Vladimir Souza Carvalho (*)
De lá detrás, onde a curva do tempo se situa, a sentença a crismar Itabaiana de terra das originalidades. Se sim, se não, no decorrer dos anos, um filósofo, nascido na vizinha cidade de Ribeirópolis, se integrou a história de nossos estudiosos e observadores para aclamar uma verdade, até então desconhecida, assim traduzida: pense numa coisa que não existe no mundo; em Itabaiana, há duas. Acresce, como exemplo da sabedoria do itabaianense, na literatura oral e cotidiana, a ocorrência, envolvendo um sujeito com uma nota de noventa reais, na feira de Itabaiana, a indagar a um vendedor de farinha se podia trocá-la. Resposta imediata: podia, sim, trocaria por três notas de trinta reais. O negócio não foi à frente. Para sabido, o sabido e meio.
Todo esse palavrório serve para o relato de dois fatos evitando que fiquem escondidos debaixo do tapete da história. Em ambos, depoimento em juízo criminal. Em um deles, meu pai, ouvido em feito tendo por vítimas dois político, pai e filho, fuzilados em praça pública. Em meio a multidão que superlotava o local onde os óbitos ocorreram, ele se encontrava. Foi arrolado testemunha de acusação. Indagado sobre o que vira, resposta: o que todo mundo viu, isto é, homens discutindo e se ofendendo. O que escutara? O que as pessoas presentes escutaram, ou seja, o barulho dos tiros. O que fizera? O que todos fizeram: correr para bem distante. Juiz e promotor se olharam. Daquele mato não sairia nenhum coelho. Papai foi dispensado.
Em outro depoimento, a testemunha vinha da sede do Banco do Brasil, onde trabalhava, em direção a sua casa, quando o chefe político atirou em um motorista, que se encontrava sentado em um banco na praça da Igreja. Ao ser ouvida, segurou-se na negativa. Vinha de cabeça baixa, distraída, ouviu os tiros, mas não se tocou para o ocorrido. Nada viu, portanto. O promotor explodiu em reclamação: o povo de Itabaiana era covarde, não tinha coragem de dizer o que se passou. Um exemplo estava ali naquele momento. A testemunha, na sua humildade, despojada de qualquer conhecimento jurídico, rebateu: Acho interessante os senhores. Sabem como tudo ocorreu, quem atirou, quem morreu, e só eu afinal que vou dizer? O silêncio imperou. Não houve réplica. Ficou a negativa da testemunha, que era demasiadamente sábia para ser covarde.
(*) Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras