ARACAJU/SE, 18 de maio de 2024 , 4:22:29

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Com aumento desenfreado do dólar, preço do pão Jacó em Sergipe deve subir entre 5% a 10%

Joângelo Custódio, repórter AJN1

Sergipano que se preza, em algum momento da vida já foi à padaria comer pão Jacó, fumegando, com a tradicional manteiga da terra ou simplesmente com queijo coalho. Isso, é claro, sem esquecer de levar uma dúzia para casa, a pedido da mãe ou cônjuge. Mas a ida à padaria pode ficar mais salgada. Isso porque o preço do pão Jacó, que em outras regiões do país recebe as alcunhas de Francês ou de Sal, deve pesar no bolso dos consumidores nos próximos meses.

O presidente do Sindicato dos Panificadores do Estado de Sergipe, Antônio Carlos Araújo, disse com exclusividade ao portal AJN1 que, se o dólar (moeda americana) não voltar a patamares navegáveis, será inevitável aumentar o preço do pãozinho, que pode ascender entre 5% a 10%.

“Estamos todos preocupados com esse aumento do dólar. Prejudica o cliente e o trabalhador. Já há padarias que estão dispensando funcionários, porque não estão conseguindo pagar o salário. Se o dólar continuar nesse patamar, a tendência é não segurar mais o aumento. Será impossível. Não subimos o preço ainda porque não queremos perder clientes, mas é algo insustentável”, revela Antônio.

Vilão

Como já era de se deduzir, o vilão que puxou esse tormento para a mesa dos sergipanos tem nome e valor comercial: alta do dólar, que nesta terça-feira (6), após um breve recuo, beira a casa de R$3,919. O leitor deve estar se perguntando o porquê da moeda americana interferir tanto no preço final do pãozinho dourado e crocante. A resposta é coesa: cerca de 70% do trigo   ?  principal ingrediente do pão nosso de cada dia   ? , que o Brasil consome vêm de importação.

De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), até o último mês de agosto de 2015, o Brasil importou mais trigo da Argentina, 2.717.376,61 toneladas, representando mais de U$680 mil. Os Estados Unidos vêm em segundo lugar, com importação de 295.339,29 toneladas.

Até agosto de 2015, entre os estados brasileiros que importam trigo, Sergipe desponta em 11º lugar, com 75.547,43 toneladas.

Exportação

Em contrapartida, apenas 30% do trigo são produzidos no Brasil. Os principais moinhos estão localizados no Rio Grande do Sul, com produção de 1,2 milhões de toneladas, representando 87,10%; em seguida vem o Paraná, com 170 mil toneladas, 11,85% do total, na sequência estão Santa Catarina, 8 mil toneladas (0,56%) e São Paulo, com 6,9 mil toneladas (0,49%).

Dependendo de quanto o dólar subir, esse aumento de preços poderá se tornar generalizado, aumentando a inflação por aqui, contribuindo para a nefasta crise financeira que atola o país.

Preços

Para atender a uma demanda de mais de dois milhões de habitantes, Sergipe possui cerca de 1200 panificações. Na Grande Aracaju há cerca de 500 padarias, segundo Antônio Carlos Araújo.

Em Aracaju, o quilo do pão varia entre R$5, R$7 e R$8, esse último é praticado, evidentemente, na zona Sul, onde há maior concentração de classes abastadas. Enquanto na zona Norte, há padarias que não vendem a quilo, e sim, por unidade, o que sai mais em conta.

“Se aumentar o preço, tenho medo de perder clientes. Mas em contrapartida, vamos ver se o dólar consegue baixar de patamar. Se continuar desse jeito, não teremos outra opção”, afirma o panificador do bairro Palestina, na zona Norte da capital, Antônio dos Santos.

Outro panificador que não está nada contente com o aumento do dólar é Joseval Silveira. Ele é proprietário de uma padaria no Centro de Aracaju e já disse que não vai demorar muito para aumentar o preço do milenar pãozinho. “Vamos passar a comprar trigo mais caro, aí a situação fica um pouco desestabilizada. Vou ser obrigado a abrir mão de alguma coisa da padaria para compensar”, diz.

 

Um pouco da história do pão

Segundo os pesquisadores, é estimado que os primeiros pães tenham surgido há 12 mil anos na Mesopotâmia, onde atualmente está situado o Iraque, juntamente com o cultivo do trigo. A fermentação é o segredo do pão. O pão levedado foi inventado no Egito, onde, há cerca de 6.000 anos, seria descoberta a fermentação.

No Rio de Janeiro, então capital brasileira, cresceu o número de cafés e confeitarias que reproduziam o costume francês de servir com estilo e elegância. E as padarias, que ainda produziam um pão de casca e miolo escuros, começaram a ser solicitadas a reproduzir o pãozinho de casca dourada e miolo branco dos franceses.

No Brasil colônia, os portugueses trouxeram o pão europeu, mais duro e de tonalidade mais escura. Em 1910, os brasileiros descobriram e copiavam tudo que vinha de Paris e na gastronomia não foi diferente. Então, os padeiros, pela descrição dos viajantes, criaram uma receita que passaram a chamar de “pão francês”.

Na verdade, a receita que os padeiros criaram atendeu, sim, às exigências de casca dourada e miolo branco, mas superou as características do pãozinho original, por ser mais macio e saboroso, com o acréscimo de um pouco de açúcar e gordura na massa, dando o sabor brasileiro. Hoje em dia, dizem que o nosso pão francês é um dos melhores do mundo e que alguns estrangeiros nos procuram para copiar a receita do nosso pão “tipo francês”, que eles chamam de “pão brasileiro”.

Ao longo dos anos, o novo pão francês foi ganhando cara e apelidos diferentes em várias partes do país, como Pãozinho, em São Paulo, Pão Massa Grossa, no Maranhão, Cacetinho, no Rio Grande do Sul e Bahia, Pão Careca, no Pará, Pão Média, na Baixada Santista, Pão Jacó, aqui em Sergipe, Pão Aguado, na Paraíba, Pão de Sal ou Pão Carioquinha (Rio de Janeiro e Ceará).

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