Curiosidades

Conheça Laika, a cadela que se tornou o primeiro ser vivo a orbitar a Terra há quase 70 anos

03/11/2026 às 15:41

 

Antes de enviar seres humanos ao espaço, a União Soviética realizou uma série de experimentos com animais. Entre os escolhidos estavam cães encontrados nas ruas de Moscou, treinados para suportar as condições extremas das viagens espaciais. Em 3 de novembro de 1957, uma dessas cadelas, chamada Laika, foi lançada do cosmódromo de Baikonur e se tornou o primeiro ser vivo a orbitar a Terra. Sua missão, porém, tinha um destino trágico: os cientistas já sabiam que ela não retornaria.

Na época, a tecnologia necessária para trazer organismos vivos de volta à superfície ainda não havia sido desenvolvida. Viktor Yazdovsky, filho de Vladimir Yazdovsky, responsável pela área médica do programa espacial soviético, contou à BBC em 2017 que todos estavam preocupados com o animal. Aos nove anos, pouco antes do lançamento, ele chegou a brincar com Laika na casa da avó, nos arredores de Moscou.

Segundo Viktor, a cadela era dócil, afetuosa, inteligente e fácil de treinar. Seu pai a levou para passar algum tempo em um ambiente doméstico antes da viagem, proporcionando uma experiência diferente daquela vivida nos laboratórios.

A missão foi determinada pelo sucesso do Sputnik 1, lançado em 4 de outubro de 1957 e primeiro satélite artificial da história a entrar em órbita. Impressionado com o feito, o então primeiro-ministro soviético Nikita Khrushchev pediu uma nova conquista para o aniversário da Revolução Russa, celebrado em 7 de novembro. O prazo deixava os engenheiros com poucas semanas para preparar outro lançamento.

O responsável pelo projeto era Sergei Korolev, principal projetista do programa espacial soviético. Depois da Segunda Guerra Mundial, ele havia trabalhado na adaptação da tecnologia dos foguetes V-2 alemães para desenvolver armamentos capazes de transportar as bombas atômicas soviéticas. Em agosto de 1957, seu foguete R-7 Semyorka havia realizado um lançamento bem-sucedido, tornando-se o primeiro míssil balístico intercontinental do mundo.

Korolev, entretanto, tinha ambições que iam além do desenvolvimento militar. Desde a década de 1930, sonhava em construir foguetes capazes de alcançar o espaço. Sua filha, Natalya Koroleva, contou à BBC que o pai chegou a construir planadores e um avião antes de se dedicar ao projeto de foguetes. Em seus escritos, ele resumiu sua aspiração: alcançar as estrelas.

A missão de Laika

O lançamento do Sputnik 1 permitiu demonstrar que a tecnologia soviética já podia colocar objetos em órbita. Pouco depois, Korolev lideraria a preparação de uma segunda missão, desta vez com um passageiro a bordo. Entre 1951 e 1965, os soviéticos enviaram mais de 50 cães ao espaço. Antes de Laika, porém, os voos eram suborbitais, ou seja, não completavam uma volta ao redor da Terra.

A escolha dos cães também diferenciava os soviéticos dos americanos, que haviam utilizado primeiro moscas-das-frutas e depois macacos em seus experimentos. De acordo com Yazdovsky, os primatas apresentavam dificuldades durante os lançamentos, incluindo ataques cardíacos. Além disso, a sedação poderia comprometer os dados transmitidos à equipe em solo. Os cães, por outro lado, eram animais cuja fisiologia já havia sido amplamente estudada por cientistas russos, entre eles Ivan Pavlov.

Os soviéticos preferiam cães sem raça definida, encontrados nas ruas. A sobrevivência nas condições difíceis da vida urbana era considerada um indicativo de resistência e capacidade de adaptação. As fêmeas eram escolhidas por serem consideradas mais dóceis, enquanto o peso dos animais precisava ficar entre 6 e 7 quilos para permitir sua acomodação nas cápsulas.

Durante o treinamento, os cães passavam dias ou semanas em compartimentos pressurizados, sendo submetidos a testes com sons, variações de pressão e condições de ausência de gravidade. Laika, cujo nome de nascimento era Kudryavka, ganhou notoriedade depois de latir durante uma apresentação transmitida pelo rádio. O apelido significa justamente “aquela que late”.

A preparação da missão, contudo, foi apressada. A cápsula utilizada para transportar o animal foi adaptada a partir do projeto do Sputnik 1, e seu sistema de isolamento térmico não estava devidamente desenvolvido. Laika morreu em consequência do superaquecimento do compartimento, poucas horas depois do lançamento. Durante décadas, as autoridades soviéticas sustentaram que ela havia sobrevivido por vários dias em órbita. Em 2002, porém, foi admitido que a cadela morreu entre cinco e sete horas após a decolagem, em decorrência do calor e do estresse.

Registros de respiração desclassificados, preservados pelo Museu Nacional do Ar e do Espaço dos Estados Unidos, confirmaram que Laika chegou viva à órbita. A viagem durava aproximadamente 103 minutos por volta completa da Terra.

A notícia de que o animal havia sido enviado para uma missão sem retorno provocou indignação internacional. Grupos de proteção animal organizaram protestos diante da embaixada soviética no Reino Unido, enquanto manifestantes acompanhados de seus cães se reuniram diante da sede das Nações Unidas, em Nova York. A Sociedade Americana para a Prevenção da Crueldade contra os Animais também enviou uma carta de protesto ao governo soviético.

As missões seguintes passaram a contar com sistemas de recuperação. Em 19 de agosto de 1960, Belka e Strelka foram lançadas ao espaço e completaram 17 órbitas antes de retornarem à Terra no dia seguinte.

Laika, entretanto, permaneceu como um dos símbolos da exploração espacial soviética. Sua imagem apareceu em selos e envelopes comemorativos, além de inspirar produtos como cigarros e caixas de fósforos. Em 2008, Moscou inaugurou um monumento de dois metros de altura que representa um foguete se transformando em uma mão, sobre a qual está a figura de uma cadela.

Viktor Yazdovsky afirmou que a missão demonstrou a possibilidade de um organismo vivo permanecer em condições de ausência de gravidade, abrindo caminho para futuras viagens humanas. O próprio Oleg Gazenko, responsável pelo treinamento e pela seleção de Laika, manifestou arrependimento em 1998. Segundo ele, o trabalho com animais provocava sofrimento aos pesquisadores e, com o passar do tempo, sua tristeza pela morte da cadela aumentava. Na avaliação de Gazenko, os conhecimentos obtidos naquela missão não foram suficientes para justificar a perda de sua vida.

Fonte: Aventuras na História

← AnteriorMarinho pode disputar Presidência do Senado com AlcolumbrePróximo →STF deve iniciar julgamento sobre investigações contra Moraes…