estabelecida ao redor da usina — área que permanece desabitada até hoje.

Acidente de Fukushima

Já o acidente de Fukushima, em 2011, ocorreu em circunstâncias distintas. Um terremoto de magnitude 9,0 seguido por um tsunami atingiu a usina nuclear japonesa, provocando falhas nos sistemas de resfriamento e levando ao superaquecimento de três reatores. Apesar da gravidade, a dinâmica do desastre foi diferente da observada em Chernobyl.

“Em Fukushima, os núcleos superaqueceram e derreteram, mas não sofreram dispersão violenta. Então, uma quantidade muito menor de plutônio foi liberada”. A ausência de uma explosão comparável à de Chernobyl limitou a dispersão de materiais radioativos mais perigosos, embora o acidente ainda tenha causado impactos significativos.

Em termos de saúde pública, Fukushima apresentou um cenário menos severo no curto prazo. Não houve mortes ou casos de doenças diretamente atribuídos à radiação. No entanto, as medidas de evacuação — que retiraram cerca de 100 mil pessoas de suas casas — tiveram consequências indiretas relevantes, incluindo cerca de 1.000 mortes, principalmente entre idosos.

Impactos

Ambos os acidentes envolveram a liberação de isótopos radioativos como o iodo-131, de efeito mais imediato, e o césio-137 e o estrôncio-90, associados a riscos de longo prazo devido às suas meias-vidas de cerca de 30 anos. Ainda assim, a quantidade liberada variou significativamente entre os dois casos.

“Cerca de 25 petabecquerels (PBq) de césio-137 foram liberados no meio ambiente pelos três reatores danificados de Fukushima, em comparação com uma estimativa de 85 PBq para Chernobyl”, destacou Lyman. Esse dado reforça a percepção de que o desastre soviético teve maior impacto ambiental direto.

Apesar disso, Fukushima também gerou preocupações persistentes, especialmente relacionadas à contaminação da água e aos desafios de descomissionamento da usina. A área ao redor foi isolada em um raio de 20 quilômetros, e o processo de limpeza segue em andamento.

Acidente brasileiro

Enquanto Chernobyl e Fukushima são frequentemente analisados sob a ótica da engenharia nuclear e da segurança energética, o acidente com o césio-137 no Brasil teve uma natureza distinta — mas não menos grave. Em setembro de 1987, em Goiânia, um aparelho de radioterapia abandonado deu origem ao maior acidente radiológico em área urbana do mundo.

Sem conhecimento sobre os riscos, dois catadores retiraram o equipamento das ruínas de uma clínica desativada. Ao desmontarem o aparelho, acabaram expondo o cloreto de césio-137, um material que, apesar de letal, chamava atenção por seu brilho incomum.

O que parecia “mágico” era, na verdade, letal. A substância rapidamente se espalhou entre moradores, que chegaram a compartilhar o material com familiares e vizinhos. Em poucos dias, sintomas começaram a surgir, mas inicialmente não foram associados à radiação.

A situação só foi identificada quando parte do equipamento foi levada à Vigilância Sanitária. A partir daí, teve início uma operação de emergência que revelou altos níveis de contaminação em diferentes pontos da cidade. “Quando fomos até a casa de Ivo, sua filha Leide era uma fonte ambulante. Os valores que ela tinha eu não conseguia medir, o detector já estava saturado também. As taxas eram extremamente elevadas, inadequadas para o convívio de qualquer ser humano, por isso foi evacuada toda a região”, relatou o físico Valter Mendes.

Ao todo, sete áreas foram evacuadas, e cerca de 112 mil pessoas passaram por triagem e descontaminação. O acidente deixou quatro mortos diretamente, além de centenas de pessoas com sequelas graves. Mais de 6.000 toneladas de material contaminado foram recolhidas e armazenadas em estruturas de concreto.

Diferenças gerais

Diferentemente dos acidentes nucleares, o episódio de Goiânia não envolveu reatores ou falhas tecnológicas complexas, mas sim negligência no descarte de material radioativo e desconhecimento da população. Ainda assim, seus efeitos foram amplos, incluindo impactos sociais como o estigma enfrentado pelos contaminados.

Ao comparar os três casos, fica evidente que, embora todos envolvam radiação, suas causas e consequências variam significativamente. Enquanto Chernobyl representou o maior desastre nuclear em termos de liberação de material radioativo e impacto imediato, Fukushima destacou os riscos associados a desastres naturais em instalações nucleares. Já o acidente com o césio-137 evidencia como falhas no controle de materiais perigosos podem gerar tragédias mesmo fora do contexto industrial.

“Ninguém deve subestimar os desafios necessários para garantir que a energia nuclear seja segura o suficiente para desempenhar um papel importante no futuro energético mundial”, afirmou Lyman, por fim. “A chave para os reguladores e operadores é sempre se preparar para o inesperado”.

Fonte: Aventuras na História

 

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