ARACAJU/SE, 9 de março de 2026 , 20:46:48

Apreciando pássaros

 

Da varanda, lendo, digitando ou soprando o sax soprano [quase a mistura de verso e de pleonasmo], aprecio a passarinhada a pousar na tábua, que coloco, bem assentada, no muro, onde pedaços de mamão ali desafiam o apetite de todas as espécies que povoam esse pequeno e isolado mundo onde minha casa se ergue e eu, nela, me arrancho e me escondo. É um espetáculo de paciência ficar a aguardar que cada um pouse, olhe para um lado e para outro, e depois comece a bicar, o pedaço de mamão a ser exibido no bico e em seguida deglutido. Na manhã do dia seguinte, bem cedo, recolho o que sobrou, a marca de bicadas que cada pedaço exibe, substituindo-os por novas porções, iniciando outra maratona de apreciação, de minha parte, e de bicadas, da parte deles, sem precisar reservar mesas nem respeitar os horários. .

Agora só ofereço mamão. O melão voltava intacto. Nem ao menos uma bicada para experimentar. Parece que o cheiro não atrai. Ficava o pedaço o dia inteiro ignorado e intacto. Fora com o melão, entonce, respeitando o sinal da passarinhada. Se não bicou é porque nenhum deles gosta, eles todos, o sabiá-de-praia, espécie maior e maior numerosa; o sanhaço, sempre o casal; o sebinho, eternamente solitário; o cabeça vermelho, de quando em quando; a rolinha fogo-apagou, também, o mesmo se afirmando com a lavandeira, uma ou outra nas quatro estações do ano, e, ainda, um casal amarronzado, que ninguém nunca me identificou, sem falar na raridade do pardal, não esquecendo do bem-te-vi, que se curva ao poderio do sabiá-de-praia.  Me intriga um bando de periquitos que vejo sempre por perto, sem nunca aqui ter pousado.

O que mais me chama a atenção é o sabiá-de-praia, exatamente o macho, quando se apaixona por uma fêmea. Estufa as asas, de maneira que ao se dirigir a amada as asas ficam curvas, dando a forte impressão de se cuidar de um anão com a giba enorme, assumindo a feição de certas personagens de desenho animado. Assim curvado, o sabiá-de-praia se dirige a fêmea. Não sei o mais, se o galanteio surtiu efeito ou não. O que sei, sem precisar lavar gaiola, cacos e renovar a água todo santo dia, não precisando proteger os pássaros do ataque de gatos nem de qualquer fiscalização de órgão ambiental, é o que meu viveiro não tem grades e é do tamanho do mundo.