- 26/12/2017 - 15:39

Na plenitude dos tempos

É um costume arraigado e milenar na Igreja, por ocasião da data da Solenidade do Natal do Senhor, a récita das Kalendas na Missa: “Transcorridos muitos séculos desde que Deus criou o mundo e fez o homem à sua imagem; séculos depois de haver cessado o dilúvio, quando o Altíssimo fez resplandecer o arco-íris, sinal de aliança e de paz; vinte e um séculos depois do nascimento de Abraão, nosso pai; treze séculos depois da saída de Israel do Egito sob a guia de Moisés; cerca de mil anos depois da unção de Davi como rei de Israel; na septuagésima quinta semana da profecia de Daniel; na nonagésima quarta Olimpíada de Atenas; no ano 752 da fundação de Roma; no ano 538 do Edito de Ciro autorizando a volta do exílio e a reconstrução de Jerusalém; no quadragésimo segundo ano do império de César Otaviano Augusto, enquanto reinava a paz sobre a terra, na sexta idade de mundo. Jesus Cristo Deus Eterno e Filho do Eterno Pai, querendo santificar o mundo o mundo com a sua vinda, foi concebido por obra do Espírito Santo e se fez homem; transcorridos nove meses nasceu da Virgem Maria em Belém de Judá. Eis o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo a natureza humana. Venham, adoremos o Salvador. Ele é Emanuel, Deus Conosco”.
Esta belíssima narração tenta inserir os fiéis no contexto histórico-teológico do nascimento do Salvador do gênero humano. Desta forma, a Igreja assevera-nos que o Senhor, em sua atemporalidade, nos veio no tempo (de paz, inclusive), e todos os grandes eventos bíblicos e pagãos encontram o seu ponto convergência em Jesus, em Seu nascimento. A sábia Igreja vê estes fatos como uma preparação, direta ou indireta, para a chegada do tempo de plenitude, onde, de fato, Deus está conosco (cf. Jo 1, 14). Sim, o Menino que nos nasceu é manifestação autêntica, máxima e singular de Deus. É Deus mesmo que, em um movimento de ‘abaixamento’ e amor, faz questão de adentrar na pobre história dos homens, elevando-nos a Si, revelando-Se.
“O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte uma luz resplandeceu” (Is 9, 1). Quem é este povo senão uma gama de gerações que abarca milênios, e em cuja participação somos inseridos? Nós, transeuntes sem perspectivas; nós, que estávamos sem rumo, fomos visitados pelo Senhor e a Sua luz nos invadiu, atraindo-nos a Si. Tal como o navegante perdido em meio ao mar que, ao avistar o fanal, é impelido àquele lume, nós, também, andávamos náufragos no mar do mundo, sendo engolidos pelas ondas do pecado, quando avistamos o Senhor, travestido em nossa essência, sem abandonar o que é por divindade, na meiguice de um recém-nascido, esbanjando-nos alegria. Sim, Ele é a nossa luz! (cf. Jo 8, 12). Por isso, a solenidade do Natal ser celebrada no dia 25 de dezembro, no hemisfério norte do planeta, data do solstício de inverno, quando os pagãos celebravam a festa do Natale solis invicti, Nascimento do sol invencível, comemorando o nascimento do deus sol. No século IV, estabelecendo uma relação entre o simbolismo bíblico luz-trevas e Cristo, vitorioso absoluto da noite do pecado, a Igreja canoniza esta data para fazer memória do Nascimento do ‘Sol da Justiça que há de iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os passos no caminho da paz’ (cf. Lc 2, 78-79). “Ó, quão maravilhosamente agiu a Providência que naquele dia em que o sol nasceu […] Cristo deveria nascer”, afirma São Cipriano; e, João Crisóstomo: “Eles chamam isso de ‘aniversário do invicto’. Quem de fato é tão invencível como Nosso Senhor?”
Como estamos nos portando na presença de “Jesus, a Alegria dos homens”, para fazer menção ao que compusera Johann Sebastian Bach? Quais os sentimentos do nosso coração ao vermos desvelados em uma frágil criança os mistérios da suma grandeza de Deus, na data em que a sentimentalidade aflora na humanidade? Na noite do Natal, as palavras cessam e fala o olhar ao contemplar o Pequenino reclinado em Sua manjedoura. E assim, a razão humana cala-se diante do escândalo da Encarnação e Nascimento do Salvador, e ressoa a fé. O mistério celebrado na feliz e silenciosa noite de Natal invadirá o nosso coração, para que, vislumbrando-o nos mais puros sentimentos, façamos com que o Salvador nasça e renasça constantemente em nosso interior, até gozarmos Dele, plenamente, no céu, quando renasceremos para a glória.