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Entrevista especial: Corações Naufragados tem estreia prevista para este ano nos cinemas

25/07/2026 às 06:05

 

Produzido em Sergipe, o longa-metragem “Corações Naufragados” deve chegar aos cinemas ainda este ano. Com roteiro e produção da sergipana Cacilda de Jesus, o longa traz uma história de amor em meio à guerra e retrata os ataques do submarino alemão U-507 à costa do Sergipe, em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, que matou mais de 600 pessoas e marcou a entrada do Brasil no conflito. Na entrevista a seguir, Cacilda de Jesus revela, entre outras coisas, que foi inspirada pelas memórias da avó Dona Fiinha, pescadora, que ajudou náufragos, junto ao marido, o avô Elísio. O casal estava acampando em Mangue Seco quando vivenciou a tragédia de perto. Cacilda também destaca os desafios e o processo de produção. “Colocar Sergipe no centro desta narrativa nacional é, portanto, uma forma de resgatar uma história que precisa ser conhecida, valorizada e compartilhada com todo o Brasil”, destaca. 

 

 

Correio de Sergipe/AJN1 – Vou iniciar a entrevista com uma pergunta que muitos amantes do cinema estão se fazendo. Quando Corações Naufragados estreará nos cinemas?

 Cacilda de Jesus – O filme Corações Naufragados ainda não tem uma data de estreia definida, pois estamos em fase de finalização da obra. Assim que concluirmos essa etapa e tivermos a confirmação da data de lançamento, iniciaremos uma ampla campanha de divulgação para apresentar o filme ao público e compartilhar todas as informações sobre sua estreia. Colocar Sergipe no centro desta narrativa nacional é, portanto, uma forma de resgatar uma história que precisa ser conhecida, valorizada e compartilhada com todo o Brasil. 

 

CS/AJN1 – O torpedeamento dos navios em 1942 é um dos eventos mais marcantes da história de Sergipe, mas muitos brasileiros não o conhecem. Qual é o tamanho da responsabilidade de colocar Sergipe no centro de uma narrativa histórica nacional? 

Cacilda de Jesus  – Os torpedeamentos dos navios na costa de Sergipe e da Bahia estão entre os acontecimentos mais importantes da história recente do Brasil. Infelizmente, mais de 600 pessoas perderam suas vidas e muitos sergipanos ainda não conhecem essa história. Imagine, então, o restante do país.

Como roteirista e produtora, também para a WG Produções e toda a equipe do filme, existe uma grande responsabilidade em contar essa história. Os torpedeamentos contribuíram para a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial e deixaram os povos de Sergipe e da Bahia como herdeiros de uma tragédia sem precedentes. Colocar Sergipe no centro desta narrativa nacional é, portanto, uma forma de resgatar uma história que precisa ser conhecida, valorizada e compartilhada com todo o Brasil. 

 

CS/AJN1 – Como a sua vivência e o seu olhar como mulher sergipana influenciaram a forma de contar essa história sobre a Segunda Guerra Mundial?

 Cacilda de Jesus – Fazer cultura é difícil em qualquer lugar do Brasil. Tirar do papel um projeto de longa-metragem de época, produzido em Sergipe, era um sonho que muitas vezes parecia impossível.

Trabalho neste projeto há dez anos e, graças a um edital nacional da Agência Nacional do Cinema (ANCINE), conseguimos conquistar parte dos recursos necessários para realizar a etapa de produção. Esse apoio foi fundamental para que o sonho começasse a se tornar realidade, embora ainda estejamos buscando recursos para concluir a etapa de finalização.

Conviver com as memórias da minha avó e ter o desejo de ver Sergipe se destacar no cenário nacional, com um filme bem produzido, um elenco e uma equipe maravilhosos, é a realização de um grande sonho.

Para mim, como mulher preta, professora de História, sergipana e profundamente apaixonada pela história do meu país, contar essa história é também uma forma de afirmar que podemos ocupar espaços e realizar grandes projetos a partir do Nordeste. É levar para o cinema uma história que faz parte da nossa memória e mostrar que Sergipe também tem histórias importantes para contar ao Brasil e ao mundo.

