Do ginásio e do sapato

Sapato feito por Tuó não causava calo. Não sei qual o segredo, mesmo porque nunca perguntei. Pensando bem, acho que Tuó não era de conversa desnecessária. Apresentou-se, conferiu a medida do pé, marcava o dia de buscar, a cara sisuda. Já o alcancei trabalhando em casa, em uma sala, na rua nascida no oitão do cemitério, fruto de abertura feita quando Euclides mandava. No lugar dos sítios, a rua e as casas, e, em uma delas, a de Tuó, casa e tenda.

Numa foto, aliás, uma única, dos seis alunos da segunda série B, dezembro de 1963, o sapato, fabricação de Tuó, aparece, de borracha, couro bem preto, de cadarço. Nela, um colega de chinelo, sinal de que o regime no ginásio se marcava pela liberalidade, o que facilitava as coisas para os menos aquinhoados. O meu sapato, só usado para ir as aulas, era duradouro, entrando ano e saindo ano e ele no pé. Era calçá-lo que já ia direto para o ginásio. Não me lembro em que ano não fui mais para a escola com sapato  feito por Tuó.

No fundo, a vontade que imperava era a de ter um Vulcabrás preto, que as poucas sapatarias locais vendiam, sapato que, em geral, a estudantada de posse usava. Nunca tive. Nem me arrisquei a pedir. Me contentava com o sapato feito por Tuó, de acordo com as ordens de papai, que, ia na frente, anunciava que eu e Bosco faríamos as encomendas devidas e, no momento certo, pagava, não comentando o preço, nem para dizer que era conveniente, nem para reclamar, da mesma forma que procedia com o barbeiro e com a escola de Maria de Branquinha. O preço não deveria ser salgado para justificar o seu silêncio.

Muitos e muitos anos depois adquiri um Vulcabrás, com formato e cor diferentes, realizando, serodiamente, um sonho dos tempos do ginásio. Na mente, apenas, bem viva, a  heterogeneidade dos calçados: alunos de família bem de vida, de Vulcabrás; outros, no meio da escala, e eu entre eles, de sapato artesanal; alguns, de chinelos, nas salas de aula e nos corredores, juntos e misturados, ninguém com pose de rico, nem com complexo de pobre, todos  felizes, ali, naquele minúsculo pedaço do mundo, que a gente acreditava ser o próprio mundo.

Autor

Vladimir Souza Carvalho

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