O chapéu, que me acompanha nas caminhadas na praia, já está desbotado. O vermelho se deixou levar pela ação impetuosa do sol, perdendo sua força. Não é mais a cor original, onde o escudo do Náutico se depara num bordado bem feito. Sim, escudo do Náutico fincado no chapéu que comprei, em loja na rodoviária do Recife, numa liquidação, já se vai um bocado de tempo. Custou dez reais. O escudo não se desintegrou, resistindo a inclemência dos raios solares e também do estádio em que se encontra em meu domínio. A escolha pelo chapéu se deu por um motivo bem claro: entre todos, que faziam parte do estoque da liquidação, foi o que me atraiu.
Não havia chapéu com o escudo do Sport nem do Santa Cruz, o que facilitou a escolha. Afasto, assim, qualquer preferência pessoal. Nos dezessete anos que trabalhei no Recife, não me filiei a nenhum time. Tenho camisa dos três da capital, e camisas de times outros, do interior, como os de Serra Talhada, Salgueiro, Petrolina, Caruaru, Olinda, de maneira a distribuir minha torcida por todos eles, só fazendo uma distinção, que não me furto de declarar: entre os da capital e os do interior, fico com os últimos, em respeito a minha condição de interiorano, sapecado em Sergipe pela dolosa perseguição que, em décadas anteriores, o Santa Cruz [de Estância] e o Itabaiana sofreram, perseguição patrocinada pela federação e a maioria da imprensa esportiva.
Ganhei um chapéu do Bahia, que tenho, igualmente, na praia. Fico alternando o uso nas caminhadas. Ora, um; ora, escolho o outro. Ninguém fica no canto. Os chapéus bons, digamos assim, reservam-se para outras ocasiões, que são múltiplas, sobretudo agora que o barbeiro, autorizado a aparar o diminuto capinzal das encostas de minha cabeça, entendeu de conduzir a máquina até a pracinha, e, com um ou dois minutos, devastou a remanescente vegetação de cabelos que ainda resistia às intempéries da idade, teimando em dali não arredar as pernas. Quando dei por mim já era tarde. O estrago, feito. Era agora me adaptar a nova paisagem despojada dos arbustos de antanho. Nada a reclamar por ora. Quem não aprovou foi a escova [do cabelo], agora sem serventia. O pente, nem se fala. Esclareço que já me acostumei com o novo (e eterno) visual, no qual o chapéu sempre se fará presente, ao menos, pelo dia.