Vladimir Souza Carvalho
O meu relacionamento com o sax soprano atingiu uma estabilidade que pode ser caracterizada pela presença de uma rosa e um punhal, em cada mão. O soprano sabe que o tenor ainda não desapareceu do meu coração, como é do seu conhecer que em sua frente também está o alto. E nessa história de paixões de longos janeiros, não acredita que minha fidelidade se mantenha por muito tempo. É verdade que se apega a bocadura que já alcanço com ele e na minha falta de talento para trocá-lo pelo tenor ou pelo alto. E depois, o enorme tamanho do tenor e, apesar de menor, também do alto, não me agradam. Deve pensar que é melhor um passarinho na mão que dois voando. De qualquer forma, estamos vivendo bem, numa linha reta, sem que nenhum fantasma estranho ameace nossa convivência. Do clarinete, não tem o menor temor.
Aos trancos e barrancos, partituras de sambas, marchas carnavalescas, valsas, boleros, bossa nova, e etc., estão sendo executadas com o soprano na boca e no comando, a letra da música sendo exalada em cada som, a me proporcionar a inusitada alegria da sensação de ser um mágico, acompanhando a letra via de cada nota produzida, variando da nota grave para a aguda, respeitando os sustenidos e os mi bemois, sem esquecer que, aqui e ali, um escorrego evidencia que não aprendi direito a caminhar e a me equilibrar, faltando muita estrada para chegar onde os sonhos podem me conduzir, tentando me inspirar em oito saxofonistas que, nos últimos cem anos, fazem a história de minha família paterna, divididos entre o tenor e o alto, e apenas um no soprano, eu buscando um espaço neste como o segundo. Muita responsabilidade.
Por ora, não participei de ensaio com uma banda, privilégio que ficou lá atrás, mais de meio século de ocorrido, quando, rapaz, toquei trompete, eu a contar cenas pitorescas em livro de crônicas que pretendo lançar no correr deste ano, No entanto, não perco a pose. Nesse sentido, ao sair de casa, brinco com os meus a apregoar que, ante convite para uma apresentação, esclarecer que só há vaga na minha agenda para o final de 2027. Até lá não assumo compromisso. Depois, como o peru, quando se depara com os pés, as asas murcham e se fecham, assim vivo. Ocorre quando erro ao tocar. Volto a minha insignificância de aprendiz.
Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras