Do sepultamento e da morte

Eu acompanhava cada ato. Primeiro, o caixão, de pano escuro ou azulado, numa mesa.  Alguém da funerária, munido de chave de fenda, despregava as seis alças. Todos, ao redor, em silêncio, acompanhavam os movimentos. Após, estiravam duas cordas no chão, indo de um lado da sepultura para o outro. Então, o caixão era colocado no chão, em cima das cordas. O passo seguinte era o de levá-lo até a sepultura, mãos fortes a segurá-lo, a descida cautelosa até o fundo da cova. Puxavam-se as cordas. O caixão, lá embaixo, se tornava distante. Vinha o ato de jogar areia, que algumas pessoas faziam, – que nunca aprendi o significado -, e, enfim, o coveiro, com uma pá, a tapar a cova, a areia de volta, o som das  primeiras camadas ao tocar no caixão, acreditando eu que, nesse exato momento, o pano  se rasgava, a areia invadindo o corpo do defunto. O coveiro continuava a sua tarefa, até a sepultura ficar totalmente cheia, ocasião em que levantava areia suficiente para, por derradeiro, enfiar uma cruz e colocar alguma coroa de flores. O enterro estava concluído.

Muito presenciei esses atos, idos dos anos cinqüenta, época em que o Cemitério tinha poucos mausoléus, a maioria dos sepultamentos de cova no chão, o terreno duro a favorecer o ato de escavá-lo, espaço suficiente para comportar a urna funerária, sem que as quatro paredes  desabassem. A areia meio avermelhada do Cemitério favorecia, parecendo que o terreno foi escolhido a dedo, restando a dificuldade de abrir uma sepultura de sete palmos, o cavador se espremendo no meio do buraco, até que a tarefa era encerrada dentro da própria sepultura. Assisti algumas serem abertas, o suor cobrindo o peito do cavador.

Tudo vi, curioso e calado, passo por passo, conseguindo abrir espaço entre os adultos, fosse qual fosse o defunto, indiferente ao choro dos parentes, sem poder aquilatar a dor dos que perdiam um ente querido, a atenção se concentrando na sequência dos atos, até me dar por satisfeito e me retirar, sem levar comigo nenhuma imagem das cenas testemunhadas, que desapareciam da minha mente tão logo saia do Cemitério. À época, bem menino, descobrindo um mundo novo, a morte se resumia ao ato de sepultamento. Nada mais.

Autor

Vladimir Souza Carvalho

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