De certa maneira, nunca saímos da Idade da Pedra. Três milhões de anos após a fase da pedra lascada, chegamos à era das rochas refinadas e organizadas com precisão nanométrica – que chamamos carinhosamente de microchips. Mas, essencialmente, continuamos manipulando rochas. “A inovação em semicondutores é, no fundo, a arte de controlar materiais em escala atômica”, já disse Gordon Moore, cofundador da Intel. “Um computador é apenas areia que nós ensinamos a pensar”, afirma o astrofísico Neil deGrasse Tyson. Ensinar areia a pensar, claro, não é simples. A natureza até permite pedras pensantes, mas não foi feita desse jeito. “A segunda lei da termodinâmica diz que o universo deve sempre caminhar da ordem para a desordem, mas é possível criar ordem em pequenos bolsões”, diz o físico britânico Brian Cox. “Nossa civilização é um desses bolsões. Nós pegamos as matérias-primas da Terra e as organizamos em estruturas de imensa complexidade”.
Nossos antepassados hominídeos não exigiam muita coisa da pedra: bastava ser quebradiça o bastante para lascar, e resistente a ponto de se manter afiada após cortar carnes, couros e madeiras. Hoje, somos mais seletivos em nossas ferramentas. Motor da inteligência artificial (IA), cada chip central de data center GPU da Nvidia concentra, no espaço de oito centímetros quadrados, algo entre 30 e 50 quilômetros de filetes de minerais críticos – nanoavenidas por onde elétrons circulam, ordenadamente, à velocidade da luz. “Quando você desce à escala de um transistor moderno, as leis da física intuitiva desaparecem”, diz Cox. “A precisão necessária para que bilhões desses componentes funcionem em harmonia é o que há de mais próximo de um milagre científico.”
O salto de complexidade da computação não acontece apenas dentro do chip. Sistemas de inteligência artificial exigem arquiteturas inteiras otimizadas para processamento paralelo, grandes volumes de memória e interconexões ultrarrápidas entre servidores – além de um enorme volume de energia. “Data centers estão se tornando fábricas de inteligência, instalações industriais cujo produto final não é físico, mas computacional”, afirma Jensen Huang, CEO da Nvidia. Além do consumo de eletricidade dos processadores, parte crescente da energia é usada para resfriamento, conversão e transmissão de dados. Isso transforma o desafio material da IA em algo mais amplo: não se trata apenas de fabricar chips melhores, mas de sustentar ecossistemas energéticos e industriais inteiros. Um único complexo de data centers, como o que a Microsoft mantém em Boydton, nos Estados Unidos, pode consumir mais de 300 MW – eletricidade suficiente para abastecer mais de 1 milhão de residências brasileiras.
Segundo a McKinsey, o setor de data centers precisa investir US$ 6,7 trilhões para triplicar sua capacidade, até 2030, a fim de atender à demanda. Desse total, US$ 5,2 trilhões devem ser aplicados apenas em data centers para IA. Intensivos em eletricidade, esses megacomputadores devem consumir cerca de 600 terawatts/hora em 2026, de acordo com um relatório da Moody’s. O aumento do consumo de eletricidade convive com o objetivo de depender menos do petróleo – um outro tipo de pedra –, formalizado nas metas de descarbonização da economia assinadas no Acordo de Paris, em 2015, e reforçadas na COP28 (2023), que estabeleceu o compromisso global de “fazer a transição para longe dos combustíveis fósseis”. Para capturar energia do sol, dos ventos e das águas, são necessários painéis fotovoltaicos, geradores, baterias e condutores de alta eficiência – e todos dependem de minerais, se não raros, estratégicos.
Para fazer a areia pensar, estimulada por energia limpa – em servidores de IA, smartphones e robôs de toda espécie –, não basta qualquer pedra. O homem foi encontrar a melhor resposta para seus novos desafios nas terras raras – um grupo de 17 minerais que, aliás, não serviriam como pedras lascadas, por terem consistência mole. Lantânio, cério, praseodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio, lutécio, escândio, ítrio e, principalmente, o neodímio. Quando combinado com ferro e boro, ele cria os ímãs permanentes mais poderosos do planeta, capazes de sustentar até 1,3 mil vezes o seu próprio peso. É essa força descomunal em tamanho reduzido que permite que motores elétricos sejam pequenos o suficiente para caber em um drone e eficientes o bastante para mover um Tesla. Fiéis à segunda lei da termodinâmica, esses 17 elementos existem em desordem: espalhados pelo planeta, misturados entre si e a outras rochas especialmente tóxicas. A mineração é arriscada. O refino é complexo. Mas a demanda é gigantesca.
A indústria requisita entre 300 mil e 350 mil toneladas de terras raras por ano, de acordo com o relatório Rare Earth Magnet Market Outlook to 2040, da Adamas Intelligence. Esse consumo poderá crescer para mais de 2 milhões de toneladas anuais até 2050 (avaliados em US$ 770 bilhões), impulsionado principalmente pela necessidade de ímãs permanentes para motores de veículos elétricos, geradores de energia eólica, acumuladores de energia e infraestrutura para data centers. Para evitar um apagão de minerais, a Bloomberg New Energy Finance (BNEF) estima a necessidade de investimentos globais superiores a US$ 2,1 trilhões até 2050. “Teremos que extrair mais minerais nos próximos 30 anos do que a humanidade extraiu nos últimos 70 mil anos”, afirma Guillaume Pitron, autor do livro A Guerra dos Metais Raros.
