“Vejo na população um desejo de mudanças”, afirma Danielle Garcia

Da redação, Joangelo Custódio

Fruto da união entre uma professora e um comerciante, a delegada de Polícia Civil e pré-candidata à prefeita de Aracaju pelo partido Cidadania, Danielle Garcia, de 43 anos, concedeu entrevista exclusiva ao portal AJN1 e ao jornal Correio de Sergipe. No bate-papo, ela conta um pouco dos desafios de sua profissão, a qual exerce há 19 anos; do período em que esteve à frente do Departamento de Crimes Contra a Ordem Tributária e Administração Pública (Deotap) e conseguiu ter a certeza de que a política, de certa maneira, intervém em investigações policiais. Danielle também expôs, sem salamaleques, os motivos pelos quais decidiu “se jogar” no mundo político-partidário; externou suas inquietudes; desferiu elogios ao Governo do presidente Jair Bolsonaro no enfrentamento à pandemia do coronavírus e criticou a “falta de organização e planejamento” dos governantes sergipanos no sentido de atenuar os efeitos nocivos da covid-19 à saúde da população e da economia. Confira a seguir a entrevista:

AJN1 e Correio de Sergipe: O que a motivou a trocar, mesmo que de forma momentânea, a área da segurança pública para atuar no mundo político-partidário, uma área notoriamente criticada pela maioria da sociedade em virtude dos históricos e corriqueiros escândalos de corrupção? A Senhora não tem medo de ser julgada como mais do mesmo?

Danielle Garcia: A percepção de que a política pode dar o rumo para que as coisas aconteçam de maneira mais efetiva. Sempre dei o meu melhor enquanto delegada, mas algumas situações me fizeram entender que eu poderia fazer pela Capital e pelos aracajuanos mais na política do que na polícia. Quero fazer diferente de tudo o que vem sendo feito por quem está no poder há décadas. Quanto a julgamentos, não me preocupam. Sempre desenvolvi meu trabalho na Polícia Civil de Sergipe e no Ministério da Justiça de acordo com meus princípios éticos e isso não será diferente na política. Estou com a minha consciência tranquila, julgamentos não me preocupam. Além disso, vejo avaliações positivas dos aracajuanos em relação ao projeto, o que mostra que nossa mensagem está sendo muito bem compreendida. 

AJN1 e Correio de Sergipe: Em 2019, a Senhora aceitou a proposta do então ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, para atuar no Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional da Secretaria Nacional de Justiça do Ministério da Justiça e Segurança Pública (DRCI/SNJ). Por que disse “sim” ao ex-ministro, já que estava fazendo um brilhante trabalho no Deotap de Sergipe?

DG: Na verdade, quando eu aceitei o convite do então ministro Sergio Moro eu já não estava mais no Deotap. Eu já havia sido exonerada do departamento por determinação do ex-governador Jackson Barreto, já tinha passado pelo Denarc e estava lotada na Delegacia da Barra dos Coqueiros. Aceitei o convite por entender que poderia contribuir no combate à corrupção no país, assim como fizemos aqui em Sergipe. Foi uma experiência muito positiva, pois trabalhava coordenando o programa de fortalecimento das Polícias Judiciárias no combate à Corrupção, que acrescentou muito em minha experiência profissional.

AJN1 e Correio de Sergipe:  O “sim” também tem a ver com um posicionamento favorável à gestão do presidente Jair Bolsonaro? Qual a sua avaliação sobre o governo dele?

DG. A minha ida ao Ministério da Justiça não teve nada a ver com política, já que foi uma escolha técnica. Fizemos um trabalho no Deotap que repercutiu bastante na imprensa local e nacional, e teve o reconhecimento da sociedade. Então acredito, com muita humildade, que o convite veio por uma questão de mérito e reconhecimento profissional. Quanto ao Governo Federal, especialmente no tocante à pandemia, tenho que tirar o chapéu, pois se não tivéssemos os recursos federais encaminhados para os estados e municípios, Sergipe e Aracaju estariam hoje numa situação muito pior. É preciso reconhecer todos os auxílios e programas criados pelo Governo para apoiar as empresas e ajudar na manutenção de empregos no País. Tivemos uma queda? Sim. Mas seria muito pior se o Governo não tivesse tido uma participação tão efetiva no apoio, em especial, às micro e pequenas empresas. Não sou dessas que faz terra arrasada e só critica. Há coisas muito boas sendo feitas, sim, da mesma forma que existem áreas que precisam de melhorias.

AJN1 e Correio de Sergipe: O que a motivou a lançar-se pré-candidata a Prefeitura de Aracaju?

