Quase quatro anos após o naufrágio do famoso transatlântico Titanic, outra embarcação ligada à essa história teria um destino igualmente dramático. O Britannic, navio irmão do Titanic, afundou em 21 de novembro de 1916, durante a Primeira Guerra Mundial. Hoje, seus destroços repousam a cerca de 120 metros de profundidade no Mar Egeu, próximo à costa da Grécia, onde permanecem como um dos mais bem preservados vestígios de um grande navio de passageiros no fundo do oceano.
Embora ambos compartilhassem origem comum, o destino do Britannic foi diferente do Titanic. Inicialmente projetado como um luxuoso transatlântico, ele acabou sendo convertido em navio-hospital durante o conflito mundial. O naufrágio ocorreu quando a embarcação atingiu uma mina naval alemã, transformando o que seria uma carreira de transporte civil em um episódio marcado pela guerra.
Construção
A construção do Britannic teve início em 1911 no estaleiro Harland & Wolff, em Belfast, como parte de um ambicioso projeto da companhia White Star Line. A empresa planejava lançar três grandes e sofisticados transatlânticos: o Olympic, o Titanic e o Britannic. O novo navio começou a ser construído depois dos dois primeiros, mas o desastre do Titanic, ocorrido em 1912, levou a mudanças importantes em seu projeto.
Com o objetivo de aumentar a segurança da embarcação, diversas modificações foram incorporadas. O Britannic passou a contar com casco duplo na região das salas de máquinas, além de anteparas elevadas cerca de 12 metros acima da linha d’água. Outra alteração significativa foi a inclusão de botes salva-vidas suficientes para acomodar todos os passageiros a bordo — algo que se tornara uma exigência após o naufrágio do Titanic, em 1912.
Atuação na guerra
Quando o Britannic ficou pronto para iniciar suas viagens, o cenário internacional havia mudado drasticamente. A Primeira Guerra Mundial já estava em andamento, e a embarcação foi requisitada para integrar o esforço de guerra britânico.
Em vez de atuar como transatlântico de luxo, o navio foi transformado em hospital flutuante. O interior da embarcação foi adaptado para receber pacientes e equipes médicas. Os conveses de passeio passaram a abrigar fileiras de leitos hospitalares, enquanto o restaurante de primeira classe foi convertido em uma ala de terapia intensiva. Já o grande salão de recepção tornou-se uma sala de cirurgia.
A capacidade médica do navio era impressionante para a época. O Britannic podia transportar mais de 3.300 pacientes. Um cirurgião da embarcação descreveu o navio, segundo a PBS, como “o mais maravilhoso navio-hospital que já navegou pelos mares”.
Apesar dessa capacidade, felizmente a maior parte dos leitos estava vazia na viagem que resultaria no naufrágio.
Naufrágio
Em 19 de novembro de 1916, o Britannic partiu de Nápoles, na Itália, com destino a Mudros, na Grécia, onde embarcaria soldados feridos. Cerca de mil pessoas estavam a bordo, incluindo tripulantes, médicos e enfermeiras que se preparavam para receber os pacientes.
Dois dias depois, na manhã de 21 de novembro, pouco depois das 8h, o navio atingiu uma mina naval alemã nas proximidades da ilha grega de Kea.
Entre as pessoas a bordo estava a enfermeira Sheila Macbeth. Naquele dia, ela havia acordado mais tarde do que o habitual e estava começando o café da manhã quando ocorreu a explosão. Segundo lembraria posteriormente, ela mal havia iniciado a refeição quando ouviu “Bang! e um arrepio percorrer todo o comprimento do navio.”
Outro passageiro, o reverendo John Fleming, também descreveu o impacto provocado pela colisão. “Houve um grande estrondo”, recordou ele, “como se dezenas de janelas de vidro tivessem sido quebradas umas contra as outras; o grande navio estremeceu por um momento de ponta a ponta.”
A explosão ocorreu no lado estibordo do Britannic e provocou o alagamento de seis compartimentos estanques. Embora o navio tivesse sido projetado para suportar danos desse tipo, a situação rapidamente se agravou. A água começou a entrar também pelas vigias localizadas no mesmo lado da embarcação.
Na tentativa de salvar o navio, o capitão Charles Bartlett ordenou que a embarcação acelerasse em direção à ilha de Kea. A esperança era encalhá-la antes que afundasse. No entanto, essa decisão acabou permitindo que ainda mais água entrasse na estrutura.
Pouco depois ficou claro que o Britannic não poderia ser salvo. Embora o navio tivesse enviado um sinal de socorro, a tripulação não sabia que os cabos da antena haviam sido danificados pela explosão. Assim, as mensagens podiam ser transmitidas, mas nenhuma resposta podia ser recebida. Diante da situação, o capitão ordenou a evacuação do navio apenas 23 minutos após a colisão.
Durante a evacuação, dois botes salva-vidas foram lançados antes da ordem oficial e acabaram sendo puxados pelas hélices ainda em movimento da embarcação. Cerca de 30 pessoas morreram nesse momento, ao serem sugadas para a região das hélices.
A partir desse ponto, o navio não demorou a afundar. Às 9h07, apenas 55 minutos após atingir a mina, o Britannic desapareceu sob as águas.
Sobreviventes
Entre os sobreviventes estava a enfermeira Violet Jessop, que também havia sobrevivido ao naufrágio do Titanic anos antes. Ela descreveu a cena dramática do momento final da embarcação:
“Ela inclinou a cabeça um pouco, depois um pouco mais e ainda mais. Toda a maquinaria do convés caiu no mar como brinquedos de criança. Então, ela deu um mergulho assustador, sua popa erguendo-se centenas de metros no ar até que, com um rugido final, desapareceu nas profundezas, o ruído de sua partida ressoando pela água com uma violência inimaginável…”
Jessop não era a única pessoa que havia sobrevivido ao Titanic e estava a bordo do Britannic. Os tripulantes John Priest e Archie Jewell também estavam na embarcação.
Apesar da rapidez do naufrágio, a maioria das pessoas a bordo conseguiu sobreviver. O fato de o navio ainda não ter embarcado seus milhares de pacientes contribuiu para que o número de vítimas fosse menor do que poderia ter sido.
Destroços do navio
Após o desastre, o Britannic permaneceu no fundo do mar por décadas. Embora sua localização aproximada fosse conhecida, os destroços só foram oficialmente identificados em 1975 pelo oceanógrafo Jacques Cousteau. Cerca de vinte anos depois, o local também foi visitado por Robert Ballard, que havia participado da descoberta dos destroços do Titanic.
As expedições revelaram que o Britannic permanece em estado notavelmente preservado. De fato, ele é considerado o maior navio de passageiros intacto no fundo do oceano.
Apesar de estar a uma profundidade relativamente menor do que o Titanic — que repousa a mais de 3.600 metros — o local ainda representa um desafio para mergulhadores. Por esse motivo, apenas algumas centenas de pessoas conseguiram visitar o local desde sua descoberta.
Mesmo assim, expedições recentes continuam revelando novos detalhes sobre a embarcação. Uma exploração realizada em 2025 recuperou diversos objetos do navio, entre eles o sino de observação, uma lâmpada de navegação, azulejos de cerâmica de um banho turco e um par de binóculos, repercute o All That’s Interesting.
Mais de um século após o naufrágio, os destroços do Britannic permanecem como um registro silencioso de um navio que, concebido para o luxo, acabou se tornando parte da história da guerra. A cerca de 120 metros abaixo da superfície do mar, os restos da embarcação continuam preservados, narrando um episódio marcado por conflito, destruição e sobrevivência.
Fonte: Aventuras na História