 

CS/AN1 – Como foi para você trazer um drama histórico marítimo e cosmopolita

ambientado em Sergipe?

 Cacilda de Jesus  – Não foi fácil. Quando escrevemos um roteiro para o cinema, precisamos fazer escolhas. No início, precisei definir se Corações Naufragados seria uma história de guerra ou uma história de amor em tempos de guerra. O primeiro passo foi decidir que seria, sobretudo, uma história de amor em meio à guerra.

Eu costumo dizer que Corações Naufragados tem algo de espiritual. A ideia de escrever o roteiro nasceu, em grande parte, das memórias da minha avó, mas também tem relação com um sonho recorrente: o sonho de um amor impossível entre uma moça e um homem que vinha do mar.

Quando defini o romance entre Francisco e Lucinda, a história começou a ganhar muita força. Fomos mesclando ficção e história, passando por diferentes espaços: a cidade grande, como o Rio de Janeiro; Aracaju; e os povoados de pescadores, como Mangue Seco e Praia do Saco.

Foi justamente essa mistura que permitiu construir um drama histórico marítimo e cosmopolita, com uma narrativa que parte de Sergipe, mas dialoga com diferentes lugares, culturas e experiências humanas. A história de amor entre Francisco e Lucinda se desenvolve em meio a um dos períodos mais dramáticos da história mundial, conectando a memória local a uma dimensão universal.

 

CS/AJN1 – Durante a escrita, você já imaginava cenas em locais como  São Cristóvão. Estância e Aracaju? Como a geografia real do estado moldou o seu roteiro?

 Cacilda de Jesus  – Sim. Os locais estavam muito bem definidos na minha cabeça. A história começa no Rio de Janeiro e, por isso, precisei viajar muitas vezes para lá, principalmente para visitar o centro histórico da cidade e pesquisar os espaços que poderiam fazer parte da narrativa.

Precisávamos encontrar um submarino e um navio antigo que pudessem se aproximar visualmente do U-507 e do Baependi. No entanto, o orçamento limitado do filme não nos permitiu realizar filmagens fora de Sergipe. Por outro lado, essa limitação acabou se transformando em uma oportunidade e valorizou o filme, que foi inteiramente realizado em locações sergipanas.

As cenas que representam o Rio de Janeiro foram gravadas em diferentes locais de Sergipe, como o Porto de Sergipe, da VLI; a Praça Fausto Cardoso; o Palácio Museu Olímpio Campos; o Arquivo Público de Sergipe; a sede da OAB; e o Centro Cultural de Aracaju.

Também filmamos em São Cristóvão, no Crasto, em Santa Luzia do Itanhy, e na Praia do Saco, em Estância. As locações ficaram muito bonitas e contribuíram para a construção da atmosfera do filme.

Dessa forma, a geografia do estado acabou moldando o roteiro, principalmente porque a própria história se passa em Sergipe. Foi aqui que ocorreu o maior número de mortes e onde a população vivenciou mais diretamente as consequências dos ataques do submarino alemão U-507.

No fim, o que poderia parecer uma limitação de produção acabou se transformando em uma força narrativa. Sergipe não é apenas o cenário de Corações Naufragados: o estado é parte fundamental da história que estamos contando.

 

CS/AJN1 – Você chegou a ouvir relatos e/ou memórias de famílias sergipanas que foram afetadas direta ou indiretamente pela tragédia dos navios Baependi e Aníbal Benévolo?

 Cacilda de Jesus – Em 2022, durante a produção do documentário Memórias de um Agosto Sangrento, tivemos a oportunidade de entrevistar pesquisadores especialistas no tema, como o Dr. Luiz Antônio Pinto, o Dr. Dilton Maynard e a Dra. Roberta Rosa, além de pessoas idosas, com mais de 90 anos, que eram crianças na época dos torpedeamentos.

Hoje, infelizmente, são poucas as pessoas ainda vivas que presenciaram aqueles acontecimentos. Um exemplo de memória viva é o memorialista Murilo Melins e do jornalista Luiz Eduardo Costa, que compartilharam conosco suas lembranças.

