ARACAJU/SE, 22 de julho de 2024 , 15:03:52

logoajn1

O jovem advogado

O jovem advogado estava feliz. Não soberbo. Mas, orgulhoso por ter concluído o curso do seu sonho e, mais ainda, por ter logrado êxito no exame da OAB, escrito e oral, como era no seu tempo. Recebeu a carteira da Ordem das mãos do seu presidente. Ao seu lado, a namorada. Namoro iniciado dois meses antes. Familiares e amigos. Sessão bonita, mas com discursos cansativos. Como aquela gente do Direito gostava de falar! Era hábito? Era vício? Eram as agruras das carreiras jurídicas. Alguns, porém, exageravam. Faziam citações em latim, com um sotaque horroroso e voz de taboca rachada. Tentavam imitar Cícero, discursando no Senado Romano, contra Catilina? Ora…

Após os anos de estudo, as teorias guardadas na cachola, os livros de capa verde da famosa coleção de jurisprudência, cada livro, um tema. Os volumes de Direito Civil e Penal, afinal, estes eram os dois ramos do Direito que mais fascinavam os alunos daquele tempo. Debaixo da ditadura, pouco se falava no Direito Constitucional. Os demais ramos, Comercial, Previdenciário, Administrativo e outros, não empolgavam. Nem davam dinheiro. O sonho de alguns era atuar no Tribunal do Júri. Dar show. Livrar o constituinte, por mais pavoroso tivesse sido o seu crime. Vencer no Júri, era sinal de atração de muitos e bons clientes. Ao menos, no interior. Era assim. Os compêndios de Processo Civil e Penal. Os Manuais com modelos de petições para quase tudo.

Ao receber a carteira da Ordem, os olhos da namoradinha brilhavam. Rapaz pobre, namorando com filha de fazendeiro. As más línguas da cidadezinha deles diziam, de um lado: “Ele, com aquele anelzinho de doutor, já mira no golpe do baú, que vai dar”. De outro lado, diziam as mesmas más línguas: “Ela já agarrou um ‘besta’, para limpar o nome da família, metida na grilagem de terras, no sertão”. E o jovem advogado, coitado, só queria mesmo namorar. Ver estrelas nos olhos da namorada, a bem dizer, uma graça de moça.

Montar o escritório. Aventurar-se pelo interior, onde, em algumas Comarcas, poucos advogados militavam. Todavia, um escritório na capital era preciso. Ter no cartão a ser distribuído, um endereço na capital era de boa apresentação. Comprar um carro. Um fusca. Advogado novo, no interior, chegando de ônibus, empoeirado, não firmava banca. Comprou um fusca verde abacate, novo. Cr$ 200.000,00 (duzentos mil cruzeiros), à vista, mas com empréstimo feito a uma tia, metade, e a outra metade tomada junto a um Banco. Era assim que a vida advocatícia começava: com dívidas. Montou os escritórios no interior e na capital, em salas alugadas. Tinha que correr riscos. Tinha que mostrar à família da namorada que não estava atrás das terras do (quem sabia?) futuro sogro.

Jogou-se sertão adentro. Na poeira e na lama. Asfalto não tinha. Precisava fazer o nome, arranjar as causas, trabalhar com seriedade. Ternos cortados por um alfaiate da capital. Ficava mais barato do que comprar feitos. Além de que estes nem sempre se ajustavam bem ao corpo. Ternos sob medida eram outra coisa. Mandou fazer quatro, dois em cor escura e dois em tons mais claros. Estava pronto. A máquina de escrever Olivetti, portátil, no carro, para qualquer necessidade emergencial: um habeas corpus, um pedido de liminar, uma manifestação de última hora. As petições iniciais, ficavam para o sossego de casa ou do escritório, dependia da ocasião. Os arrazoados. Os recursos. Ouvira um professor de Processo Civil dizer, na Faculdade, que advogado de verdade era advogado que recorria. “Recorra, se a lei permitir, até do espirro do juiz”, dizia o mestre.

Fizera um juramento. Tinha que o cumprir. Lembrava da fala de um juiz do seu Estado, no tempo do Império: “Eu tenho a lei por guia, o Direito por princípio e a Justiça por fim”. Seria o seu lema. Um propósito, como cristão que era, mas não fundamentalista, que isso era coisa de gente sem tino: não advogar certas causas somente por conta do vil metal.

Um dia, namoro bem engatado, olhou no fundo dos olhos da namorada e disse: “Vou fazer de você a abelha-rainha mais cortejada de todas as colmeias. Serei seu único zangão”. Ela riu e respondeu: “A gente não sabe voar. Nem fazer mel”. Ele se deu conta da besteira que disse e arrematou: “A gente voa de avião”. Caíram na gargalhada. Eram apenas jovens enamorados. Podiam dizer tolices.

Pegou uma causa grande, como se costumava dizer. Fora do Estado, mas de gente da cidade deles. Inventário soberbo. Precisava ir ao Centro-Oeste. Primeira viagem de avião. Um jato comercial e, depois, um teco-teco, para os confins do Mato Grosso. Primeira e última viagem de avião. O teco-teco não aterrissou. Por um tempo, só um tempo, restaram lágrimas da namorada. A vida seguiu seu curso.