ARACAJU/SE, 15 de abril de 2024 , 10:22:20

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Cenas que a data ressuscita

O primeiro sinal da Semana Santa aparecia no tecido roxo e envelhecido, a cobrir as imagens dos santos, dando um tom lúgubre ao interior da Igreja, que, sem as lâmpadas acesas, lembrava ambiente de filme de terror. À noite, a partir da quinta-feira, a Igreja se enchia e eu lá ficava de olho numa menina que acendia vela para a irmã e o namorado. Posso ainda descrevê-la: morena, baixa, magra, cabelo liso, o rosto lindo marcado por um nariz bem feito. O nome, não sei. Nunca seus olhos se cruzaram com os meus. Quiçá não tivesse notado meu olhar de cão pidão.

Depois dava as caras o ponto primordial da sexta-feira. Não as práticas religiosas, que não me atraiam. Missa para mim, à época, se reduzia ao catecismo, porque ganhava um passe para ir ao cinema do padre. Era a compensação para ver a cara feia do sacerdote, o rum-rum da batina,  que, de fedorenta, fê-lo ganhar o apelido de Bode cheiroso, e a pregação na qual não me concentrava. Na sexta, o almoço: mamãe na cozinha e papai se vangloriando de estar em jejum, sermão das manhãs da sexta-feira da paixão, o disco reiterado que a gente ouvia calado, à espera do almoço, onde o jejum dele se acabava fartamente no peixe com coco, arroz com coco, feijão com coco, e ele, calado, a boca cheia, traçando a montanha que colocava e recolocava no prato.

Não sei se na sexta, ou no sábado, ocorria a via sacra, a procissão nas ruas em redor da Igreja, estação por estação, o padre a frente, todo enrolado num manto azulado, e, a volta, no púlpito colocado a frente do templo religioso, lado esquerdo, no qual, a partir de certo momento, a Madalena local cantava, erguendo um pano com o desenho a simbolizar o rosto de Jesus, canto rouco, arrastado, eu sem decifrar nenhuma palavra, a multidão silenciosa a presenciá-la.

Depois a idade cresceu, os hábitos se alterando, os novos tomando lugar dos mais velhos, a Semana Santa passou a ser uns dias de folga nos estudos e no trabalho, tempo de retornar a Itabaiana. Hoje é apenas uma página a mais de lembranças, onde a mansidão de mamãe na cozinha ainda me impressiona, calada e sozinha a preparar o almoço, a cantilena do jejum de papai ressoando no meu ouvido. No fundo, é uma forma de diminuir a distância que a morte decretou.

Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras