- 25/09/2017 - 15:41

A Imaculada Conceição de Maria

“Para a honra da santa e indivisa Trindade, para adorno e ornamento da Virgem Mãe de Deus, para exaltação da Fé Católica e incremento da religião cristã, com a autoridade do nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados Pedro e Paulo e nossa, declaramos, proclamamos e definimos: a doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante de sua concepção, por singular graça e privilégio do Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha da culpa original, é revelada por Deus e por isso deve ser crida firme e constantemente por todos os fiéis”. Com tais palavras constituintes do cerne da Bula “Ineffabilis Deus”, o Papa Bem-Aventurado Pio IX sintetiza a verdade dogmática da Imaculada Conceição da Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa.
Muito embora tardiamente, estas palavras solenemente proclamadas no século XIX não são constatações recentes da Santa Igreja. Não. Muito contrário, elas são, por assim dizer, conclusões cabais de diversos pensamentos que confluem para a imunidade de Maria Santíssima ao pecado original – contraído desde Adão, e que perpassa ao gênero humano no decorrer dos séculos (cf. Gn 3,1-24); e, da isenção do pecado original, à negativa às tentações, e, portanto, ao pecado habitual. Tais pensamentos são, antes, inspirados pelas Sagradas Escrituras, que atestam – ainda que em figuras – esta verdade relacionada à Conceição Imaculada de Maria.
Os chamados Padres da Igreja – santos doutores que, desde a época imediatamente posterior à morte do último apóstolo, São João, até os meados do século VII, com a sua piedade, interpretaram a fé revelada à Mãe, Mestra e Senhora Católica, guardiã e autêntica intérprete da Palavra de Deus (cf. 2Pd 1,20-21) – foram capazes de contemplar “[…] uma figura na arca de Noé, que, fabricada por Deus, permaneceu salva e incólume do naufrágio (cf. Gn 6,9-8,22); na escada, que Jacó da terra viu alcançar o céu – escada por cujos degraus os anjos subiam e desciam, e em cujo topo estava o Senhor (cf. Gn 28,10-19); na sarça, que não obstante fosse vista por Moisés arder em chamas crepitantes, no fogo santo, todavia não se consumia nem sofria nenhum dano, mas continuava a permanecer admiravelmente verde e florida (cf. Ex 3,1-3); naquela torre inexpugnável, posta de fronte ao inimigo, da qual pendem mil escudos e toda a armadura dos fortes (cf. Ct 4,4); naquele horto fechado, que não pode ser violado ou danificado por nenhum engano ou insídia (cf. Ct 4,12-15); naquela esplendorosa cidade de Deus, que tem seus fundamentos em montanhas santas (cf. Sb 9,8; Zc 8,3); naquele augusto templo de Deus que, refulgindo dos divinos esplendores, está repleto da glória do Senhor (cf. Ex 40,34-35; 1Rs 8,10-11; 2Cr 5,11-14; Ap 15,8); e, enfim, em todas aquelas outras inumeráveis figuras, nas quais os Padres reconheceram e transmitiram o claro prenúncio da excelsa dignidade da Mãe de Deus, de sua ilibada inocência e da sua santidade, nunca sujeita a mancha alguma” (Ineffabilis Deus, 13). Isso, sem se referir ao paralelismo com Eva, seja quando esta era incorrupta, seja contrariando-a; seja também no anagrama dos nomes ‘Eva’ e ‘Ave’; ou ainda ao juramento de Deus à serpente: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre tua descendência e a dela “ (Gn 3,15).
Como uma confirmação da proclamação de uma verdade arcana e que a Igreja solenemente anunciou, quando da sua aparição em Lourdes, em 1858, mediante à pergunta da mística vidente Santa Bernadete Soubirous acerca da identidade daquela mulher celestial que lhe aparecia, a Virgem Santíssima não hesitou na resposta: “Je suis l’Immaculée Conception” – Eu sou a Imaculada Conceição. Desta maneira também a humildade de Maria faz confirmar o que ela mesma cantou no Magnificat: “O Poderoso fez em mim maravilhas, e o Seu nome é santo” (Lc 1,49), reconhecendo que tudo que lhe aconteceu não tem outro sentido senão a santidade do próprio Deus, que dela nasceu, o Santo que sempre quis habitar em Seu trono de pureza, tal como caracterizou todo o ser de Maria, a Cheia de Graça. Daí, no vislumbre a Imaculada Conceição, São Luís Maria Grignion de Montfort, no “Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem”, estampar: “Deus reuniu todas as águas e chamou-as mar; reuniu todas as graças e chamou-as Maria”.
Que a fé na Imaculada Conceição da Virgem Santíssima inspire-nos a cultivar em nossa vida a santidade querida por Deus; nós que, no dia do nosso Batismo, fomos remidos do pecado original. Assim como Deus sempre encontrou em Maria uma correspondência à Sua Graça, também nos encontre sem as nódoas do pecado.