DG. Percebi que é na política que conseguimos implementar as principais soluções para os problemas da nossa comunidade. E problemas não faltam em nossa cidade, muitos deles antigos e sem solução por quem está na gestão há quase vinte anos. Sei da minha capacidade de montar e liderar uma equipe competente e com os mesmos valores e desejos que tenho de transformar Aracaju, por meio de uma gestão com projetos e ações voltados única e exclusivamente para melhorar a vida da população.  

AJN1 e Correio de Sergipe: Espera ter o mesmo sucesso do colega delegado, o senador Alessandro Vieira?

DG. Vejo na população um desejo de mudança e a eleição de Alessandro Vieira mostrou isso em 2018. Sei que cada pleito tem suas particularidades, mas diante do apoio que o nosso projeto vem recebendo, mesmo realizando uma pré-campanha somente via redes sociais por conta da pandemia, vejo que a nossa mensagem está chegando e sendo compreendida. É perceptível o desejo de mudança e de uma boa política, que traga novas ideias e conceitos para a administração pública.  

AJN1 e Correio de Sergipe: A falta de experiência em política e em gestão pública pode atrapalhar seus planos de ser prefeita?

DG. De forma alguma. Devolvo a pergunta aos leitores: por acaso a “experiência” política dos atuais gestores têm atendido aos anseios da população? A saúde está sendo prestada a contento? Temos um plano de enfrentamento da crise econômica, já tão presente em nossas vidas? Esses são apenas exemplos de que, mais do que experiência, precisamos de pessoas bem intencionadas, sérias e comprometidas que deem o exemplo e possuam a capacidade de montar uma equipe técnica e competente. Eu já tive uma experiência em administração quando coordenei a Deotap. Claro que a gestão de uma Prefeitura é mais complexa, mas administrei bens e pessoal na minha passagem pela Deotap e, desde que assumi como delegada, venho fazendo isso. O importante é ter uma equipe técnica, eficiente, foco no resultado e fiscalização.

AJN1 e Correio de Sergipe: Jamais uma mulher ganhou as eleições para ser prefeita da capital. A senhora veio para quebrar paradigmas, em meio ao machismo enraizado na política?

DG. Espero que sim (risos). Brincadeiras à parte, estou colocando a minha pré-candidatura por entender que posso contribuir para que tenhamos uma Aracaju melhor. Infelizmente, o machismo existe e tem se mostrado muito forte na pré-campanha. Vejo discursos tentando me desqualificar por ser mulher, dizendo que sou manipulada por A ou B. Não existe nada disso. Sempre pautei a minha vida profissional pela seriedade e coragem, nunca fui tutelada por ninguém, cheguei aonde cheguei através do meu próprio esforço, dos meus méritos, e assim será em todas as missões que se apresentarem em minha vida. Chegou a hora de uma mulher gerir Aracaju.  

AJN1 e Correio de Sergipe: O que está faltando para Aracaju se transformar numa cidade modelo para o país?

DG. Falta competência e força de vontade política. Aracaju precisa de gestores comprometidos e que pensem, acima de tudo, na população, em especial na mais carente. Alguém que nos momentos de crise, como a pandemia que estamos enfrentando, assuma a responsabilidade ao invés de se isentar e jogar no colo de terceiros. É inadmissível que uma gestão gaste milhões com publicidade e venha com justificativas pífias para não abrir leitos de UTIs, enquanto pacientes sofrem em busca de um leito. É inadmissível vermos ambulâncias se acumulando na porta das casas de pacientes porque não têm para onde levar as pessoas. São essas pessoas que dizem que têm experiência para cuidar da Capital? Os recursos estão aí, como propaga a própria prefeitura. Então o que faltam são projetos, boa intenção, além de gente capaz e competente para trabalhar na administração pública.

AJN1 e Correio de Sergipe: Na condição de delegada de polícia, quais os principais problemas enfrentados por policiais civis e militares na segurança pública do Estado?

DG – São muitos os problemas enfrentados pelas forças policiais em Sergipe. As delegacias do Interior do Estado estão numa situação precária, algumas até em situação desumana e isso não é exagero. Além disso, o número de policiais civis, delegados, agentes e escrivães, ainda é insatisfatório. Na Polícia Militar, os problemas são ainda maiores com déficit de viaturas, de coletes balísticos que precisam ser usados por mais de um policial de maneira alternada, falta de estrutura nos batalhões, deficiência no número de policiais, porque é inadmissível apenas dois militares por viatura fazendo patrulhamento ostensivo. Ou seja, a falta de estrutura física e logística, aliados ao pouco efetivo, coloca de fato a vida dos policiais em risco. Como se não bastasse tudo isso, ainda temos que lidar com interferências políticas na nossa atuação, como ocorreu no meu caso específico.

