- 31/07/2018 - 16:08

A gratuidade de Deus, os Mandamentos e a solidariedade entre os homens

Padre Everson Fontes Fonseca,

Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Mosqueiro.

Ao refletirmos sobre o sétimo mandamento – “Não roubarás” (cf. Ex 20,15; Dt 5,19; Mt 19,18) –, pensemos na gratuidade de Deus, expressa na obra da criação, na história de Israel, e, principalmente, na salvação operada por Cristo, e o que nos cabe diante da Sua benevolência.

Deus nunca deixou de manifestar a Sua bondade. Livre e gratuitamente, concede a vida a tudo quanto existe, criando. Porém, esta bondade se faz mais latente, quando o Senhor concede de Seu Ser na criação da humanidade, feita à Sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26-27). A alegoria do Éden inspira a harmonia que provém do ato criador – e, portanto, bondoso – de Deus. E Ele, que cria ‘no’ e ‘por’ amor (porque cria ‘em’ e ‘por’ Cristo), não deixa passar a criação, principalmente a humanidade, sem os caracteres de Si, chamando-nos à solidariedade para com todos.

Entretanto, quando do pecado, esta ordem generosa estampada por Deus em Sua criação parece ter sido turvada, e a injustiça e a opressão, junto com a maldade, entraram para corromper a harmonia deixada por Deus, perturbando a lei eterna do amor, escrita no coração do homem, trazendo graves consequências. A história de Israel sintetizará de certo modo as querelas que se abatem sobre a humanidade, bem como o desejo de Deus de querer resgatar o Seu povo, a Sua criação. Deus se comunica para restabelecer a ordem de Seu amor gratuito que foi prejudicada pelo pecado. E, para isso, Ele não cessa de querer estabelecer aliança entre Si e a Sua obra mais perfeita, o homem. Eis, com maior eloquência, mais um gesto gratuito de Deus. E, para não deixar de amar, ansiando ser também amado, sempre respeitando a liberdade do ente criado, dotado de racionalidade (tal como a criatura humana possui), o Senhor estampa o caminho do Decálogo, que se constitui um extraordinário caminho de vida, indicando as condições mais seguras para uma existência liberta da escravidão do pecado, numa expressão mais lúcida da lei natural a que estamos submetidos. Assim, como iniciativa da misericórdia de Deus, os Dez Mandamentos elevam a humanidade para uma melhor correspondência à gratuidade divina.

Não se imagine, contudo, que esta correspondência indefira o relacionamento entre os homens. Muito pelo contrário! É na dimensão social e comunitária (inclusive econômica e política) que esta resposta “encarnada” também acontece. E, sobremaneiramente, Jesus Cristo, ao tomar a nossa condição, assim nos exemplifica: “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,5-8). E tal compadecimento da humanidade não aconteceu apenas quando de Sua Encarnação, mas Jesus deseja, por toda a história, encontrar-Se na pessoa do pobre, do faminto, do sedento, enfim, dos sofredores, até quando da Sua volta gloriosa: “‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar?’ Responderá o Rei: ‘Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes’” (Mt 25,37-40).

Já tivemos a oportunidade de dizer que as virtudes, como dons de Deus, são participação na natureza divina. Como dons, ser-nos-ão proporcionadas pelo Espírito Santo, derramado no coração do homem, que o “fará aí medrar aqueles mesmos sentimentos de justiça e solidariedade que moram no coração de Deus” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 25); como participação na natureza divina, as virtudes far-nos-ão mais parecidos com o Senhor, acentuando o nosso qualitativo existencial de imagem e semelhança de Deus, inclusive pela gratuidade aplicada na solidariedade universal. Cresçamos, pois, nesta consciência.