ARACAJU/SE, 1 de maio de 2026 , 20:11:03

Lata d’água na cabeça

 

Há muito, o riacho do Beriberi não secava, nem baixava a vazão. A cidade de Araticum era abastecida com suas águas. Deu na veneta do prefeito Fabrício de Lucas do fiando João de Salú entregar o serviço de abastecimento de água, antes prestado pela Água Fria, uma autarquia municipal, a uma empresa privada, uma tal de Iludilá. A alegação do alcaide era que o serviço da Água Fria estava a desejar, embora nem todos com ele concordavam. Mas, autoridade era autoridade.

Um desconcerto. Era o que se estava vendo em Araticum. Nem bem completou um ano de operação, a Iludilá deu para arremeter como boi brabo em capoeira. Faltas constantes de água aqui, ali e acolá. Porém, numa segunda-feira, colapso. Vários bairros da cidade ficaram sem água, ao mesmo tempo. Desastre. Caos. Passou a terça-feira, a quarta, a quinta, a sexta, e nada de água. O que restava da Água Fria, por determinação do alcaide, deveria socorrer a Iludilá, sob os protestos de alguns de seus técnicos remanescentes. Deu em nada.

O promotor de justiça foi acionado. O clamor era geral. A imprensa livre botou para chegar. Já os apaniguados do poder silenciaram ou tentaram tapar com folhas as ventas das pessoas, como era de costume quando tentavam segurar a onda dos mandatários do povo, que escorregavam e metiam o pé na jaca. Vez em quando, isso ocorria. No caso da falta de água, poderia até faltar jaca para se meter o pé.

A população de vários bairros entrou em pânico. Cadê a água?  Cadê a água?  Em tom prosaico, o alcaide disse, em entrevista à Rádio Curiboca, que se faltasse água nas casas, as pessoas poderiam tomar banho em sua residência. Isso foi bem antes do clamor começado naquela segunda-feira. Ali estava aberto o canal para piadas, nas mídias digitais. Os memes rolaram. Criativo é o povo.

Teve gente comprando água mineral, nos tardios das noites, para banhar-se. “Coisa fina, banhar-se com água mineral”, disse um jornalista em tom de pilhéria. Pois não era? Não, não era, não. Era, sim, um desmantelo das seiscentas! Caminhões-pipas abasteciam bairros e prédios. Secura geral. “Lata d’água na cabeça / Lá vai Maria, lá vai Maria / Sobe o morro e não se cansa / Pela mão leva a criança / Lá vai Maria”.

A famosa marchinha de Carnaval “Lata D’Água”, imortalizada pela cantora Marlene no carnaval de 1952, foi composta pela dupla Luiz Antônio e Jota Júnior (Joaquim Candeias Júnior). Esse clássico narra a rotina árdua das mulheres que subiam o morro com latas de água na cabeça. Belíssima interpretação foi a da serelepe Elza Soares, que era do morro como ninguém.

O povo de Araticum só não subiu o morro com latas d’água na cabeça porque nem água para as latas era possível arranjar. Mas, o poder sempre se arranja. E não foi que acharam uma saída mirabolante? Pois então? Não se sabia quem deu a ideia de que a falta de água não teria sido por incompetência da Iludilá, nem pelo não fornecimento de água pela Água Fria. Deram de inventar uma suspeita de sabotagem. Acharam até um buraco escavado. Ali estava a prova. Prova contundente, incontestável. Ufa!

João Murici de Zezinho Canoa, antigo técnico da Água Fria, aposentado, mas competente que só ele em matéria de abastecimento de água e conhecedor, tin-tin por tin-tin, do sistema de operações da Água Fria na cidade, bebericando uma cervejinha no Bar Doce Sabor de Teteco de Zuzu, proclamou, após engolir mais um gole: “Logo, logo vão achar um iraniano sabotador. Araticum está cheio deles, corridos da guerra”.

Diante da chacota de João Murici, Teteco de Zuzu vaticinou:  “Vão chamar Trump para prender o iraniano. Alguém duvida”?  No bar, silêncio. Logo depois, sonoras e estrepitosas gargalhadas. Êh, mundão perdido!