O papel do rádio, naqueles tempos

O aniversário natalício não era comemorado com festa, que, aliás, nem cogitada era, pelo menos, lá em casa. No máximo, um pudim, e olhe lá, porque só uma vez do pudim me lembro. Mas, nada disso causava qualquer tristeza, porque, digamos, invocando Camões, um poder mais alto se alevantava, justamente no rádio, em programas da tarde, da Rádio Liberdade, de umas duas horas, onde se oferecia música ao aniversariante.

O anúncio era simples e repetido, mais ou menos, assim: aniversaria hoje, na cidade de Itabaiana, o inteligente garotinho, Vladimir. Seus pais, Jubal e Maria, e seus irmãos, Alba e Bosco, oferecem esta música. Ficávamos todos de ouvido aceso no RCVictor, alimentado por antena erguida no oitão da casa, o programa inteiro, a espera do anúncio. Havia vibração, como se fosse comemoração de um gol. A atenção, diga-se, não era para a música. Se concentrava apenas no nome do aniversariante, de seus pais e irmãos, o que representava, por si só, todo o festejo que não era realizado, nem dele ninguém sentia falta. O nome no rádio era o melhor presente que o aniversariante ganhava. Nada além, ressalte-se.

A importância era do rádio, e a Liberdade era ouvida, sem ruído, em Itabaiana. Depois veio a Rádio Cultura, dividindo a audiência. Me lembro, nos idos de 1960, eleição presidencial, a caravana do PSD veio para Aracaju, no comando de Manoel Teles, para um comício prol Lott. Ouvi que uma senhora, da Serra, ia e alertou a família para que ficasse de olho no rádio, porque, no momento em que todos estivessem calados, ela, a pessoa que ia participar do comício, gritaria: olhe eu aqui, olhe eu aqui. Não sei se conseguiu. O fato é narrado apenas como prova da importância que o rádio, naqueles idos, representava para a gente do interior.

Uma vez, lá para o ano de 1964, passei uns dias, no final do ano, no Aracaju. Ouvi na Rádio Difusora um programa esportivo, que o ouvinte podia participar, gravando um comentário. Não perdi tempo. Escrevi um, duas folhas de papel de caderno, e, para lá fui. Gravei. De volta a Itabaiana anunciei aos amigos e fiquei atento, ouvindo, no dia certo, pelos menos, dois ou três minutos, minha voz na rádio. Nesse dia, pisando leve no chão, fui só riso. Proeza danada!

Autor

Vladimir Souza Carvalho

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