Após a onda de ataques promovida em maio de 2006 em São Paulo, o Primeiro Comando da Capital (PCC) passou por uma profunda transformação estrutural e ampliou significativamente sua presença dentro e fora do Brasil. Duas décadas depois, a facção criminosa criada em uma penitenciária no interior paulista se tornou uma das maiores organizações criminosas da América Latina, com atuação internacional e forte influência no tráfico de drogas.
Relatórios do Ministério Público de São Paulo apontam que o grupo possui atualmente mais de 2 mil integrantes mapeados em pelo menos 28 países. O Paraguai concentra a maior presença da facção fora do Brasil, com cerca de 700 membros identificados, além de núcleos ativos na Venezuela, Bolívia e Uruguai. Na Europa, as investigações indicam atuação significativa na Espanha, França, Holanda e Irlanda, com destaque para Portugal, considerado um dos principais pontos estratégicos da organização no continente europeu.
Segundo investigadores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), o PCC evoluiu de um pequeno grupo de presos para uma estrutura comparada a uma máfia internacional. O faturamento anual da organização, impulsionado principalmente pelo tráfico internacional de drogas, ultrapassaria US$ 1 bilhão. Estimativas do Ministério Público apontam que a facção possui cerca de 40 mil integrantes espalhados pelo Brasil e exterior.
O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, que há décadas acompanha a atuação da facção em São Paulo, afirma que o grupo construiu uma estrutura organizada baseada em hierarquia rígida, disciplina interna e regras próprias. Dentro da organização, os integrantes precisam seguir normas e podem ascender a cargos superiores conhecidos como “sintonias”, responsáveis pela coordenação de diferentes setores criminosos.
No topo da hierarquia estão lideranças responsáveis por grandes redes do tráfico internacional e pela movimentação financeira da facção. Investigadores afirmam que o PCC deixou de atuar apenas no mercado ilícito tradicional e passou a infiltrar recursos em setores da economia formal, ampliando sua influência e capacidade operacional.
A ameaça contra autoridades públicas também permanece como uma das marcas da facção. Em setembro do ano passado, o delegado aposentado Rui Ferraz Fontes foi morto a tiros em Praia Grande, no litoral paulista. Ele havia participado da prisão de lideranças históricas da organização criminosa.
Em 2003, o juiz corregedor das execuções criminais Antônio José Machado Dias, conhecido como Machadinho, foi assassinado em Presidente Prudente após dispensar escolta policial. Dois anos depois, em 2005, o ex-diretor da Casa de Detenção do Carandiru, José Ismael Pedrosa, também foi executado em Taubaté, no interior paulista, onde vivia após a aposentadoria.
Atualmente, Lincoln Gakiya é considerado um dos principais alvos da facção e vive sob forte esquema de segurança devido às ameaças constantes atribuídas ao grupo criminoso.
De acordo com promotores e investigadores, a facção mudou a estratégia adotada nos ataques de 2006. Em vez de ações violentas coordenadas em larga escala, o PCC passou a investir na corrupção de agentes públicos e na infiltração em estruturas do Estado para facilitar atividades criminosas e reduzir operações policiais. Segundo autoridades, parte dessa estratégia busca garantir proteção logística e operacional para o avanço da organização no Brasil e no exterior.
Fonte: Jovem Pan







