ARACAJU/SE, 22 de julho de 2024 , 15:23:36

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Até quando vidas negras não importarão?

Vidas negras importam mesmo, para todos? Ou o racismo é tão grande, alarmante, brutal, nojento, mas, por vezes, dissimulado, que continua se arrastando por todos os lados, de forma estrutural ou não? Vidas negras importam? E, quando se trata de vidas negras diante de forças de segurança pública, nos países em que os supremacistas ainda não aprenderam a conviver com todos, independente da cor da pele e da condição socioeconômico, as vidas dos negros são tratadas como as vidas dos brancos?

Quando um negro como eu, mesmo sendo advogado há 44 anos, professor universitário e padre, além do que mais importa, claro, que é ser cidadão, escreve como agora estou escrevendo, é possível que algumas pessoas que estão do outro lado da pele, possam dizer que “ele só escreve isso porque é negro, puxando a brasa para a sardinha dos pretos”. Não! Não se trata disso. Trata-se, sim, de demonstrar a indignação de quem se importa com as vidas que nem sempre importam para todos. Vida é vida. De quem quer que seja.

Eu já escrevi alguns artigos sobre esse tema. E não me cansarei de escrever enquanto houver um fio, um simples fiozinho, de racismo implícito ou explícito, sem que, obviamente, alguns negros possam usar de forma equivocada certas situações para alardear um ato de racismo, ainda que estrutural, sem que haja deveras uma base sólida para tanto. Nesse aspecto, poderei estar atraindo vozes negras contra mim. Não importa. Não cederei a nenhuma voz, de quem quer que seja, quando se tratar de expor o meu pensamento e as minhas convicções. Às vezes, há melindres que não ajudam na luta contra o racismo e contra os racistas. E há quem gosta de criar espetáculos indevidos.

Mas, o racismo arraigado em vários países, notadamente naqueles que serviram de berço sangrento para a maldita escravidão de africanos, e que, de outro lado, serviram de túmulos para negros e índios, ainda conta com uma gama enorme e horrorosa de adeptos. Sem querer dar uma de “coitadinho”, longe disso, lembro-me que quando fui aprovado no vestibular para o curso de Direito na UFS, em janeiro de 1977, ao entrar na agência do BANESE, em minha terra, Dores, fui saudado pelo gerente, com sincera alegria. Ele gostava muito de mim. Na época, eu era “secretário de finanças” da Prefeitura, cargo para o qual fui nomeado aos 19 anos de idade, em abril de 1974.

No momento da saudação do gerente, a sua esposa adentrou ao espaço da agência e ele me segredou que um sobrinho dela não conseguiu ser aprovado para o mesmo curso. Então, ele disse: “Fulana, Zé Lima foi aprovado no vestibular de Direito”. Asperamente, ela respondeu, dando meia-volta: “A culpa é da princesa Isabel, que libertou os pretos”. Esse fato, eu contei a uma colega da UFS, na penúltima segunda-feira, tratando de certas situações que a vida me ofereceu. Pois bem. O racismo parece, em algumas pessoas, estar guardado, como um monstro acuado, lá dentro do peito, lá no fundo dos neurônios, pronto para explodir, a qualquer momento, como um vulcão.

No fim da semana passada, duas notícias trouxeram à baila situações impregnadas de rancoroso racismo, praticadas contra dois pretos, um de São Paulo, no Brasil, e outro do Estado de Ohio, nos Estados Unidos, os dois países fora da África que mais têm afrodescendentes.

Em São Paulo, Estado administrado por um governador que, até poucos dias, defendia vigorosamente as ações policiais, quaisquer que fossem, um jovem músico preto foi agredido por policiais, sem que tivesse cometido nenhum crime, tendo, inclusive, recebido um jato de spray de pimenta nos olhos, embora estivesse dominado. Enfim, a Polícia paulista emitiu um comunicado, para dizer que tinha afastado os policiais de suas atividades e que a ação deles era incompatível com o ordenamento daquela força militar. Pelo menos, isso. Que sejam punidos na forma da lei. A Polícia deve combater o crime e enfrentar os bandidos com firmeza, porém, não agir de forma truculenta contra ninguém e, muito menos, contra pessoas inocentes e indefesas.

Na cidade de Cantom, Ohio, nos States, mais um homem preto foi morto mediante asfixia por policiais, lembrando o episódio, igualmente grotesco, que ceifou a vida de George Perry Floyd Jr., em Minneapolis, Estado de Minnesota, no dia 25 de maio de 2020, estrangulado pelo policial branco Derek Chauvin, que ajoelhou em seu pescoço durante uma abordagem. Desta vez, a vítima foi Frank Tyson, de 53 anos, abordado em um bar. Ele repetiu a expressão de Floyd: “Eu não consigo respirar”, enquanto um policial apoiava o joelho próximo ao seu pescoço. Os policiais envolvidos na ocorrência, identificados pela imprensa local como Beau Schoenegge e Camden Burch, entraram em licença administrativa, mas com a manutenção dos respetivos salários.

Até quando vidas negras não importarão?