O Comitê Olímpico do Brasil (COB) enviou questionamentos ao Comitê Olímpico Internacional (COI) a respeito da política de gênero recentemente anunciada pela entidade global. De acordo com a nova regra, atletas terão que passar por testes de gênero para comprovar que estão aptas a participar de competições femininas organizadas pelo COI. Mulheres trans estarão banidas de torneios olímpicos.
Marco Antonio La Porta, presidente do COB, externou que o comitê brasileiro apoia a nova política de gênero, mas tem dúvidas quanto ao funcionamento na prática.
“Nós fizemos uma consulta ao COI. Há algumas dúvidas em relação ao posicionamento do Comitê Olímpico Internacional. Nós já enviamos um documento para eles com questões que temos. Precisamos entender a partir de quando (a política) realmente está valendo, se conta para trás, para frente, se vai ser só em Los Angeles (sede das próximas Olimpíadas). O COI teve muito cuidado, passou um ano vendo estudos científicos, procurando um embasamento, e estamos muito seguros de que a decisão deles é correta. Precisamos realmente esclarecer como será na prática”, disse La Porta, na quarta-feira (8), durante evento do Hall da Fama do COB.
Na época do anúncio da nova política de gênero, o COI comunicou que a exigência de testes valeria a partir dos Jogos de Los Angeles, em 2028. Apesar de não obrigar, a entidade ainda sugeriu que federações internacionais e comitês nacionais seguissem as mesmas diretrizes. Mas o documento divulgado gerou interpretações diferentes.
La Porta contou que a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) procurou o COB para ter esclarecimentos. O ge apurou que a principal preocupação da CBV é com o prazo para aplicação da nova política de gênero. A entidade quer entender se a regra realmente só entrarão em vigor em 2028 ou se haverá algum tipo de retroatividade, considerando competições e testes de gênero realizados antes dos Jogos de Los Angeles.
Por enquanto, o COI ainda não respondeu às perguntas enviadas pelo COB. Na visão de La Porta, a entidade internacional precisa de tempo para dar atenção aos contatos feitos por vários comitês nacionais:
“Não foi só o Brasil. Com certeza, eles estão recebendo mais consultas. E são várias dúvidas. O COI fez um documento muito amplo, genérico. Há uma diretriz clara, mas precisamos entender como vai ser colocado em prática”.
O presidente do COB ainda ressaltou um outro ponto que precisa de esclarecimento: como serão tratadas as atletas com disfunções hormonais. Um dos casos mais conhecidos é o de Caster Semenya, bicampeã olímpica dos 800m no atletismo. A sul-africana produz mais hormônios masculinos do que a média das mulheres.
Semenya, que foi submetida a teste de gênero, está afastada das pistas há anos, porque se recusa a seguir uma determinação da World Athletics. A Federação Internacional de Atletismo exige que atletas hiperandrogênicas, como a corredora sul-africana, tomem medicamentos para reduzir as taxas de testosterona. Caster chegou a levar o caso aos tribunais, mas desistiu do processo no ano passado.
Entenda a nova política de gênero do COI
O Comitê Olímpico Internacional anunciou, no fim de março, uma nova política de teste de gênero para determinar a elegibilidade de atletas olímpicas à categoria feminina. Cada competidora poderá fazer o teste apenas uma vez na vida.
A medida valerá para todas as modalidades olímpicas, individuais ou coletivas e para os Jogos da Juventude, disputados por atletas adolescentes. A elegibilidade à categoria feminina será determinada por um teste que determina a presença ou a ausência do gene SRY (em inglês, Sex-determining Region Y), que atua como desencadeador do desenvolvimento masculino.
Resultados negativos para o gene SRY serão aceitos como prova de que a pessoa poderá competir na categoria feminina, sem precisar passar por novos exames. No entanto, em caso de resposta positiva, não haverá outra chance para testes.
O COI afirmou que a decisão foi tomada com base em evidências científicas, em estudos liderados por Jane Thornton, diretora de saúde e ciência do Comitê. Além disso, a entidade alega que o rastreamento do gene é feito por métodos menos invasivos, como coleta de saliva ou de sangue.
Ao ser questionada, a presidente do COI, Kirsty Coventry, afirmou que a implementação do teste de gênero não teve influência de Donald Trump. O atual presidente dos EUA já havia assinado uma ordem executiva que proibia a participação de atletas trans nas competições esportivas americanas.
Vale destacar que a nova política de gênero do COI será aplicada apenas em provas femininas – sem englobar as disputas masculinas.
Fonte: Globo Esporte
Foto: Rafael Bello/COB







