ARACAJU/SE, 22 de julho de 2024 , 15:19:41

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Riacho Fundo

A ladeira do riacho Fundo, subindo para a Fazenda Mata Grande, estava mais esburacada do que um queijo suíço. E naquelas bandas alguém sabia o que era um queijo suíço? Queijo de coalho, sim, pois por ali tinha muito fabrico dessa espécie. Ora, mas veja só: e então Quincas de Zé Rufino não tinha andejado por outras bandas, lá pras lonjuras do Sul? Pois tinha. E por lá deve ter dado com coisas de outras terras, até quem sabia, de outros mundos. Era viajado. Devia conhecer queijo suíço. Bateu pernas e, segundo ele mesmo alardeava nas feiras e bodegas, enfim, em todo canto, ainda haveria de muito andejar, apesar dos quase oitenta anos pendurados na cacunda. Vontade não lhe devia faltar. Disposição também não. E força nas canelas, provavelmente. Ainda era um cabra taludo, dado a umas voltas nas casas noturnas de pouca conveniência para pessoas ditas de bem, ao menos, na voz fanhosa e maldosa de Sá Domitila do finado Pedrinho do Azulão, um mundão de terras a perder de vista, que o falecido marido dela lhe deixara de meação, porque filhos não tiveram para herdar. Dizia-se que Pedrinho era falho dos dois bagos.

O carro de bois de Jonas Carreiro gemeu ao subir a ladeira do riacho Fundo. Carroçada de lenha boa para fogo: candeia branca, seca, do capão de mato de Oscar Canabrava. Lenha cara e muito procurada pelas donas de casa, principalmente naqueles dias em que o inverno dava mostras de querer achegar-se, após dois anos de pouca chuva. Os fogões a lenha suspiravam por candeia branca. Como se suspirar pudessem. E quem disse que não? Pois então, o fumaceiro das chaminés não era uma espécie de suspiro, aliviando as cozinhas da fumaça, mas empesteando o ar? Era, sim.

À frente do carro de bois, ia Cebinho, neto de Jonas Carreiro, preto taludo, que nos idos de 1925 casou com uma branca filha de um antigo senhor de escravos, empobrecido, morto por uma picada de cobra. Jonas Carreiro foi a salvação da família.

O riacho Fundo nascia numa grota pequenina, nas terras de Janjão Bufa Solta da Flor da Índia, uma correntinha d’água límpida e fria, que se acasalava com um pequeno charco de água minada a uns quinhentos metros, na descida, para, assim, ir encorpando-se e ganhar porte de córrego. Riacho mesmo, só depois de receber as águas do córrego de Mané Pereira, nos baixios do Araticum Cagão. Corria lento, porém, firme, mesmo nas duas secas danadas, de 1932 e 1971, quando emagreceu, mas não morreu.

Uns brotos de orquídea selvagem davam para enfeitar, nalgumas partes, as margens do riacho Fundo, que ganhou esse nome porque debaixo de uma frondosa ingazeira, na fazenda Murici de João Galego, formou-se um poço, chamado de poço do boi, que devia ter no ponto mais profundo uns dois metros e tanto de riba pra baixo. Riacho Fundo… Sempre mourejando como a cantar em agradecimento pela vidinha miúda, feliz, e nunca interrompida, nem mesmo nas piores estiagens como as de 1932 e 1971, ou a de 1983, que também não foi moleza, embora não tanto agoniada que as outras duas.

No meio da subida, as três juntas de bois arrastavam o carro em passos lentos, cansados da peleja diária, há tantos anos, e, vez em quando, do furor do ferrão posto na ponta da longa vara do carreiro, lembrando o sofrimento do povinho miúdo que povoava aqueles agrestes, mal e mal conseguindo sobreviver a muito custo, crianças com as barrigas enormes, cheias de lombrigas, e homens e mulheres envelhecidos antes do tempo, as bochechas escavadas, profundas, como o buraco do poço do boi.

De passagem, esquipando, um moleque do eito tirou o chapéu de palha roto em cumprimento a “seu” Jonas Carreiro. Era um dos muitos filhos de Zefa Zabelê, uma pobre mulher de porta aberta, que pariu mais de dez filhos, sabia-se lá de quem. Nem ela mesma devia saber. Pobre mulher, que se esbagaçava nas roças alheias, quando achava uns dias de serviço, ganhando uma miséria, a metade do ganho de um homem. Mundo cruel aquele do agreste com as mulheres do eito. Com os pobres, enfim.

O carro de bois acabou de subir a ladeira. Lá embaixo, o riacho Fundo continuou cantando o seu cantinho de felicidade. Tão bom se o povinho dali também pudesse cantar feliz!