Para impulsionar a competitividade da indústria brasileira, é necessário enfrentar desafios que incluem investimentos em transição energética, educação, qualificação de mão de obra e redução da carga tributária.
Esse foi o consenso dos palestrantes do seminário “A nova política industrial brasileira e o desafio de se tornar competitiva”, no auditório da Editora Globo, no centro do Rio.
Eles destacaram a importância da nova política industrial lançada pelo governo, mas apontaram a necessidade de resolver questões para o desenvolvimento sustentável do setor.
Rafael Lucchesi, diretor de desenvolvimento industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e diretor-superintendente do Sesi, destacou a carga tributária excessiva sobre a indústria em comparação com outros setores.
Ele observou que a indústria paga cerca de R$ 600 bilhões em tributos, enquanto a agricultura e pecuária pagam cerca de R$ 12 bilhões. Reduzir essa carga poderia liberar recursos para investimentos e aumentar a competitividade.
Lucchesi também salientou a importância de tornar a indústria mais verde devido à emergência climática.
Perpétua Almeida, diretora de economia sustentável e temas de defesa na Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), concordou que investir em transição energética e avanços tecnológicos é crucial para a descarbonização do setor.
Ela também enfatizou a importância de investir em educação e qualificação profissional para aumentar a competitividade.
Naercio Menezes Filho, professor titular da cátedra Ruth Cardoso no Insper, acrescentou que investir em educação básica é essencial para o desenvolvimento da indústria e da economia.
Ele mencionou que 70% dos alunos brasileiros estão abaixo do nível mínimo exigido em ciências, leitura e matemática, e apenas 50% das crianças estão alfabetizadas.
José Luis Pinho Leite Gordon, diretor de desenvolvimento produtivo, inovação e comércio exterior do BNDES, destacou a necessidade de superar a “demonização” da política industrial e criar uma política industrial perene, bem-feita e com financiamento adequado. Segundo ele, o Plano Mais Produção, parte da nova política industrial do governo Lula, é como um “Plano Safra da Indústria”.
O seminário dessa quarta-feira (21) discutiu como levantar recursos para inovação e viabilizar a transição energética e inclusão no setor industrial. O evento faz parte do projeto G20 no Brasil, que une O Globo, Valor e CBN na cobertura da presidência brasileira do grupo dos países mais ricos do mundo.
Custo de capital
Lucchesi afirmou que o custo de capital e os patamares atuais de subsídios devem ser considerados para tornar a indústria brasileira mais competitiva.
No caso do custo de capital, o especialista ponderou que o patamar de juros no Brasil ainda é mais elevado do que em outros países, bem como o de spread bancário. Na análise do diretor, o Brasil poderia alocar parcela mais expressiva de subsídios à indústria, como fazem outros países.
“Os países desenvolvidos gastam US$ 12 trilhões em subsídios à indústria, metade disso é somente os Estados Unidos”, disse Lucchesi.
Um exemplo apontado por ele foi a estratégia do governo em apoios ao setor agropecuário, com a Letra de Crédito do Agronegócio (LCA) e o Plano Safra, respectivamente em 2003 e em 2004. “Essas iniciativas têm sido fundamentais para financiamento do setor agropecuário”, exemplificou. “E é o que o mundo está fazendo [apoiar o financiamento do setor industrial]”, emendou.
Gordon, do BNDES, concordou que o setor produtivo precisa de taxas diferenciadas para investir em inovação. Por isso, disse, o governo criou a TR (Taxa Referencial), para o financiamento de projetos em inovação pelo BNDES.
“Não dá para a gente discutir inovação achando que vai apoiar com recursos [taxas] de mercado, porque o mundo não faz isso. Para se correr risco, que é inerente à inovação, você precisa de recurso diferenciado”, sustentou o diretor.
As condições de crédito do programa BNDES Mais Inovação variam por tipo de projeto. Nas mais vantajosas, o juro final é de TR mais uma taxa de remuneração mínima para o BNDES de 2,2%, o que poderá resultar num juro final pouco acima de 4% ao ano. No caso das operações indiretas, repassadas pelos bancos comerciais para as empresas de menor porte, o juro final está em torno de 7% ao ano.
O diretor do banco de fomento disse ainda que é preciso realizar uma política industrial de inovação para aumentar os investimentos no setor, além de olhar para experiências internacionais. “O mundo faz, sim, subsídios para o setor industrial. Faz barreiras tarifárias e estimula a produção local”, afirmou.
Gordon reiterou que o Plano Mais Produção, parte da nova política industrial do governo federal, e a Letra de Crédito de Desenvolvimento (LCD) são o início de uma “jornada” para criar uma estrutura de financiamento para o setor industrial. “Mas é o início, entendemos que precisa de mais recursos”, reconheceu.
Fonte: Valor Econômico







