Vladimir Souza Carvalho
O chão, ao redor da árvore, se forra de pétalas amarelas, fruto das flores desabrolhadas, fato que só acontece final do ano, as árvores enchendo os galhos, umas mais que as outras, abraçando o amarelo. Outras árvores, parcimoniosamente, pincelam poucos galhos, e mais outras, aqui e ali, cruzam os braços, no estágio de brancas nuvens, a evidenciar que o parto das flores amarelas se constitui em tarefa que advém de modo desigual. As árvores, no crescer e desprenhar flores, apesar da mesma idade, como os dedos das mãos, são totalmente diferentes.
Não me perguntem o nome da árvore que não sei responder. Penso que devem pertencer a família dos ipês e das canafístulas, que, durante o ano quase inteiro, só prestigiam o verde das folhas, folhas um tanto finas e compridas, parecidas com as das mangueiras. Chegado o trimestre final, se revestem de flores de cores diversas, aqui, no caso, amarelas, todas de curta duração, o vento a depilá-las, encharcando o solo de pétalas, voltando depois a monotonia do verde que vai perdurar até que, no ano seguinte, em um dos três últimos meses apareça no calendário da natureza. Me falta ciência para entender os motivos do nascimento das flores só intercorre, reiteradamente, no período aludido, outubro abrindo a cancela, e, daí em diante as árvores exteriorizam seus frutos, tudo bafejado por fatores que não estão no meu domínio.
Fico contente em apreciá-las, quando as vejo. Se a ocasião permitir, capto o belo das flores com o celular. Se não, me mantenho na admiração, carente de conhecimentos, sem disposição para mergulhar a fundo na matéria, a advertência vinda lá dos tempos do Ginásio, autêntico obstáculo à frente, desanimando pesquisa a respeito, o receio de invadir sítio no qual não devo trafegar. Esclareço, contando o fato, tal qual tenho ouvido sempre que a gente se reúne com amigos do mesmo tempo e o passado vem à tona. Pois bem. O aluno perguntou a professora [censura com relação ao seu nome] o motivo do simbolo químico da água ser H2O. A mestra, no alto de sua sabedora, foi rápida na resposta: nas coisas de Deus a gente não se mete. O aluno não insistiu. Silêncio na classe. Todo mundo percebeu que a dúvida era impertinente. O mesmo faço eu, agora. Quem quiser que avance. Eu não me arrisco a adentrar em mata desconhecida.
Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras