ARACAJU/SE, 29 de fevereiro de 2024 , 14:48:44

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Especialista aborda temas ligados à Endometriose

Especialista em Endometriose, doença inflamatória provocada por células do tecido que reveste o útero, o ginecologista e obstetra Kelso Passos, aborda nesta entrevista ao Jornal Correio de Sergipe várias questões ligadas à saúde da mulher, a exemplo da própria Endometriose, bem como, sobre a importância da prevenção e cuidados para evitar e detectar precocemente doenças como o câncer de mama, principalmente agora em outubro dedicado a alertar a população feminina sobre esta enfermidade. Ele também revela as consequências sofridas pelas mulheres puérperas que deixaram de se cuidar e procurar um médico por causa da pandemia do Covid-19.

 

Correio de Sergipe – Saúde da mulher é um assunto recorrente ao logo do ano. O ministério da saúde e vários conselhos regionais de inúmeras áreas ligadas a saúde exploram temáticas com o objetivo de ajudar a esclarecer a importância sobre os cuidados preventivos que as mulheres precisam ter. Na sua opinião essas campanhas de fato ajudam? Na sua avaliação o que falta na prática para ajudar na saúde das mulheres, que já somam mais de 51% da população brasileira segundo dados do PNAD 2019? 

 Kelso Passos As campanhas sempre ajudam e corroboram para a prevenção da saúde da mulher, mas deveria haver uma maior efetividade nas suas aplicações. Isso quer dizer que as pessoas deveriam ter mais acesso aos exames preconizados nas campanhas, já que na prática há filas enormes, prazos bem dilatados para se fazer exames básicos, como a mamografia e o papanicolau (também chamado de preventivo), e demora para obtenção dos resultados, ocasionando uma perda de efetividade, já que muitas desistem em alguma dessas etapas e não concluem o processo.

 

CS – Em setembro, mês alusivo aos cuidados da saúde mental, o senhor fez um alerta sobre mulheres com endometriose poderem desenvolver depressão. Como especialista nessa área, e autoridade no assunto já reconhecido nacionalmente, como o senhor explica cientificamente essa conclusão? O que uma mulher com endometriose enfrenta no seu dia a dia? 

KP – A mulher com endometriose sofre bastante com os sintomas da doença, que, inclusive, provocam alterações gênicas no cérebro, causando estados de tristeza e depressão. Além disso, um sentimento paralelo que as mulheres com essa doença têm é o abalo emocional ocasionado pela descrença de outras pessoas em relação à veracidade e intensidade da dor, sendo até taxadas como “preguiçosas”, “encostadas”, “mimosas” e apelidadas como “Maria das Dores”. Essas “brincadeiras” e discriminações afetam cada vez mais essas mulheres, que acabam se isolando e se tornando tristes e depressivas. Algumas, inclusive, chegam ao extremo de procurar um psiquiatra por acreditar que é um distúrbio mental, que a dor não existe e que as outras pessoas estão certas.

 

CS – A sociedade brasileira já tem a dimensão do que é endometriose e de como essa doença afeta tanto a vida de milhares de mulheres ?

KP – Infelizmente a sociedade brasileira e, até mesmo mundial, e nossos governantes e autoridades políticas não têm noção nem dimensão do que essa doença é capaz de ocasionar nem da gravidade dos sintomas e das consequências que essa doença causa na mulher. A endometriose possui várias formas e as mais graves, mais sintomáticas, geram incapacidade laborativa, pessoal e familiar, inclusive impossibilitando a realização de ações diárias básicas, como fazer um café ou lavar um prato. Por causa disso, a endometriose já foi responsável por demissões, términos de relacionamentos e, mais uma vez, é motivo de descrença, por não acreditarem que uma doença seja capaz de causar tudo isso, acham que é exagero. Tanto é que não existem leis nem subsídios para amparar essas pacientes. Então, muitas das mulheres com endometriose ficam incapazes de trabalhar, porém, como não têm direito a auxílio doença, a aposentadoria, e nenhum benefício legal que as ampare durante as crises, são obrigadas a trabalhar pelo medo de perder o emprego.

 

CS – Como uma mulher descobre que tem endometriose? Essa é uma doença que acomete o endométrio? 

