- 02/01/2018 - 17:57

Do perigo da idolatria ao erro do politeísmo: uma breve catequese

No debate acerca do Pentateuco – a saber dos cinco primeiros livros da Bíblia –, em muitos trechos, pode-se ler a proibição feita por Deus acerca da confecção e consequente adoração de imagens, esculturas e representações diversas. Isto é bem verdade. Entretanto, cabe-nos averiguar o porquê desta determinação feita por Ele, e para isto, deveremos recorrer à cultura e pensamento da época da revelação e composição destes escritos.
Assim que saiu do Egito, Israel carregava consigo também uma propensão à idolatria politeísta, tendo em vista a religião e cultura egípcias. Esta situação não foi diferente no deserto, quando o povo, traindo o Deus de Israel, o Irrepresentável, quis outorgar-lhe a fisionomia bovina (cf. Ex 32), ou mesmo em substituição à verdadeira divindade. Outros fatores que não devem ser desconsiderados são o do convívio e da vizinhança de Israel assim que entra em Canaã, a “Terra Prometida”; com povos que cultuavam outros deuses. Todos, com exceção do Povo eleito pelo Deus Único, Vivo e Verdadeiro, não conheciam-No e, consequentemente, eram politeístas, tipicamente animistas, ou seja, adoravam os fenômenos naturais que os circundavam, dando-lhes uma força e importância indevidamente divinas. Na Sua pedagogia, o Senhor Deus educava Israel, proibindo-lhe a confecção de qualquer representação divina, seja de cunho monoteísta ou mesmo politeísta.
Esta educação ia acontecendo com parcimônia, e tinha como crivo a misericórdia de Deus para um povo que, não poucas vezes, trocava o Deus verdadeiro por ídolos. Mas, se ao tempo em que Deus proibia a instituição de representações divinas, também temos referências bíblicas que nos provam que Deus ordena a feitura de imagens, desde que não O substituam. No Gênesis, por exemplo, temos o dado de que Deus fez o homem e a mulher “à sua imagem e semelhança” (Gn 1,26-27). Também a ordem dada a Moisés para que sejam copiadas no Templo e nos seus artefatos as realidades divinas; estas representações, simbolicamente, conduziriam à salvação por meio do Verbo encarnado (cf. Nm 21,4-9; Sb 16,5-14; Jo 3,14-15; Ex 25,10-22; 1Rs 6,23-28; 7,23-26). A imagem como símbolo também comunica, porque faz parte da linguagem humana. E desta maneira, na beleza de uma obra de arte, pode-se contemplar a bondade inexaurível de Deus, tal como a natureza igualmente a exprime.
São Paulo, em um hino de uma de suas cartas, dirá que Cristo “é imagem visível do Deus invisível” (Cl 1,5). Assim, ao assumir um corpo – verdadeiramente humano – Cristo, que é Deus, deixa-se representar, inclusive nas imagens. E isto por comparação, porque representamos artisticamente aquele rosto de Deus que se fez rosto humano, para que o pudéssemos contemplar, mas nunca esgotar a Sua divindade. O Concílio de Niceia II (em 787), debatendo contra os iconoclastas, define: “Nós acolhemos as venerandas imagens; nós submetemos ao anátema aqueles que não admitem isto [… ] Se alguém não admite que Cristo, nosso Deus, é circunscrito segundo a humanidade, seja anátema […] Se alguém não admite que as narrativas evangélicas sejam explicadas com imagens, seja anátema […] Se alguém não honra estas imagens que são para o nome do Senhor e dos seus santos, seja anátema” (Denziger 601).
O conceito básico das imagens sacras é o de tê-las como ‘sinal’. Neste sentido, Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica, nos instruir: “O culto da religião não se dirige às imagens em si como realidades, mas as considera em seu aspecto próprio de imagens que nos conduzem ao Deus encarnado. Ora, o movimento que se dirige à imagem enquanto tal não termina nela, mas tende para a realidade da qual é imagem” (II-II,81,3,ad 3). E ainda neste sentido, o Catecismo da Igreja Católica se pronuncia prontamente sobre o assunto: “O culto cristão das imagens não é contrário ao primeiro mandamento, que proíbe os ídolos. Com efeito, a honra prestada a uma imagem remonta ao modelo original e quem venera uma imagem venera nela a pessoa representada. A honra prestada às santas imagens é uma veneração respeitosa, e não uma adoração, que só compete a Deus” (n. 2132).
Entretanto, esta catequese feita por nós nesta ocasião não deve ser um descuido aos possíveis desvios que podem conduzir à idolatria – até mesmo ao politeísmo – do ter, do prazer, do poder, do aparentar… ou mesmo relacionados às filosofias, crenças, tradições, ideários de vida ou mesmo estilos contrários à religião cristã e que está sendo bastante propagados na atualidade, sutilmente travestidos em proporcionais de paz, de elevação do espírito e tantas outras falsidades. Que estejamos atentos a tudo quanto pode nos atrapalhar no encontro com o Único e Verdadeiro Deus, que se revelou a nós em Cristo Jesus de sobremaneira. Que a certeza da veneração das imagens sacras faça-nos enxergar a comunicação de Deus ao nosso coração, sobretudo na época em que o simbólico é de grande valia para o pedagógico e psicológico em prol da evangelização.