Vladimir Souza Carvalho
Os homens da minha geração, os que vejo aqui e ali, estão com a cabeça revestida de cabelos brancos. A minoria, a cabeleira completa. Outros, não, enfeitada de vestígios de terreno árido, vazio de capim, como o lugar onde o goleiro pisa. Sinal dos muitos janeiros, digamos, sessenta uns, setenta e bote números em outros, o branco ficando uniforme, a completa ausência de um só cabelo preto, o casco a se sobressair, molhado ou enxuto. A idade cresce e marca o território logo com sua presença. Não adianta tinta preta, dessas que parece pasta destinada a sapato, porque vai deixando trilhas no meio do preto artificial, efeito talvez do veneno que a tinta carrega, a danificar a raiz do cabelo, como ouvi de um cabeleiro alguns dias atrás. O resultado é o preto sem brilho e os caminhos de rato, que, por trás, são tantos e tão escancarados.
O cabelo branco ainda é uma dádiva. Trágico é a barriga, quando cresce, descendo em linha reta/inclinada do pescoço, alargando aos pouco até atingir a cintura, o volume imenso que faz, a semelhança com um avental, chegando primeiro que o corpo, ou seja, dobrando a esquina, enquanto o corpo, bem, o corpo vem lentamente em seguida, como os portadores de nariz grande, a ir a frente do dono, como se estivesse preparando o terreno para este passar. Um amigo, um dia, já faz tempo, me revelou, com uma tristeza imensa, que se encontrou com antigo colega de farda, dos tempos em que serviu as forças armadas, e, este, ao se deparar com o tamanho de sua barriga, indagou de chofre: Em sua casa falta espelho?
Cabelo branco/pintado, barriga tipo avental, cartazes da velhice/idade, que, ao crescer, encurta a vida do dono, exibindo atalhos que o vulgo, carinhosamente, trata como rugas, a mania de cotejar a idade dos que se adiantam na terra dos pés juntos, uns respeitando a fila; outros, a quebrá-la, a contagem dos que adquirem passagem só de ida, a anotação das baixas. Eu, no cuidado para não me ver no espelho no dia em que corto o cabelo, nem no dia seguinte, até me acostumar, percebendo que o rosto não é mais o meu – o que mamãe achava bonito -, que ficou lá atrás, se alterando para não deixar a idade trafegar sozinha, fidelidade que eu dispensaria.
Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras