- 31/07/2017 - 14:06

O “Banho” do perdão (a confissão)

A justa adesão de fé ao que crê a Igreja de Cristo, a ‘Senhora Católica’, encaminha o nosso olhar e vida para o Sacramento da Confissão (ou chamado Reconciliação ou ainda Penitência). Refletindo sobre esta realidade onipotente do amor de Deus, damos continuidade à nossa reflexão acerca do décimo artigo da Profissão de Fé da Igreja Católica: “Creio na remissão dos pecados”.
Sabendo da debilidade humana que, mesmo regenerada em Si, ainda seria propensa ao pecado, Jesus, sapiente e providentemente, instituiu à Igreja o poder de anular todos os pecados por meio do sacramento que sana as faltas que cometemos após o banho batismal, reintegrando-nos a Deus e à comunidade cristã, ‘desencardindo a nossa alva veste batismal, enodoada pela infidelidade a Deus, pelo mal que cometemos’. O Senhor brindou-nos com o Sacramento da Penitência no dia da Sua ressurreição, no dia do Seu maior triunfo, quando, ressurgindo, venceu o pecado e a morte (cf. Jo 20,23). Por antonomásia, ao instituir tal sacramento no dia mesmo de Sua Páscoa, Jesus quer a ressurreição de nossa alma, tendo em vista que, se o pecado é a morte de nossa alma, o perdão que recebemos sacramentalmente é a sua ressurreição.
Quem já bebeu da graça sacramental da confissão, certamente sentiu o doce alívio que o ‘estar quite’ com Deus e com a Sua Igreja traz ao nosso interior. Imaginemos se Cristo não tivesse tal iniciativa de instituição, fruto do Seu coração misericordioso; se Cristo não tivesse dado à Sua Igreja o poder de perdoar os pecados, quantas pessoas não estariam privadas da paz com Deus, com os irmãos, com a sua própria consciência? Quantos não viveriam no desespero e nos remorsos produzidos pelos pecados graves, comprometendo até mesmo a esperança da salvação? Poderíamos afirmar sem o medo do exagero: A confissão é a salvação dos pecadores. Alguns poderiam retrucar: “A salvação é Cristo!”. Treplicamos: Mas, quem é que salva o homem pela realidade sacramental, não é o próprio Jesus que confia à Sua Igreja tão grande mistério para oferecê-lo aos homens? Em um anoso manual de catequese (o livro “Leitura de Doutrina Cristã”, publicado pela Editora Vozes, em 1958), encontramos uma curiosa analogia: “A corda que salva o pecador da morte eterna e do poço do inferno é a confissão. Devemos agarrar-nos a ela quando cairmos em algum pecado. E foi Jesus que deu à sua Igreja esta corda de salvação dando-lhe o poder de perdoar os pecados” (p. 247).
Quem na Igreja exerce tal ministério de perdoar iniquidades? São Pio X, em seu famoso catecismo, responderá: “Os que na Igreja exercem o poder de perdoar os pecados são, em primeiro lugar, o Papa que é o único que possui a plenitude de tal poder; depois os Bispos e, sob a dependência dos Bispos, os Sacerdotes” (Questão 236). Solenemente, Cristo reveste os Apóstolos, e seus sucessores com os seus colaboradores imediatos, os sacerdotes, deste poder único. Ele poderia ter feito diferente, mas não o quis, pois desejou que esta faculdade do perdão passasse pelas mãos e voz dos homens, instrumentos de Sua misericórdia, quando dizem: “Deus, Pai de misericórdia, que, pela morte e ressurreição de seu Filho, reconciliou o mundo consigo e enviou o Espírito Santo para a remissão dos pecados, te conceda, pelo ministério da Igreja, o perdão e a paz. E eu te absolvo dos teus pecados, em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”.
Muitos, entretanto, se queixam da vergonha e do medo que se lhes invadem de uma autoacusação na Confissão, chegando até a introjetar em suas mentes: “Eu não sei me confessar!”. Temos que ter muito cuidado: o demônio pode estar se utilizando dos nossos receios de humilhar-nos diante da poderosa misericórdia de Deus para fazer-nos, pecadores, subservientes seus. E outra: se temos vergonha de apontar os nossos erros, por que não temos acanhamento em cometê-los? São Pio de Pietrelcina afirmava, encorajando os penitentes: “A confissão é o único tribunal em que os ‘réus’ se acusam e saem inteiramente absolvidos”. Já Tertuliano compara o cristão que prescinde do Sacramento da Penitência (seja por ignorá-lo, seja por embaraço), de confessar os seus delitos ao sacerdote a um doente que, por bloqueio, não quer mostrar ao médico as feridas. Santo Agostinho de Hipona insistia: “Não basta confessar os pecados a Deus, para quem nada é oculto, é preciso também acusá-los ao sacerdote, que é o Seu ministro”.
Que, diante das nossas fragilidades, quedas, fracassos, mas, principalmente, diante do infinito poder misericordioso de Deus, possamos, através da humilde confissão de nossas faltas, acatar o que nos aconselha São Pedro em sua Primeira Epístola: “Humilhai-vos, pois, debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele vos exalte no tempo oportuno” (1Pd 5,6); ou ainda São Tiago em sua Carta: “Humilhai-vos na presença do Senhor, e ele vos exaltará” (Tg 4,10).