O médico oftalmologista Allan Luz, integrante do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e que acaba de deixar a presidência da Sociedade Sergipana de Oftalmologia, faz um balanço da gestão à frente da entidade e alerta para a importância do diagnóstico especializado na prevenção de doenças oculares. Com atuação em áreas de alta complexidade, ele destaca o avanço tecnológico da oftalmologia, mas reforça que a avaliação médica é insubstituível. Na entrevista, também chama atenção para os riscos da realização de exames fora do ambiente médico e avalia o cenário da especialidade em Sergipe, que, segundo ele, conta hoje com profissionais qualificados e estrutura compatível com os principais centros do país. Confira a seguir:
– A oftalmologia reúne desde exames simples até procedimentos de alta complexidade. Por que é fundamental que o diagnóstico e o acompanhamento das doenças oculares sejam conduzidos por um médico especialista?
Allan Luz: A oftalmologia abrange desde exames simples até procedimentos de alta complexidade, o que torna fundamental que o diagnóstico e o acompanhamento sejam conduzidos por um médico especialista. É o médico quem está preparado para realizar a avaliação completa, com a investigação do histórico e dos antecedentes do paciente, seguida do exame clínico. A partir disso, ele estabelece o diagnóstico, solicita exames complementares e define o tratamento adequado. Nenhum outro profissional está habilitado para exercer esse papel.
– Nos últimos anos houve uma ampliação da oferta de exames de vista fora do ambiente médico. Quais são os riscos desse cenário para os pacientes?
Allan Luz: A ampliação da oferta de exames de vista fora do ambiente médico representa um risco à segurança dos pacientes. Há uma atuação de não-médicos em atividades que são próprias da medicina, algo que precisa ser combatido. Muitos desses profissionais atuam no ramo óptico e estão capacitados para confeccionar óculos, mas não para diagnosticar doenças. Sem a consulta médica, o paciente pode não ter acesso ao diagnóstico de condições oculares, muitas vezes silenciosas, como o glaucoma. Nesses casos, a perda de visão ocorre de forma progressiva e sem sintomas. Apenas o médico pode realizar exames como a aferição da pressão intraocular e o mapeamento de retina, essenciais para diagnóstico e prevenção. Quando o paciente procura atendimento já com a doença avançada, o dano pode ser irreversível.
– Você atua em áreas altamente especializadas como ceratocone, cirurgia refrativa e transplante de córnea. O que esses casos mostram sobre a evolução da oftalmologia?
Allan Luz: A oftalmologia passou por uma grande evolução nas últimas décadas, impulsionada principalmente pela tecnologia. Desde os anos 1990, houve uma incorporação significativa de equipamentos e técnicas. No caso do transplante de córnea, por exemplo, antes existia apenas um tipo de procedimento. Hoje, é possível realizar diferentes técnicas, inclusive transplantando apenas a camada afetada da córnea. Essa evolução torna os procedimentos mais precisos, seguros e com melhores resultados para os pacientes.
– Muitas doenças oculares evoluem de forma silenciosa e podem comprometer a visão quando não diagnosticadas. Qual é o papel do oftalmologista na prevenção?
Allan Luz: O papel do oftalmologista é identificar precocemente qualquer alteração. O ideal é que o paciente realize consultas anuais de rotina, nas quais são feitos exames completos, como biomicroscopia, mapeamento de retina e aferição da pressão intraocular. Esses exames permitem o diagnóstico precoce e o início do tratamento, evitando a progressão das doenças. Além disso, o médico também orienta sobre condições sistêmicas que podem afetar a visão, como a diabetes. Quando descontrolada, ela pode causar complicações graves, inclusive perda súbita da visão. Por isso, o acompanhamento médico é essencial tanto para prevenção quanto para orientação.
– Ao encerrar sua gestão à frente da Sociedade Sergipana de Oftalmologia, que avaliação faz desse período e quais foram as principais contribuições para a entidade?
Allan Luz: A Sociedade Sergipana de Oftalmologia tem como missão defender a saúde ocular da população e orientar a comunidade. Nossa gestão foi baseada em três pilares. O primeiro é a defesa do ato médico e o incentivo para que a população procure o oftalmologista. O segundo são as ações sociais, com iniciativas realizadas em escolas públicas e junto a pessoas em situação de vulnerabilidade. O terceiro é a atualização científica, por meio de simpósios e eventos periódicos, trazendo especialistas de fora para compartilhar conhecimento. Também conseguimos realizar, em Aracaju, o Congresso Norte-Nordeste de Oftalmologia, algo que não ocorria no estado há cerca de quinze anos.
– Sergipe tem se consolidado com profissionais qualificados e centros especializados. Qual é a importância dessas estruturas e dos especialistas locais para a população?
Allan Luz: Hoje, Sergipe conta com especialistas e tecnologia que não deixam a desejar em relação a nenhum estado do país. Dispomos de estrutura semelhante à de grandes centros como Recife, Salvador, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, tanto em equipamentos quanto em qualificação profissional. Historicamente, o estado sempre teve médicos pioneiros, como o doutor Mário Ursulino, que introduziu diversas tecnologias. Atualmente, seguimos com profissionais de destaque e estrutura adequada, o que permite que a população tenha acesso a atendimento especializado sem precisar se deslocar para outros estados.