ARACAJU/SE, 25 de fevereiro de 2024 , 5:28:53

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Países do Leste Europeu retomam restrições com surto de covid-19

 

Enquanto ambulâncias com pacientes com covid-19 fazem fila do lado de fora de unidades de emergência da Romênia, os hospitais têm cada vez menos leitos, os necrotérios estão lotados e os médicos ficam exasperados e exaustos. A maioria dos doentes não foi vacinada, segundo os médicos.

“A situação é crítica”, disse Radu Tincu, especialista em terapia intensiva do hospital Floreasca, em Bucareste, a maior unidade de emergência da Romênia, ao “Financial Times”. “Estamos frustrados… Eles se recusam a ser vacinados”, disse. “[Mesmo depois] de explicarmos os riscos de uma covid mais grave, eles ainda se recusam.”

A Romênia está no centro de uma onda implacável de covid-19 que varre a Europa Oriental e os Bálcãs e ameaça esgotar os serviços de saúde. O número de mortes por dia, de 19 por 1 milhão de habitantes em 20 de outubro, é o maior do mundo, à frente das vizinhas Bulgária e Moldávia. A taxa de mortalidade na Romênia é a mais alta desde o início da pandemia.

A Europa Oriental e a Central, juntamente com a Rússia, são responsáveis pelas 12 maiores taxas de mortalidade por covid-19 do mundo. É um forte contraste com a Europa Ocidental, onde as taxas de mortalidade são cerca de um décimo das do Leste e ficam em menos de uma morte por milhão de habitantes em vários países.

O número de doentes também disparou para níveis sem precedentes, principalmente nos países bálticos. A Letônia tem 115 novos casos diários por 100 mil habitantes, 30 vezes mais do que a Espanha; a taxa da Lituânia, de 94 por 100 mil habitantes, é 24 vezes maior.

Especialistas em saúde dizem que por trás dessa explosão estão a desconfiança generalizada em relação ao governo e às autoridades, que remonta à era soviética, a consequente hesitação em tomar a vacina e a pouca disposição de aceitar restrições impostas pelo Estado para combater o coronavírus.

“As pessoas não confiam nas autoridades”, disse Octavian Jurma, um médico romeno e estatístico da área de saúde. “Ninguém liga para as regras.” Os críticos também culpam a corrupção e a instabilidade política, principalmente na Romênia e na Bulgária. Este país caminha para sua terceira eleição em 2021, enquanto o governo romeno tenta se reagrupar depois da apresentação de uma moção de censura no mês passado.

Andrei Baciu, a principal autoridade responsável pela resposta à pandemia na Romênia, negou que a culpa seja da turbulência política. Ele insistiu em que as restrições introduzidas na quarta-feira devem ajudar a controlar a infecção.

Maria Ganczak, especialista em epidemiologia e doenças infecciosas da Universidade Zielona Gora, na Polônia, citou como forças motrizes a desconfiança nas instituições do Estado, a aplicação pouco rigorosa das restrições, testes e rastreamento de contatos inadequados e a baixa aceitação das vacinas.

A Romênia vacinou por completo menos de um terço de sua população. É o segundo nível mais baixo da União Europeia, atrás da Bulgária, com 20%. Esse número sobe para 50% na Letônia e na Lituânia, mas poucos países da Europa Central e Oriental atingem a média da UE, de 64%. A Bósnia e Herzegovina, que não faz parte da UE, vacinou por completo apenas 15% de sua população.

As diferenças na cobertura de vacinação têm um efeito marcante na relação entre o número de casos da doença e as mortes. Em países como a Bósnia e Herzegovina e a Bulgária, mais de 4% das pessoas com teste positivo morrem de covid-19. Na Letônia e na Lituânia, a taxa de mortalidade cai para pouco mais de 1%, e em países como Reino Unido, França e Espanha, onde cerca de 70% dos habitantes receberam duas doses da vacina, o número é de cerca de 0,5%.

As baixas taxas de vacinação em alguns Estados membros dispararam o alarme em Bruxelas, e levaram seus dirigentes a discutir o aumento do número de casos na cúpula da UE, quinta-feira. “Os esforços para superar a hesitação em tomar a vacina devem ser intensificados, inclusive com o combate à desinformação, principalmente nas plataformas de mídia social”, disseram eles em um comunicado.

A crise levou à reintrodução de restrições, que vão desde a obrigação de usar máscaras até quarentenas totais em vários países. Esta semana a Letônia se tornou o primeiro país da UE a retomar uma quarentena quase total, com a volta do ensino pela internet, o fechamento de todas as lojas exceto as essenciais, e a imposição de um toque de recolher de um mês. A Estônia informou que pode determinar um lockdown se a situação piorar.

A Romênia também anunciou novas medidas, entre elas o fechamento das escolas por duas semanas, o uso obrigatório de máscaras em público e restrições à movimentação noturna para os que já estão vacinados.

Também nesta semana, o ministro da Saúde da Polônia, Adam Niedzielski, alertou para a possibilidade de “ações drásticas” diante do aumento dos números de casos e mortes, enquanto a Eslováquia fechou restaurantes e bares em cinco condados.

A Sérvia restringiu o acesso a boates e bares só para pessoas vacinadas, enquanto a Bulgária tornou obrigatória a apresentação de passaportes de vacinação em restaurantes — o que provocou um protesto com várias centenas de pessoas em Sofia que sublinhou o ceticismo persistente sobre as vacinas e outras medidas preventivas no país menos vacinado da UE.

Os especialistas da saúde alertam que os números de casos e mortes devem aumentar na Romênia antes de voltarem a cair. Adrian Marinescu, diretor médico do hospital Matei Bals, de Bucareste, disse que o número de casos registrados provavelmente é subestimado porque as taxas de aplicação de testes são baixas.

Fonte: Valor

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