KP – A mulher só consegue descobrir que tem endometriose quando ela vai ao médico especialista na área. O diagnóstico já é passado na primeira consulta que é complementado com exames de imagem através do ultrassom ou ressonância com laudos apreciados por especialistas. E esse é o maior problema da mulheres que tem a doença por conta de demora na identificação da diagnóstico.. Somente um médico especialista vai poder identificar a doença porque ele está capacitado para isso. No Brasil a média chega em torno de 10 anos a 15 anos para as pacientes descobrirem que estão com endometriose. A endometriose não é uma doença que afeta o endométrio. Ela é uma doença onde ocorre uma localização atípica do endométrio. Então, você pode encontrar células, glándulas ou estroma do endométrio fora do local de origem dele , que é o próprio endométrio. Ele pode se implantar em qualquer lugar, no próprio útero, na pelve, nos órgãos pélvicos e extra-pélvicos.  Ela acomete qualquer parte do corpo humano.

 

CS – Durante a pandemia uma grande parte das paciente deixou de comparecer aos consultórios.  Um grande número de pré-natais não foram realizados e também tivemos no país um dos maiores índices de mortes por Covid no pós parto. O senhor que não parou de trabalhar nesse período como avalia esses números de ausências de checkups  e número de mortes crescente de puérperas ? 

KP – É, isso foi uma situação muito comum na pandemia, as pessoas passaram a se preocupar somente com a Covid, mas infelizmente as outras doenças não entraram em lockdown, continuaram a existir e afetar as pessoas e a causar mortes. Então a gente sempre fazia alertas e várias campanhas, mostrando a importância da continuidade do tratamento. Inclusive têm-se relatos de pessoas que pararam a quimioterapia por medo de contrair o coronavírus, só que o câncer também mata e, se o tratamento é interrompido, essas chances aumentam. E isso também ocorreu no pré-natal; várias mulheres engravidaram durante a pandemia e houve realmente uma maior mortalidade de grávidas e puérperas por causa da covid e de interrupções de tratamentos. E esse é mais um reforço da importância de não se interromper o pré natal e de não deixar de ir ao médico presencialmente, para que ele possa fazer o acompanhamento, a fim de identificar até mesmo quando possível evitar as intercorrências próprias da gravidez. Então, essas interrupções foram um fator de risco muito grande e que com certeza contribuíram para esse aumento de mortes de grávidas e puérperas.

 

CS – Estamos entrando no mês de outubro, mundialmente conhecido como o mês de prevenção ao câncer de mama. Os anos passam e ainda não temos uma cura para o câncer. Pessoas morrem todos os dias, e constantemente perguntamos como evitar, por exemplo, ter câncer de mama? É possível evitar? Qual o melhor tratamento para quem descobriu o câncer de mama? Como avançamos ao longo dos anos? 

KP – Apesar de décadas de evolução no diagnóstico e tratamento do câncer de mama sua incidência continua a aumentar. Atuar de forma contundente em fatores de risco gerais da população como obesidade e sedentarismo se faz urgente. É imprescindível adquirir desde cedo hábitos saudáveis para reduzir o risco de desenvolver o câncer de mama.

O tratamento da patologia varia de acordo com o estadiamento da doença, suas características biológicas, bem como das condições da paciente , como idade, status menopausal, comorbidades e preferência. O prognóstico do câncer de mama depende da extensão da doença (estadiamento), assim como das características do tumor. Quando a doença é diagnosticada no início, o tratamento tem maior potencial curativo. Quando há evidências de metástases o tratamento tem por objetivos principais prolongar a sobrevida e melhorar a qualidade de vida. As modalidades de tratamento do câncer de mama podem ser divididas em: tratamento local: cirurgia e radioterapia (além de reconstrução mamária) e tratamento sistêmico: quimioterapia, hormonioterapia e terapia biológica.

 

CS – Nesse mês de conscientização do outubro rosa qual a mensagem que o senhor deixa para as sergipanas?

KP – Se cuidem, mantenham uma alimentação saudável, evitem o excesso da ingestão de bebidas alcoólicas, pratiquem atividades físicas e visitem periodicamente os seus médicos. Mantenham todos  os exames em dia.

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