Exposição oferece uma viagem pelo imaginário de Arthur Bispo do Rosário e os desdobramentos de sua criação

Em 18 de maio, dia da Luta Antimanicomial, o Itaú Cultural abre a exposição Bispo do Rosario – Eu vim: aparição, impregnação e impacto. A data não é pura coincidência. Neste ano em que a instituição vem debatendo o papel da arte na saúde mental, além de reunir o maior número de peças do Bispo já vistas juntas, fora do Museu Arthur Bispo do Rosário – Arte Contemporânea (mBRAC),  e de proporcionar um grande panorama da obra do artista, ela se desdobra em dois núcleos. Um trata do impacto e da impregnação de sua produção em outros pares, modernos e contemporâneos, a ponto de abrir novas possibilidades no modo de fazer arte. Outro, traz experiências artísticas realizadas em ateliês de instituições psiquiátricas brasileiras, que fizeram repensar o modus operandi desses lugares e geraram outros nomes de referência na arte brasileira.

Neste diálogo entre passado, presente e futuro, ao todo, Bispo do Rosario – Eu vim: aparição, impregnação e impacto apresenta cerca de 600 obras. Mais de 400 peças são do próprio artista— das cerca de mil que compõem todo o seu trabalho. As demais levam a assinatura de uma constelação de artistas que, de alguma forma, orbitou ou bebeu dessa obra. São cerca de 50, como Leonilson, Carmela Gross, Rosana Paulino, Jaime Laureano.

A curadoria é de Ricardo Resende, com co-curadoria de Diana Kolker, respectivamente, curador e curadora-pedagoga do mBRAC, parceiro do Itaú Cultural na construção desta exposição. A concepção e idealização é de ambas as instituições.

“Todas as peças de Bispo do Rosário compreendem, no entender dele próprio, uma obra só. Era a maneira como ele compunha o seu universo”, explica Resende. “Bispo catalogava os objetos do mundo”, completa. O seu trabalho foi criado a partir dos objetos do cotidiano que recolhia onde vivia, na antiga Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro. São elas que norteiam toda a exposição, cuja grande parte é apresentada no primeiro andar. Este piso tem como referência para a expografia a cela onde ele viveu, durante 50 dos seus 80 anos, depois de ser diagnosticado como paranoico‐esquizofrênico.

“Mas elas se estendem para os outros andares. Os três pisos estão impregnados pela obra de Bispo”, segue Resende. Assim, a cosmografia artística que ele gerou dá o tom nos demais espaços, que traçam o diálogo existente entre sua obra e a de artistas impactados ou influenciados por Bispo. Segundo os curadores, Maxwell Alexandre, por exemplo, o menciona como a sua maior e principal referência artística. Jaime Laureano também o aponta como uma figura a quem presta reverência como artista criador de inúmeras possibilidades.

“Quando falamos da obra de Bispo não falamos apenas de uma obra como criação, ela é também criadora”, observa Diana. “Mais do que interpretar ou fazer análises da obra de Bispo, procuramos apresentá-la nesse contexto, colocando-o lado a lado com artistas contemporâneos e modernos para trazer e pensar de que maneira essa apresentação abre caminhos, possibilidades e percepções inéditas”, explica ela.

Outro aspecto apresentado pela curadoria nesta mostra é “o efeito Bispo”, não somente na cena artística, como também na saúde mental. São ali apresentados artistas vinculados ao ateliê Gaia, um polo experimental e centro de convivência que faz parte do Museu Bispo do Rosário. Criado na década de 90, como parte de um projeto de arteterapia de onde surgiram, entre os internos e contemporâneos a Bispo, artistas como Arlindo Oliveira e Patrícia Ruth.  Desde 2013, é frequentado por artistas usuários dos serviços de saúde mental da região e é tido como local de criação, pesquisa, convivência e experimentação artística.

“Fundamental é que a exposição quer trazer os efeitos e reverberações dessa ‘aparição Bispo’ na cena e no contexto artístico contemporâneo e como eles também incidem não só em uma direção do presente-futuro, mas também de um passado no próprio modo de olhar, perceber e pensar a história da arte e o estatuto da arte”, conclui a cocuradora.

