ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 1:01:37

Negligenciar dose de reforço e abandonar máscara podem prejudicar combate à variante ômicron, diz secretária de enfrentamento à covid-19

A demora da população em buscar a dose de reforço vacinal, associada à queda acentuada no uso de máscaras, pode prejudicar seriamente o combate a uma eventual onda de casos envolvendo a variante ômicron no Brasil. O alerta é da cirurgiã Rosana Leite, que desde junho está à frente da Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19 do Ministério da Saúde.

Em entrevista ao Valor, ela disse que os estudos mais recentes mostram que a dose de reforço será primordial para evitar uma escalada de casos graves da nova cepa. A variante já levou a Europa e os Estados Unidos a retomarem medidas radicais de contenção, com cancelamentos de eventos e restrições à circulação de pessoas.

“Nós já distribuímos 40 milhões de doses de reforço e só 15 milhões foram aplicadas até agora”, reclamou a secretária, que também observa um recuo no uso de máscaras. “A gente espera que a população contribua. Percebemos muitas pessoas não usando máscaras”, completou ela, que antes de chegar ao ministério atuava no combate à pandemia como presidente do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul.

De acordo com Leite, todo o ano de 2022 ainda será marcado por vacinação, uso de máscaras e, pelo menos em tese, distanciamento social. “Não basta vacinar, temos que manter os cuidados”.

Crianças entre 5 e 11 anos devem estar entre o público a ser imunizado no ano que vem, apesar da polêmica em torno do assunto, alimentada pelo presidente Jair Bolsonaro (PL). A secretária diz que a vacinação do público infantil é peça importante na estratégia de conter a pandemia, apesar de reconhecer a preocupação dos pais com o assunto.

Ela lembrou que o país registrou, até o momento, cerca de 600 mortes de crianças possivelmente relacionadas com a covid-19 — número considerado baixo em termos estatísticos. Ainda assim, avalia que a vacinação é importante para a proteção desse público, considerando que o vírus costuma migrar de populações vacinadas para aquelas não imunizadas.

A secretária defende, no entanto, que os pais estejam de acordo, o que pede um trabalho intenso de orientação. “O convencimento é melhor do que a obrigação. Muitos pais estão preocupados e é importante que eles entendam”, afirmou ela, que aproveitou para enaltecer o trabalho da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O órgão voltou a ser alvo de ameaças após aprovar o uso da vacina da Pfizer em crianças. “A Anvisa fez um aprovação com bastante cautela e alertou para os cuidados”, disse a secretária. “Acreditamos nos critérios da Anvisa, mas ainda não sabemos o que vai acontecer lá na frente.”

Rosana Leite dará o seu parecer sobre a vacinação infantil após receber uma análise da Câmara Técnica Assessoria de Imunizações, que fica pronta na quarta-feira (22). Depois disso, uma consulta pública funcionará até o dia 4 de janeiro, data da audiência pública que vai debater o tema. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, sinalizou que a pasta se manifestará oficialmente no dia 5.

A preparação para uma eventual expansão da variante ômicron começou pela região Norte, que está na estação considerada “inverno” e que costuma ser uma porta de entrada de novas cepas. A pasta também havia identificado problemas de cobertura vacinal na região.

Segundo a secretária, equipes do ministério foram ao Amazonas e intensificaram a vacinação e a inspeção das unidades de saúde, de forma a evitar episódios como o colapso na oferta de oxigênio em Manaus, ocorrido em janeiro. “Os processos estão bem satisfatórios, fizeram o dever de casa. Mas a gente espera que a população contribua”, reforçou Leite, sobre a máscara.

O desenho atualizado do cenário pandêmico adiou os planos do ministério de apresentar uma proposta de flexibilização do uso da proteção facial. “Vamos continuar com a vacinação e com as outras medidas, como essa mudança cultural de usar máscara quando estiver  gripado, por exemplo. Também estamos revendo a projeção das doses de reforço. Será que vai precisar de mais? Já temos estudos próprios em andamento pra saber”, explicou Leite.

A ideia, segundo a secretária, é que o reforço seja concentrado nas vacinas da Pfizer e da AstraZeneca, mas a Janssen também segue no radar. Se for aprovada para o uso em crianças, a Coronavac ainda poderá ser considerada, segundo explicou ela. Os estoques atuais são suficientes, mas a demanda pode mudar a depender do que disserem os estudos sobre os reforços anuais.

Pessoas com problemas de imunidade, por exemplo, já estão sendo orientadas a tomar uma quarta dose. Para os demais adultos, o intervalo entre a segunda aplicação e o reforço foi reduzido de 5 para 4 meses.

Sobre o passaporte sanitário, a secretária entende que a proteção das fronteiras é importante para o controle da pandemia. Lembrou que o ministério promoveu a vacinação de pessoas que vivem no lado estrangeiro de cidades fronteiriças e que está oferecendo vacina nos aeroportos. Leite evitou, contudo, defender a obrigatoriedade da imunização para ingresso no país.

Fonte: Valor Econômico

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