Esses depoimentos foram muito importantes para a produção e a pesquisa de Corações Naufragados. São relatos impressionantes e comoventes, que nos permitem compreender não apenas a dimensão histórica da tragédia, mas também as marcas que ela deixou na memória das pessoas e das famílias sergipanas.

 

CS/AJN1 – Você mergulhou em documentos por anos. Qual foi o registro ou depoimento que mais te impactou emocionalmente durante o desenvolvimento do roteiro?

 Cacilda de Jesus  – Sim, não havia como escrever o roteiro sem realizar uma vasta pesquisa. Mergulhei, principalmente, na pesquisa do professor doutor Luiz Antônio Pinto Cruz, o nosso querido Luizão.

Quando temos paixão por um assunto, tudo nos interessa e nos emociona. Cada descoberta, cada relato e cada documento passa a ter um significado especial.

Mas o depoimento da minha avó, Emerentina Ana do Nascimento, ainda me emociona até hoje. Foi graças a ela que tomei conhecimento dos torpedeamentos ocorridos na costa de Sergipe e da Bahia. E foi a partir dessa memória familiar que nasceu o meu interesse por essa história, que me levou a escrever e produzir Corações Naufragados.

 

CS/AJN1 – O filme movimentou o setor cultural do estado, empregando técnicos e atores sergipanos. Como você enxerga o atual momento e o potencial do cinema feito em Sergipe hoje?

 Cacilda de Jesus  – Uma produção como Corações Naufragados envolve muitas pessoas. Tivemos uma equipe com mais de 70 profissionais, oito atores no elenco principal, mais de 40 atores sergipanos e cerca de 150 figurantes. Além disso, contratamos serviços de transporte, locação de equipamentos, alimentação, passagens aéreas, hospedagem, lavanderia e profissionais técnicos locais, além de técnicos de diversas partes do Brasil. Uma produção desse porte movimenta toda uma cadeia do audiovisual e da economia local.

O cinema sergipano está em ascensão. Com as políticas nacionais de incentivo, como a Lei Paulo Gustavo e a Lei Aldir Blanc, tenho certeza de que teremos uma nova leva de excelentes produções audiovisuais, muitas delas com potencial comercial e capazes de levar o nome de Sergipe para além das nossas fronteiras.

Em 2024, participamos do Festival de Cinema de Gramado com o documentário Velho Chico, a Alma do Povo Xokó, concorrendo a um dos mais importantes prêmios do cinema brasileiro. Também tivemos o filme sergipano “Óleo selecionado para o Festival de Cannes. Isso é maravilhoso e demonstra a força e o potencial do nosso cinema.

 

CS/AJN1 – Quais foram os maiores desafios que você enfrentou para tirar do papel um filme de época, com alta exigência de produção, produzindo a partir de Sergipe?

 Cacilda de Jesus  – Encontrar pessoas que acreditassem no projeto, além da minha família e dos meus amigos, aqui destaco Wilson Goes e Caco Souza.  Muitas pessoas diziam que eu era louca. E, talvez, eu seja mesmo um pouco, porque não é fácil sonhar com um filme de R$ 6 milhões e conseguir realizá-lo com apenas R$ 3,5 milhões que ainda não foram totalmente captados.

Mas eu sempre acreditei que essa história precisava ser contada. E, mesmo diante das dificuldades, nunca desisti. Fomos avançando, encontrando parceiros maravilhosos e pessoas que também acreditaram na importância desse projeto.

Recentemente, conseguimos o patrocínio da Universidade Tiradentes, por meio da Lei do Audiovisual, mas precisamos de mais patrocinadores por meio de incentivo fiscal. 

Posso dizer que Corações Naufragados está ficando muito lindo. É um filme que está sendo construído com muita luta, muita dedicação e, acima de tudo, muita paixão. Quando olho para tudo o que já conseguimos realizar, apesar de todas as dificuldades, tenho a certeza de que talvez fosse mesmo um pouco louca por acreditar nesse sonho. Mas foi justamente essa “loucura” que me fez continuar. E hoje estamos muito perto de concluir um filme que é de Sergipe, é povo sergipano. 

