ARACAJU/SE, 15 de maio de 2026 , 3:13:56

Trabalho e cabeça aberta: conheça os lemas do advogado mais longevo em ação no Brasil, com 103 anos

 

Hermano de Villemor Amaral Filho completou 103 anos no mês de julho e, sempre que pode, vai presencialmente ao trabalho: o escritório de advocacia fundado pelo pai em 1909 – época em que residiam no Brasil cerca de 17 milhões de pessoas e a expectativa de vida não chegava a 34 anos.

Hoje, são 2 milhões só de advogados, o que equivale a 1% da população total do país. Villemor é considerado o mais longevo em atividade no Brasil. Formou-se em direito no ano de 1945 e mantém ativa a carteirinha nº 3099 da OAB-RJ.

Antes da pandemia, frequentava diariamente o escritório. Durante o período mais crítico, seguiu a recomendação dos médicos e passou a trabalhar de casa. Agora está no modelo híbrido: um pouco lá, um pouco cá.

“A minha vida foi, toda ela, dedicada ao trabalho. Hoje, espontaneamente, eu sigo trabalhando. Eu me ofereço inclusive a trabalhar com os estagiários, transmitindo o que há de bom no exercício da profissão”, diz.

As coisas mudaram bastante desde o começo. Quando o seu pai, Villemor Amaral, inaugurou a firma – no início do século passado -, era só uma salinha no centro do Rio de Janeiro. Não havia tanta pompa em torno dos escritórios de advocacia. Naquela época se usava tinta e mata-borrão. Os documentos jurídicos eram escritos à mão.

Villemor começou a frequentar o trabalho do pai aos 12 anos. A escolha pela profissão veio como consequência. Ele recorda que, quando jovem, foi considerado “muito moderno” no escritório: datilografava com agilidade e papel-carbono.

“Na verdade, minha caligrafia é tão ruim que nem eu entendo o que escrevo. Então, quando surgiu a máquina, eu tinha que me tornar um exímio datilógrafo”, entrega. Ele nunca se desfez das máquinas. Hoje, repousam intactas em uma estante da sala de casa.

Apesar de tanta destreza, Villemor não renegou a tecnologia. “Aderi à modernidade e me dei sempre bem com o computador. Facilitou a vida de todo mundo”, diz. Esta reportagem é uma prova de que está falando a verdade. Ele concedeu entrevista ao Valor por videochamada.

A rotina, além do trabalho, tem bom humor, mesa farta e, por vezes, uma dose de Dry Martini – bebida que, segundo ele, também era hábito da rainha Elizabeth II. “Por isso viveu tanto”, brinca. A monarca foi a mais longeva do Reino Unido. Morreu em setembro de 2022, aos 96 anos, e com 70 de reinado.

Como “dica de ouro” para os mais jovens, diz Villemor: “não trabalhe de noite. Sempre acorde cedo para trabalhar”. Ele aconselha que viajem e aprendam outros idiomas, e, acima de tudo, “exerçam a profissão com seriedade, competência e ética”.

A Villemor Amaral Advogados tem escritórios em Ipanema, no Rio, e também na Vila Olímpia, em São Paulo. Reúne mais de 300 advogados – 71% são mulheres, faz questão de enfatizar. Ele se orgulha de ter indicado uma advogada como sócia da banca quando ainda nem se falava em paridade de gênero.

Esse tema é um tabu no meio jurídico ainda nos dias de hoje. Há pouco o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou a criação de política de alternância de gênero no preenchimento de vagas para a segunda instância do Judiciário. Com essa decisão do CNJ, todos os tribunais do país deverão utilizar a lista exclusiva para mulheres, alternadamente, com a lista mista tradicional nas promoções pelo critério de merecimento.

“Um dos orgulhos do meu pai é o incentivo à equidade de gênero”, diz Hermano de Villemor Amaral Neto. Ele seguiu a carreira do pai e hoje também é sócio do escritório. É pai de Maria Cecília e tem dois netos: Phelippe e Hermano de Villemor Amaral.

Além do nome, o neto também se assemelha ao trisavô, ao avô e ao pai por ter escolhido a advocacia. Está na faculdade de direito. Se seguir adiante na profissão, a família chegará à quarta geração de advogados.

Fonte: Valor Econômico

 

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