Hoje, a maior parte das terras raras vem de uma terra só: a China. “O Oriente Médio tem o petróleo, a China tem as terras raras”, disse em 1992 o então líder Deng Xiaoping. Dono das maiores reservas do mundo, com 45 milhões de toneladas, o país priorizou pesquisas e investimentos na mineração desde o plano plurianual de 1980 – além de assumir riscos ambientais que o Ocidente, escaldado por acidentes nucleares como os de Three Mile Island (EUA) e Chernobil (Ucrânia), preferiu evitar. Fora as reservas, a China responde por cerca de 70% da extração e 90% do refino dos minerais essenciais às indústrias de tecnologia e de energia de baixo carbono. Mesmo quando minerais são extraídos em outros países, frequentemente seguem para refinarias chinesas, onde são separados, purificados e transformados em materiais industriais. É essa etapa intermediária – intensiva em tecnologia, energia e controle ambiental – que concentra maior valor estratégico. Nem a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), no auge da concentração de mercado, teve tamanho domínio de mercado.
A concentração da produção de terras raras incomoda a chineses (pelo impacto ambiental da mineração desordenada) e a outros países, em especial os Estados Unidos, pelo risco de esse predomínio ser usado para manipulações de preços de commodities, concorrência desigual em produtos manufaturados ou ferramenta de pressão geopolítica. Em 2010, restrições da China à exportação de terras raras durante uma crise diplomática com o Japão serviram como alerta global sobre a vulnerabilidade das cadeias produtivas. Desde então, Estados Unidos e União Europeia passaram a financiar projetos de mineração, refino e reciclagem para tentar reduzir a concentração do fornecimento.
Sem as terras raras chinesas para construir chips, os algoritmos de IA das empresas do Vale do Silício não podem rodar. “O lítio e as terras raras logo serão mais importantes que o petróleo e o gás”, disse Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, em 2022. “Nossa dependência da China não é apenas econômica, é um risco de segurança nacional”, completou. “Não dá para ter liderança tecnológica sem segurança nas cadeias minerais”, afirmou Jake Sullivan, ex-conselheiro da Casa Branca no governo Joe Biden, em 2025.
Líderes no desenvolvimento de soluções de inteligência artificial e descarbonização da economia, Estados Unidos e China entendem que a disputa pelo mercado global pode ser decidida pela mãe natureza. É, mais uma vez, uma batalha de pedras e paus. Naquilo que o historiador Niall Ferguson definiu como uma segunda Guerra Fria, os dois países buscam formar grupos de países aliados. Desta vez estão em jogo as reservas de terras raras (para produção de equipamentos eletrônicos, em especial os microchips), energia elétrica (para alimentar data centers de IA) e fontes de água (para refrigerar data centers, além de produzir alimentos).
Nessa nova ordem mundial, o Brasil tem uma chance histórica de se destacar. O país tem a segunda maior reserva de terras raras no mundo, cerca de 25 milhões de toneladas, e matriz energética limpa, com 50% de energia renovável. “Queremos atrair a cadeia de processamento dessa riqueza para o território brasileiro, sem fazer opções excludentes”, afirma o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Somos relevantes em relação à quantidade e variedade de recursos minerais. Enquanto alguns países têm um, dois metais estratégicos, nós temos quase todos”, diz Aline Nunes, gerente de assuntos minerários do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).
Segundo maior produtor mundial de minério de ferro, o Brasil pode aproveitar a corrida pelas terras raras e pela descarbonização da economia para qualificar e diversificar seu portfólio. Um exemplo é a parceria que a CBMM (responsável por cerca de 80% do mercado mundial de nióbio) fez com a britânica Echion Technologies para fabricar, em Araxá, ânodos para baterias de carros elétricos. “Atualmente, 75% da receita da CBMM tem origem na venda de produtos para a indústria siderúrgica, enquanto os demais 25% já provêm de novos materiais e aplicações”, diz Rafael Mesquita, diretor de Tecnologia da empresa.
A oportunidade existe, mas a execução não é fácil. Ter o recurso no subsolo não é necessariamente riqueza. Afinal, a pedra está lá inerte. As reservas só trazem desenvolvimento se o país tiver um ambiente previsível para o investidor e desenvolver cadeias de produção. “Um exemplo é o inventário dos recursos minerais do subsolo. Apenas 4% do nosso território está mapeado com estudos detalhados, e outros 27% têm uma avaliação de qualidade intermediária. Para você ter ideia, no Canadá e na Austrália, esse percentual é de mais de mais de 90%”, diz Aline. Segundo o Fraser Institute, o país é apenas o 56º mais competitivo do mundo, devido a “riscos fiscais, burocracia e alta carga tributária”.
Fonte: Época Negócios