 

CS/AJN1 – A protagonista Lucinda desafia as convenções ao escrever sob um

pseudônimo masculino. Como você construiu a jornada dela em um cenário dominado por homens e pela repressão política?

 Cacilda de Jesus – A Lucinda, interpretada maravilhosamente por Olívia Torres, de Ainda Estou Aqui, está dentro de uma proposta que tenho como roteirista: construir protagonistas mulheres fortes e complexas. Eu queria que Lucinda fosse uma mulher forte, corajosa, politizada e determinada. Uma mulher que, mesmo diante das adversidades e das tragédias, tivesse coragem de ser quem é e de desafiar as convenções do seu tempo.

O fato de ela escrever sob um pseudônimo masculino revela muito sobre a sociedade em que vivia e sobre as barreiras impostas às mulheres. Lucinda precisava encontrar uma forma de fazer sua voz ser ouvida em um mundo dominado pelos homens.

Ela representa muitas mulheres que foram silenciadas ao longo da história, mas também dialoga com muitas mulheres dos dias atuais que continuam lutando pelo direito à liberdade de expressão e pelo direito de ocupar espaços que, durante muito tempo, lhes foram negados.

Para mim, Lucinda é uma personagem que representa resistência. Uma mulher que, mesmo vivendo em um contexto de repressão política e social, não aceita simplesmente permanecer em silêncio.

 

CS/AJN1 – Como foi equilibrar o rigor histórico dos ataques com a necessidade

dramática de criar uma história de amor e suspense?

 Cacilda de Jesus  – Eu conheci essa história por meio da memória da minha avó, Dona Fiinha, moradora do povoado Convento, em Indiaroba. Ela era pescadora e, na noite de 15 de agosto de 1942, estava acampada em Mangue Seco com meu avô, Elísio. Os dois ajudaram náufragos e vivenciaram aquela tragédia de perto.

Eu cresci ouvindo essa história. Também brinquei com malas de couro que minha avó havia encontrado à beira-mar, os chamados “malafogados”, como o professor Luizão costuma dizer.

Não foi nada fácil construir esse filme. Trabalhei com o rigor historiográfico, a partir das fontes oficiais e das memórias de pessoas simples que vivenciaram a tragédia de perto, mas também com a liberdade da ficção.

Essa é uma proposta que está dentro da linha de trabalho em que acredito: o cinema-história, já está presente nos documentários que venho produzindo. É um cinema que parte da pesquisa, da memória e dos fatos históricos, mas que encontra na ficção uma forma de aprofundar a experiência humana e tornar essas histórias ainda mais vivas para o público.

 

CS/AJN1 – O filme dialoga com o presente ao reforçar uma mensagem contra a guerra. Qual é a principal reflexão que você deseja que o público leve para casa após assistir ao longa?

 Cacilda de Jesus  – Corações Naufragados nasceu com o objetivo de contar uma história de amor em meio à guerra, em um dos períodos mais dolorosos da experiência humana. A Segunda Guerra Mundial. 

O filme também resgata um capítulo marcante da história de Sergipe: o afundamento do navio Aníbal Benévolo, que fazia parte da rotina do Estado, transportando mercadorias e passageiros para outras regiões do Brasil. Na tragédia, das 154 pessoas a bordo, apenas quatro tripulantes sobreviveram. Foi um golpe devastador para Sergipe, que perdeu muitos de seus filhos. Ao contar essa história, queremos preservar a memória dessas vítimas e lembrar que os impactos de uma guerra vão muito além do jogo de interesse entre nações.

Quando há guerra, não é apenas a economia que sofre. Quem paga o preço mais alto são as pessoas inocentes: famílias destruídas, sonhos interrompidos e vidas perdidas. As guerras são decididas por poucos, mas atingem principalmente aqueles que não tiveram qualquer participação nelas.

A principal reflexão que espero que o público leve para casa é que toda guerra cobra um preço humano inaceitável. Precisamos valorizar a paz, a memória e a humanidade, para que tragédias como essa jamais sejam esquecidas ou repetidas.

 

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