A CASA VERDE

Em meados de 2024, uma nonagenária escalou um muro de mais de dois metros para fugir de uma instituição de repouso em Yantai, na província de Shandong, China. Câmeras flagraram o momento inusitado e a desenvoltura épica da vovó. A notícia repercutiu bastante nas redes digitais. Tentei pesquisar mais, entender o que a levou a arriscar-se assim. Seria solidão, saudade ou desejo de liberdade? Sem sucesso.
Casos assim fustigam nossa perspectiva acerca do porvir. Fico a me perguntar o que acontecerá comigo se eu viver muito. Há quem me diga que ao menos as filhas jamais me abandonarão e que tenho preocupação exagerada com a desventura do isolamento. Pode até ser. Quando as vejo hoje, ainda meninas, sinto um vínculo amoroso que sugere um eterno encontro com minhas rugas futuras.
O porvir, contudo, é muito incerto. Assim como a influência paterna também o é. Khalil Gibran tem uma frase célebre, na qual ele diz que nossos filhos são filhos da ânsia da vida por si mesma e não nos pertencem, apesar de virem através de nós. São como flechas lançadas ao mundo imponderável e aleatório que gira numa velocidade cada vez maior.
Penso, então, numa válvula de escape: minha esposa, quase uma década mais jovem. Espero que ela, saudável, suporte o peso da minha velhice. Homens, na maturidade extrema, tendem a carregar o ranço de uma vida descompassada. Não são poucos os que, arrebatados pela vontade tresloucada de serem meninos, imaginam-se viris e dispostos. A ação desdenhosa da gravidade é ataque cruel demais para aceitar sem alguma resistência. Por isso, desejo que ela viva o bastante. A razão é simples: não quero ir para o abrigo! Eu teria dificuldade para escalar muros.
Pessoalmente, nunca vi quem, na nonagésima primavera, transpusesse as divisas de um asilo. Façanha assim exige a força dos jovens ou uma vitalidade rara em quem carrega os anos nas costas. Lembro-me de criança, com receio de ser mordido por um pastor alemão que se desvencilhara do dono, saltando uma barreira. Para o meu tamanho, era como se superasse a muralha da China. A mesma China da anciã que abriu este relato. E não falei de crianças à toa. É nelas que nos tornamos, se a morte não nos levar prematuramente.
O feito da chinesa foi, portanto, memorável. Porém já vi idosos recorrerem a artifícios menos engenhosos: um fingindo infarto para manter o filho por perto, outro insistindo que ainda não era meia-noite, a fim de prolongar o natalício, e um terceiro escondido embaixo da cama para evitar o retorno forçado ao abrigo. Convenhamos: não sei o que é pior, se viver aos cuidados de funcionários pagos ou esperar, entre cuidadores, as raras visitas de parentes.
Quando cuidar de um veterano vira uma obrigação, o responsável conta as horas para devolver a tutela ao asilo. No último minuto, o frágil tutelado precisa entrar às marras no carro, para que seja restituído aos assistentes sociais. Já testemunhei, com angústia, um deles implorar, choroso: “Não me leve, por favor, para a casa verde!”. Sim, casa verde; não o hospício descrito por Machado de Assis em O Alienista, gerido pelo psiquiatra Simão Bacamarte. Algo similar, onde gente sã, tomada pela saudade, enlouquece porque a descendência se deu a estorvar a senilidade.
Não me entendam mal. Nada contra as casas verdes; elas são necessárias para amenizar as agruras da velhice solitária, pois são as últimas trincheiras dos afetos, ainda que fábricas da nostalgia. Quem nelas vê a muralha chinesa, e pensa em pular para o outro lado, é porque busca um passado onde havia amor sincero, gratuito e livre.