AJN1 e Correio de Sergipe: A política pode intervir em investigações policiais para beneficiar terceiros ou há irrestrita imparcialidade nesta questão?

DG. Como dito anteriormente, e infelizmente, em determinados momentos, a força política foi mais forte que a força policial, sim. Eu mesma já senti na pele essa situação quando o então governador articulou a nossa saída da Deotap. Não havia qualquer justificativa plausível para que ele tomasse essa atitude, uma vez que nós fazíamos um trabalho altamente técnico, com profissionais que honram a Polícia Civil de Sergipe. Toda a cúpula da SSP à época estava alinhada com o trabalho desenvolvido na Deotap. Conseguimos devolver para os cofres públicos mais de R$ 100 milhões que haviam sido desviados. Era um trabalho muito bem feito por toda a equipe. Mas, enfim, não nos dobramos aos inúmeros pedidos de que as operações não avançassem e o que vimos foi o que o Estado inteiro já sabe. Saímos da Deotap e a cúpula da SSP também entregou seus cargos. É preciso garantir independência para as instituições e seu trabalho precisa ser respeitado.

AJN1 e Correio de Sergipe: A covid-19 tem se proliferado em Sergipe de forma expressiva, inclusive com um número de mortes bastante elevado, levando-se em consideração a proporção populacional. De que forma o Poder Público pode contribuir para frear o avanço do patógeno?

DG. Desde o início da pandemia faltaram organização e planejamento. Infelizmente, o que vimos foi um jogo de empurra, uma péssima utilização dos recursos públicos e total falta de transparência. A Prefeitura fez questão de construir um hospital de campanha, mesmo tendo disponíveis a Maternidade Hildete Falcão e um centro de reabilitação de pessoas com deficiência que estão quase prontos e poderiam servir para atender pessoas com Covid. A Prefeitura não se preocupou em criar leitos de UTI para ajudar o Estado no recebimento de pessoas na alta complexidade. Podem dizer que isso não é obrigação da Prefeitura, mas nós estamos no meio de uma guerra que já matou mais de mil pessoas em Sergipe. Então, tudo que fosse preciso ser feito para salvar vidas, deveria ter sido feito. Além disso, deveriam ter trabalhado em um planejamento inicial para restringir a circulação de pessoas, com organização e fiscalização. Se isso tivesse sido feito de forma gradual no começo da pandemia, não teríamos essa crise absurda de desemprego que estamos vendo em Sergipe, de lojas e empresas fechadas e pessoas sem condições de pagar suas contas e alimentar suas famílias.   

AJN1 e Correio de Sergipe: Deixando de lado as faces de delegada e de pré-candidata, quem é a mulher Danielle Garcia e o que ela deseja para o planeta, enquanto cidadã? 

DG. Eu sou uma filha de uma professora de Biologia e de um comerciante. Tenho dois irmãos mais novos, e uma irmã de criação. Sou formada em Direito na UFS, mestre em Direito Público também pela UFS e participei do Curso de Inteligência Estratégica da Escola Superior de Guerra – ESG. Passei no concurso para Delegada da Polícia Civil aos 23 anos, mesmo ano em que minha filha Maria nasceu. Fiz a Academia de Polícia amamentando minha filha! Com quatro anos de atuação profissional, engravidei novamente, mas perdi minha segunda filha faltando apenas dois dias para o parto. Foi uma fase muito, muito difícil na minha vida. Passei um tempo afastada e quando voltei ao trabalho, tive todo apoio e suporte dos meus colegas. Segui em frente. Há três anos vivi uma nova dor dilacerante: a perda de meu pai. Essas provações apenas me fortaleceram como pessoa, e apesar de tudo, sempre me considerei uma pessoa feliz e de muita fé. Me considero uma mulher batalhadora e que sempre correu atrás dos sonhos, com muita verdade e emoção. Acredito muito que a vida das pessoas pode ser melhor. Por ser assim, quero para a população de todos os lugares do mundo que seus direitos sejam garantidos e respeitados. Se tem uma coisa que me tira do sério é injustiça!! E conviver em um mundo com tanta injustiça me dói, de verdade. Quero dar sempre o meu melhor para ajudar cada pessoa – seja de Aracaju, Sergipe, Brasil e mundo – a ter sua dignidade garantida, seus direitos, e possa prosperar, ter esperança no futuro.

Frase

Percebi que é na política que conseguimos implementar as principais soluções para os problemas da nossa comunidade. E problemas não faltam em nossa cidade