- 14/08/2017 - 15:19

“Creio na Ressurreição da Carne”

O undécimo artigo da Profissão de Fé Católica é categórico quanto à convicção de que a vida do homem não encontra termo aqui neste mundo passageiro no qual somos transeuntes, mas transcende-o até alcançar a realização plena de viventes, imortais no Cristo, ressuscitados Nele.
Afirma-nos o Apóstolo dos Gentios, São Paulo, que é vã a Fé Cristã se não houver a ressurreição (cf. 1Cor 15,12-18). Logo, podemos entrever duas coisas: 1) O acreditar na ressurreição da carne é uma atitude de fé que vê na ressurreição de Jesus a garantia da ressurreição de todos os homens; Ele é o “o primogênito dentre os mortos” (Cl 1,18), portanto, o décimo primeiro artigo do Credo é uma espécie de adendo de uma outra parte do Símbolo de Fé: “[Creio em Jesus Cristo que] ressuscitou ao terceiro dia”. 2) Sob à luz do Ressuscitado nasceu e se desenvolveu o cristianismo: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,19).
A verdade do Ressuscitado é conteúdo base de toda pregação da Igreja, desde seus primórdios (cf. At 2,32). Logo, o ato de crer na ressurreição é um distintivo do ser cristão, tal como Tertuliano coadunava: “A confiança dos cristãos é a ressurreição dos mortos; crendo nela, somos cristãos”. Em síntese: só é cristão de fato quem crê na ressurreição, pois é promessa do próprio Senhor (cf. Jo 11,25-26). A compreensão acerca desta temática não foi instantânea no cabedal dogmático judaico. A Lei não se referia diretamente ao assunto; existiam divergências no judaísmo acerca disto (cf. Mt 22,23-33; Mc 12,18-27; Lc 20,27-39; At 23,8). Entrementes, o Segundo Livro dos Macabeus (2Mc 7) já nos oferece uma centelha teológica no Antigo Testamento acerca da ressurreição, e olhe que eles ainda não possuíam a garantia da promessa da imortalidade feita pelo próprio Cristo, Ressurreição e Vida.
“Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos; porque todos vivem para ele” (Lc 20,38). Mas, por que morremos? Fisiologicamente, a ciência tem seus motivos para explicar o porquê da morte. Teologicamente, a morte é consequência do pecado. No entanto, com a salvação do homem, a morte é vencida, é redimensionada a uma passagem para a entrada numa vida, a vida eterna, ou, no dizer de Santa Teresa de Lisieux, a “verdadeira vida”. Santo Ambrósio, já no século IV, refletia: “Na verdade, a morte não era da natureza, mas converteu-se em natureza. No princípio, Deus não fez a morte, mas deu-a como um remédio. Pela prevaricação, condenada ao trabalho de cada dia e ao gemido intolerável, a vida dos homens começou a ser miserável. Era preciso dar um fim aos males, para que a morte restituísse o que a vida perdera. Pois a imortalidade seria mais penosa que benéfica, se não fosse promovida pela graça”. Se a morte entrou no mundo como castigo, ela é transformada por Deus, em Suas magníficas sabedoria e providência, em descanso. Se parássemos aqui, tendo a morte apenas na conta de repouso, excluindo a esperança de vida que ela embute, poderia até soar que a morte, de per si, é algo bom e necessário para o esfalfamento do homem, graças aos seus labores e lutas. Porém, este tirocínio de ter a morte como um pouso apenas não se caracteriza uma visão cristã acerca da morte. A morte é descanso? Sim, o é. Mas, descasaremos na paz do Senhor vivendo na Sua luz. Morreremos para viver; viveremos para reinar, gozar da intimidade de Deus e encontrarmos o nosso ser no Seu ser (cf. 1Cor 15,22.45; 2Tm 2,11-12; Rm 8,11).
E o que é ressuscitar? Não é apenas uma mera reanimação de um corpo cadavérico. Não. Ressuscitar é, semelhantemente ao corpo de Cristo, a transformação do nosso corpo corruptível em glorioso, ou seja, que não se detém às condições físico-geográficas, etárias, fisiológicas; seremos, desta forma, imortais (cf. Lc 24,31; Jo 20,17.19.27). Segundo o Concílio de Latrão IV, “todos serão ressuscitados com seu próprio corpo, que têm agora” (Dz 801). No último dia, o Justo Juiz, Jesus, vindo em Sua glória, ressuscitará bons e maus e os julgará (cf. Jo 5,29), mas nem todos ressuscitarão da mesma forma. No dizer de São Pio X em seu Catecismo: “Haverá enorme diferença entre os corpos dos eleitos e os corpos dos condenados; porque somente os corpos dos eleitos terão, à semelhança de Jesus Cristo ressuscitado, os dotes dos corpos gloriosos. Os dotes que adornarão os corpos gloriosos dos bem-aventurados são: 1) a impassibilidade, pela qual eles não mais poderão estar sujeitos a males, nem dores de espécie alguma, nem às necessidades de alimento, de repouso e de qualquer outra coisa; 2) a claridade, pela qual eles resplandecerão como o sol e as estrelas; 3) a agilidade, pela qual eles poderão passar num momento sem fadiga, de um lugar para outro e da terra ao Céu; 4) a sutileza, pela qual eles poderão, sem obstáculo, passar através de qualquer corpo, como fez Jesus Cristo ressuscitado. Os corpos dos condenados serão destituídos dos dotes dos corpos gloriosos dos bem-aventurados, e trarão o horrível estigma da reprovação eterna” (Questões 242-244).
No nosso próximo encontro, trataremos acerca do duodécimo artigo do nosso Credo, “Creio na Vida Eterna”, como consequência eterna do viver em Cristo.
Até lá!