Seu Néu tocava saxofone. No início, o soprano, e fotos assim comprovam, na extinta Filarmônica Santo Antônio. Já o alcancei com o sax alto, a ocupar o banco da frente da banda. Não consta ter sido brilhante, mas foi persistente, tocando até quando pode, e, acho que assim o fez até que a morte veio lhe buscar. Chamava a minha atenção, eu, mero aprendiz, ele já idoso, a falta de dentadura, a boquilha do sax alto se encaixando bem na boca murcha e o queixo que parecia crescer. Uma vez, dele ouvi que nunca escreveu nenhum dobrado porque os homenageados agradeciam com uma quantia bem ínfima, um tostão, que não valia a pena o trabalho tido. Dos tempos em que passei pela banda, era o mais velho dos músicos.
Quando eu estreei, segunda trompa, sem noção quase nenhuma do papel de cada instrumento, fruto do ensinamento rudimentar que nos era transmitido, seu Néu estava no Rio de Janeiro, passando uma temporada na casa do filho, ele e a esposa, viagem que faziam depois da morte da filha, que era cega de nascença e, acreditem, era quem fazia tudo em casa, impondo a não mudança dos objetos dos seus lugares devidos. Me recordo de tê-la visto, na porta, uma vez ou outra, cabelo branco e alta. Não sei o seu nome. Acredito que não ia a rua.
Seu Néu voltou e não perdeu tempo, indo para o ensaio da banda, se acomodando no seu lugar. Eu, no terceiro banco, o via participando com o sax alto. Na minha doce e inocente ignorância, fiquei convicto que ele não tocava nada, um velho, naquela idade, sem dentadura, ora, meu Deus do céu, aquilo era só encenação, costume que perdurava, quase setenta anos de músico nas costas, ele e Antonio Melo como reminiscências de tempo antigo, de uma época em que todo mundo era músico e o talento premiava uns poucos. Tivesse o ensaio sido suspenso e apostas fossem possíveis, eu teria apostado e perdido. Seu Néu tocava mesmo! Vi quando se levantou, sax alto na boca, os dedos palmilhando as chaves devidas, e, para meu espanto, caminhou em minha direção, ficando bem atrás de mim, o pé direito no banco onde eu estava. Ouvi bem o som agudo do sax, a certeza plena que seu Néu leu meu pensamento e foi me mostrar que ainda tocava. Dai em diante não fiz mais nenhum diagnóstico fosse qual fosse a idade do músico.