ARACAJU/SE, 21 de junho de 2024 , 23:00:54

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Último filme dos Beatles, ‘Let it be’ estreia no streaming: ‘dá para ver o fim chegando’

 

Quando foi lançado, em 1970, “Let it be”, o derradeiro filme dos Beatles, foi recebido como uma espécie de canto do cisne da maior das bandas de rock — não por acaso: registrado em 1969, quando a banda compunha e ensaiava para o disco de mesmo nome, ele chegou aos cinemas pouco depois de os garotos de Liverpool anunciarem sua separação, mais de um ano depois. Com meio século de contexto em cima, é mais fácil ver “Let it be” — que chegou ao streaming, na Disney+, sem jamais ter sido lançado em DVD ou blu-ray — hoje em dia sob luzes diferentes.

“É um filme dos Beatles, é absurdo que estivesse inédito assim até hoje”, avalia o pesquisador musical especializado no quarteto Marcelo Fróes, que se lembra de uma versão em VHS, no início da era do videocassete, e de um videolaser no Japão. “Passou no cinema aqui e na televisão, numa versão dublada, horrível.”

O filme foi restaurado pelo “Senhor dos Anéis” Peter Jackson, que fez o documentário “The Beatles: Get back” (2021) a partir de horas de filmagem destinadas a “Let it be” pelo diretor americano Michael Lindsay-Hogg com um upgrade técnico em som e imagem. Em sua atual versão, “Let it be” tem detalhes antes imperceptíveis, até pelos especialistas.

“O áudio melhorou muito, a gente consegue ouvir diálogos que não se percebia no original”, avalia Fróes.

O documentarista e beatlemaníaco Paulo Henrique Fontenelle, diretor de filmes como “Loki”, sobre Arnaldo Baptista, e “Cássia”, biografia de Cássia Eller, é mais um a louvar a atualização tecnológica.

“Além do som melhor, tem as legendas, para a gente entender o sotaque de Liverpool, que nem sempre é simples”, diz ele. “E é uma alegria ver a imagem refeita, diferente daquela ruim do VHS, com as cores mais nítidas. Também acho legal ver como o filme tem uma luz diferente da de “Get back”, mais sombria, que é como o Michael Lindsay-Hogg o fez.”

Comparações entre docs

Os dois diretores, Lindsay-Hogg, hoje com 84 anos (nascido em 1940, mesmo ano de John Lennon) e Peter Jackson, um jovem de 62, travam um rápido diálogo no começo da nova versão do filme, com muita cortesia e poucas comparações entre “The Beatles: Get back” (e seus 468 minutos, ou quase oito horas de duração) e “Let it be”, que surgiram neste século em ordem invertida.

“Acho que “Get back” esgota o assunto”, opina Lulu Santos, que reviu “Let it be” (“Lembro-me muito bem da pessoa que eu era quando o vi no cinema”) e define o filme como “meio monstrengão”.

No que tem a concordância de Fontenelle:

“A montagem tem muitos problemas. Se você prestar atenção, vai ver como em alguns momentos os músicos tocam e cantam uma coisa, e o áudio traz outra.”

Embora não estivesse ali para contar a história do fim dos Beatles, o diretor Lindsay-Hogg fez a edição em meio às brigas entre os Quatro Fabulosos.

“O filme era para ter mais de duas horas, acabou com uma hora e vinte”, diz Fontenelle. “O Lindsay-Hogg estava na moviola (antigo aparelho de edição analógica), montando, aparecia um deles lá e dizia: “Não quero essa parte, nem essa, nem essa”. Acabou cortando muito do filme, certamente um material que acabou em “Get back”.”

Réquiem ou não, é certo que o clima entre Paul, John e George — ninguém reclama do sorridente Ringo — era pesado naquele momento, o que aparece mais em “Get back” do que em “Let it be”.

“Houve uma briga física, eles saíram na porrada”, diz Fróes. “Isso não está nas imagens, mas em “Get back” há um diálogo ríspido, em áudio, apenas entre John e George, que era quem mais se ressentia da presença física de Yoko Ono nos ensaios e gravações. Eles sabiam onde estavam as câmeras, não brigariam na frente delas. O George Martin (1926-2016, lendário produtor dos Beatles) conta essa história de forma discreta em sua biografia.”

Lulu Santos também contabiliza George como o mais infeliz dos Beatles naquele momento. “É fácil ver como ele tinha um ressentimento, uma sensação de que jamais seria tão bom quanto os outros.”

Depois da briga, o autor de “All things must pass” teria passado uma semana fora dos ensaios e gravações, e sua relação com John Lennon oscilou até o lendário “Concert for Bangladesh”, show beneficente para o país asiático organizado por ele em 1971, em Nova York.

“George convidou Lennon para participar e Lennon, claro, apareceu com a Yoko”, conta Fróes. “George disse que o convidado era só o John, que ficou furioso e foi embora. Nunca mais eles se deram, até a morte de John, em 1980.”

Presença de Yoko

Embora Fróes e Fontenelle prefiram ver o copo meio cheio e destacar os aspectos positivos de “Let it be”, com a linda cena em que Lennon e Yoko valsam ao som de “I me mine” e o lendário show no terraço do prédio da gravadora Apple, Lulu segue concordando com a teoria histórica: “Let it be” é a crônica de uma morte anunciada.

“Acho que está na cara que o fim estava chegando”, diz ele, sem ver a vida melhor no futuro. “O bromance de Paul e John chegava ao fim, Paul quer cantar para as câmeras, fazer o trabalho combinado, e consegue, em canções maravilhosas como “Let it be” e “The long and winding road”, enquanto John está sempre sarcástico, em uma espécie de angústia existencial. Além da presença da Yoko, né? John havia sido criado por uma tia, Mimi; a mãe, Julia, deu a custódia dele. Acho que ele buscava uma mommy.”

As relações estavam chegando ao fim, assim como a década, ressalta Lulu. ” Eles até tentam levar o Billy Preston, músico de rock negro americano, representante de tudo o que eles gostavam, ao estúdio, para ver se o comportamento melhorava, mas não deu”, analisa ele. “Tem uma cena em que Paul fala com John e os olhos dos dois demoram a se encontrar. Acho até que nas drogas eles estavam em fases diferentes, como sugerem os olhinhos inchados de Paul, de maconha, e o rosto emaciado de John, possivelmente de heroína. Era o fim. Assim caminha a Humanidade, com passos de formiga e sem vontade.”

Testemunha ocular da história, Ringo Starr contemporizou em uma entrevista ao site americano “The daily beast”: “Eu vivia resmungando sobre o filme, porque não havia alegria nele”, disse o baterista, hoje com 83 anos, “Mas na verdade foi apenas uma discussão entre Paul e George a respeito de um arranjo que acabou marcando tudo. Quatro caras no estúdio, essas coisas acontecem”.

Já aconteceram. Deixa estar, Ringo.

Fonte: O Globo

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