Muitos aprenderam, tocaram e lá para as tantas abandonaram o instrumento e a banda, ou seja, a Filarmônica Nossa Senhora da Conceição. Passaram pela música como um relâmpago, se a comparação for devida. Acredito que, entre os que vi tocando trombone e deles me lembro, somente Arlindo não abandonou o instrumento, pelo menos, até pouco tempo atrás ainda tocava. Um deles, entre os que me antecederam na banda, que marcou presença mais forte do que todos, foi Mendonça. Mesmo tendo abandonado o instrumento, ficou na memória de todos que, como eu, vestiram o trajo de aprendiz na banda nos anos sessenta, especificamente a partir de 1963, quando não mais o vi nos ensaios em meio dos seus componentes. .
Os mais curiosos hão de perguntar o que de excepcional tinha Mendonça como músico. Eu respondo: a bochecha nascida quando tocava. Nem os músicos/cantores de jazz faziam bochecha no mesmo tamanho, a ponto da gente ter medo de explodir, o que nunca ocorreu. Nenhum outro músico seguia o mesmo caminho. Fazer bochecha parecia ser um privilégio único de Mendonça, a vermelhidão tomando conta do rosto, e, evidentemente, sendo o único que assim fazia, chamava a atenção de todos, tornando a bochecha em sua marca registrada.
Quando comecei a aprender a soprar a trompa, Antônio Melo me alertava para não fazer bochecha. A força estava na boca, no soprar mantendo o rosto normal, numa tácita condenação do estilo mantido por Mendonça, que, aliás, não era citado, ressalte-se. Não vi ninguém do meu tempo usar as bochechas para tocar, principalmente os instrumentos de pisto. Humberto e Joel, ambos trombonistas, não estufavam as bochechas. Nem os trompetistas de então, Jadiel, Fontes, Arnaldo Silva e eu, evidentemente, todos segurávamos o sopro entre a língua e os dentes, as bochechas intactas, sem necessidade de esticá-la. Adelson, no bombardino, na mesma linha.
De vez em quando, vejo Mendonça em compras em supermercado. Então vem à tona o tocar fazendo bochechas, na adoção de um estilo, que só ele adotou, na demonstração de ter sido diferente. Embora não tenha feito escola, se constituiu num exemplo único que ninguém ousou seguir, porque Antônio Melo não permitiu, mas, em compensação, o fez ser sempre lembrado.