Sá Caetana, papai e os sapos

Sá Caetana era bem branca, e, mais branco ainda o cabelo, regiamente trajando um vestido completo, vindo até o pescoço, mangas e saia compridas. Movimentava-se com lentidão, já dominando a área de sua casa, compartimento por compartimento. Era, infelizmente, cega, ou quase cega. Justamente nos olhos, pelo que conservo na memória, o problema dava sinais evidentes. A impressão que se tinha – e a memória aqui pode me trair – é que empurraram os olhos para dentro do rosto, de forma violenta. Ou o resultado de uma doença que os deformou. Na falta do uso de óculos, a paisagem assustava. Seu território se limitava a sua casa. Era a mãe de d. Zizi, e, esta, a mãe de Maria, professora Maria, ou seja, Maria de Zizi.

Coloco papai na conversa. Uma vez no ano, geralmente, em um feriado, pela manhã, pegava uma cesta e, no quintal, ia recolhendo os sapos, escondidos atrás de lenha e de paus outros, erguendo-os na maior facilidade do mundo e colocando-os na cesta. Aí, então, rumava para o oitão do cemitério, à época, despovoado. Os sapos eram ali jogados, ganhando liberdade para se virarem numa área bem maior e mais sortida de insetos que o quintal lá de casa. O que ainda hoje me intriga é por onde tanto sapo chegava. Depois, ficavam escondidos, evitando contato com os habitantes da casa. Daí o volume de sapos na cesta nos assustar.

Sá Caetana ficava sentada num banco na sala de sua casa, a uma distância de menos de um metro da porta da rua. Papai a viu, resolvendo brincar, o que não estava fora de seu cardápio de suaves maldades. Pergunta se Sá Caetana gostava de jenipapo. Ante um gosto bem eufórico, papai coloca a cesta ao alcance de suas mãos, dizendo que escolhesse os jenipapos que quisesse. Sá Caetana enfiou a mão. Não demorou a perceber que aquilo, ali, não tinha o formato redondo dos jenipapos, e, pior ainda, eram frios e viscosos. Os sapos, jogados de volta a cesta, Sá Caetana, numa palavra, exibiu sua irritação: Peste! Papai prosseguiu a jornada, indiferente ao drama dos sapos. Banidos de um quintal, agora rejeitados sumariamente por aquela senhora, só estavam penando. Não era um dia feliz, até agora, para os sapos. Problemas deles. Não de papai, que já tinha os seus. Já Sá Caetana podia ficar tranquila: nova faxina só dali há um ano.

Autor

Vladimir Souza Carvalho

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