A exposição

No primeiro andar, que condensa o universo particular de Bispo do Rosário, predominam as suas peças. O piso contém mais de 200 das mais de 400 que permeiam toda a exposição. Mas há lugar para outros trabalhos em diálogo direto com este singular artista.

Entre elas, a instalação Vou pedir a louvação para quem deve ser louvado, de Jaime Laureano (2022), duas obras de Rosana Paulino, destaque para Atlântico Vermelho (2016), três de Maxwell Alexandre como a pintura Éramos as cinzas da série Pardo é Papel (2018) que abre a exposição juntamente com a escultura A Negra, de Carmela Gross (1997).

Outros trabalhos para serem vistos neste piso são Viajando no Universo na instalação de meteoros, de Luiz Carlos Marques, artista integrante do ateliê Gaia. De Fernanda Magalhães é apresentada a série Natureza da Vida, um registro de performance feita na colônia Juliano Moreira.

Há, também, uma série de retratos do Bispo realizados pelo fotógrafo Jean Manzon e publicados em ensaio na Revista Cruzeiro, de 1942. E, ainda, fotos do artista feitas em 1982 por Hugo Denizart, autor do filme Prisioneiro da Passagem, exibido na mostra.

Entre os audiovisuais, vale destacar, ainda, Eu Preciso Destas Palavras Escrita, dirigido pela cineasta, antropóloga, artista visual e curadora independente Milena Manfredini e a diretora do Museu Bispo do Rosario Raquel Fernandes, e a performance Tresformance de Arlindo Oliveira, integrante do Atelier Gaia no Museu, registrada em 2017 por Margarete Araujo, gerente de Saúde também nesta instituição.

O primeiro subsolo trata das instituições. Ele abriga outras quase 200 peças de Bispo entre as cerca de 300 obras de outros artistas impactados por sua produção, ali exibidas. Neste piso, se encontram alguns que foram internos nessas instituições, como Edgar Koetz, do Hospital Psiquiátrico São Pedro. Também há obras de Aurora Cursino e de Ubirajara Ferreira Braga. Outras vêm do Museu do Inconsciente Nise da Silveira – Engenho de Dentro, como uma série de fotografias de Geraldo Lucio Aragão e guaches de Isaac Liberato, só para mencionar algumas.

Há também obras de Djanira, Maria Leontina, Maria Eugênia Franco, Flávio de Carvalho, Abraham Palatnik. Encontram-se, ainda, trabalhos de Regina Silveira, datados de 1962 e 1966, Geraldo de Barros e Ivan Serpa, entre outros.

O impacto e a impregnação na arte contemporânea, permeia o segundo subsolo. Neste andar, as obras de Bispo dialogam com Leonilson, Paulo Nazareth, Maria Aparecida Dias, Rosana Palazyan, Rick Rodrigues, Sônia Gomes e Pedro Moraleida. Carmela Gross e Maxwell Alexandre voltam a aparecer neste piso. Do próprio Bispo há uma diversidade de peças, como Sem título [Partida de xadrez com Rosangela], sem data. Vale contar, aqui, que Rosangela Maria foi uma estagiária de psicologia que trabalhou na colônia e foi amiga dele e a quem ele dedicou algumas de suas peças fundamentais, como as duas sem título [Cama Romeu & Julieta] e [Cadeira e Correntes] – estes nomes foram dados pelos curadores para catalogação.

Seminário – A programação deste ano no Itaú Cultural promove debates e reflexões sobre o papel da arte na saúde mental. Inserida neste contexto, a mostra de Bispo do Rosário é acompanhada do seminário Cultura, saúde mental e bem-estar. De 24 a 26 de maio (terça-feira a quinta-feira), sempre a partir das 10h e até 11h30, este fórum online reúne psiquiatras, curadores e personalidades ligadas à gestão cultural e ao estudo da saúde mental.

Com realização do Observatório Itaú Cultural, a ação é composta de uma mesa por dia, com convidados e um mediador, que pode ser acompanhada online, na página do YouTube, com tradução inglês/português no dia 25 e interpretação em Libras durante todo o seminário.