A CASA VERDE

25/08/2026 às 06:15

 

Em meados de 2024, uma nonagenária escalou um muro de mais de dois metros para fugir de uma instituição de repouso em Yantai, na província de Shandong, China. Câmeras flagraram o momento inusitado e a desenvoltura épica da vovó. A notícia repercutiu bastante nas redes digitais. Tentei pesquisar mais, entender o que a levou a arriscar-se assim. Seria solidão, saudade ou desejo de liberdade? Sem sucesso.

Casos assim fustigam nossa perspectiva acerca do porvir. Fico a me perguntar o que acontecerá comigo se eu viver muito. Há quem me diga que ao menos as filhas jamais me abandonarão e que tenho preocupação exagerada com a desventura do isolamento. Pode até ser. Quando as vejo hoje, ainda meninas, sinto um vínculo amoroso que sugere um eterno encontro com minhas rugas futuras.

O porvir, contudo, é muito incerto. Assim como a influência paterna também o é. Khalil Gibran tem uma frase célebre, na qual ele diz que nossos filhos são filhos da ânsia da vida por si mesma e não nos pertencem, apesar de virem através de nós. São como flechas lançadas ao mundo imponderável e aleatório que gira numa velocidade cada vez maior.

Penso, então, numa válvula de escape: minha esposa, quase uma década mais jovem. Espero que ela, saudável, suporte o peso da minha velhice. Homens, na maturidade extrema, tendem a carregar o ranço de uma vida descompassada. Não são poucos os que, arrebatados pela vontade tresloucada de serem meninos, imaginam-se viris e dispostos. A ação desdenhosa da gravidade é ataque cruel demais para aceitar sem alguma resistência. Por isso, desejo que ela viva o bastante. A razão é simples: não quero ir para o abrigo! Eu teria dificuldade para escalar muros.

Pessoalmente, nunca vi quem, na nonagésima primavera, transpusesse as divisas de um asilo. Façanha assim exige a força dos jovens ou uma vitalidade rara em quem carrega os anos nas costas. Lembro-me de criança, com receio de ser mordido por um pastor alemão que se desvencilhara do dono, saltando uma barreira. Para o meu tamanho, era como se superasse a muralha da China. A mesma China da anciã que abriu este relato. E não falei de crianças à toa. É nelas que nos tornamos, se a morte não nos levar prematuramente.

O feito da chinesa foi, portanto, memorável. Porém já vi idosos recorrerem a artifícios menos engenhosos: um fingindo infarto para manter o filho por perto, outro insistindo que ainda não era meia-noite, a fim de prolongar o natalício, e um terceiro escondido embaixo da cama para evitar o retorno forçado ao abrigo. Convenhamos: não sei o que é pior, se viver aos cuidados de funcionários pagos ou esperar, entre cuidadores, as raras visitas de parentes.

Quando cuidar de um veterano vira uma obrigação, o responsável conta as horas para devolver a tutela ao asilo. No último minuto, o frágil tutelado precisa entrar às marras no carro, para que seja restituído aos assistentes sociais. Já testemunhei, com angústia, um deles implorar, choroso: “Não me leve, por favor, para a casa verde!”. Sim, casa verde; não o hospício descrito por Machado de Assis em O Alienista, gerido pelo psiquiatra Simão Bacamarte. Algo similar, onde gente sã, tomada pela saudade, enlouquece porque a descendência se deu a estorvar a senilidade.

Não me entendam mal. Nada contra as casas verdes; elas são necessárias para amenizar as agruras da velhice solitária, pois são as últimas trincheiras dos afetos, ainda que fábricas da nostalgia. Quem nelas vê a muralha chinesa, e pensa em pular para o outro lado, é porque busca um passado onde havia amor sincero, gratuito e livre.

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