Situação da População de Rua em Sergipe

Conforme levantamento realizado no Observatório do Cadastro Único do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), o estado de Sergipe registra 1.967 famílias e 1.999 pessoas em situação de rua, indicando que praticamente todas as famílias cadastradas são compostas por apenas uma pessoa, característica comum desse público.
Os dados revelam uma população marcada pela forte vulnerabilidade social e laboral. Embora 1.014 pessoas afirmem já ter tido emprego formal, 882 nunca tiveram vínculo com carteira assinada, evidenciando processos de exclusão do mercado de trabalho e dificuldades de reinserção.
Quanto às fontes de renda, predominam atividades informais e de baixa remuneração, como coleta de materiais recicláveis (401 pessoas); pedidos de dinheiro (295) e atuação como flanelinhas (220).
Pelos dados do Observatório do Cadastro Único (referência: junho de 2026), observam-se os seguintes resultados: a grande maioria não vive com a família na rua, indicando predominância de pessoas sozinhas nessa condição. Registre-se que o principal local de pernoite é a própria rua, sendo o uso de albergues significativamente menor.
Há um contingente expressivo de pessoas que permanece em situação de rua por períodos prolongados, demonstrando que o problema não é apenas transitório, mas também estrutural. Além disso, muitos vivem no mesmo município há vários anos, evidenciando que a população em situação de rua é majoritariamente formada por moradores locais, e não por migrantes recentes. Importante registrar que os principais motivos declarados para a situação de rua são alcoolismo e outras drogas, perda da moradia, conflitos familiares e desemprego.
Também chama atenção o acesso limitado à rede socioassistencial. Entre os equipamentos utilizados no 1º semestre de 2026, destacam-se hospitais e clínicas (521 atendimentos); CRAS (436); CREAS (256) e Centro POP (209).
Esses números e dados sugerem que parte significativa da população em situação de rua procura o sistema de saúde antes mesmo de acessar os serviços especializados de assistência social, o que pode indicar dificuldades de busca ativa e de articulação entre as políticas públicas.
Os dados permitem caracterizar essa população como de elevada vulnerabilidade econômica, apresentando ruptura dos vínculos familiares e comunitários; com inserção predominante na informalidade; histórico de exclusão do mercado formal de trabalho e forte dependência das políticas públicas de assistência e saúde. Essa caracterização está alinhada à definição adotada pela Política Nacional para a População em Situação de Rua.
Cabe registrar que diversos autores ajudam a compreender esse fenômeno, a exemplo de Robert Castel, ele argumenta que a população em situação de rua representa o estágio extremo do processo de desfiliação social, quando o indivíduo perde simultaneamente os vínculos de trabalho e de proteção social.
A teórica Martha Nussbaum amplia essa visão ao defender que políticas públicas devem garantir um conjunto mínimo de capacidades humanas, incluindo moradia digna, saúde, segurança e participação cidadã.
No contexto brasileiro, Aldaíza Sposati destaca que a população em situação de rua exige uma atuação integrada do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), articulando proteção social, habitação, trabalho e saúde.
Os caminhos para enfrentar o problema em Sergipe passam por algumas prioridades, a exemplo de ampliar a capacidade dos Centros POP e dos CREAS especializados, fortalecer equipes de abordagem social com atuação permanente, ampliar programas de qualificação profissional e intermediação de mão de obra para pessoas em situação de rua, desenvolver programas de moradia primeiro (Housing First), estratégia já adotada em diversos países, integrar Cadastro Único, SUS, SUAS e Sistema Nacional de Emprego para acompanhamento individualizado, buscar incentivar cooperativas de reciclagem e empreendimento solidários, aproveitando que muitos sobrevivem da coleta de recicláveis e fortalecer ações de saúde mental e tratamento para dependência química quando necessário.
Pelo apresentado, o diagnóstico aponta que a situação da população em situação de rua em Sergipe não decorre exclusivamente da pobreza monetária. Trata-se de um fenômeno multidimensional, envolvendo desemprego, fragilidade dos vínculos familiares, dificuldades de acesso às políticas públicas e exclusão social. Os dados mostram que muitos já estiveram inseridos no mercado formal, o que reforça a importância de políticas voltadas não apenas à assistência, mas também à reinserção produtiva e à garantia do direito à moradia e à cidadania.
Um ponto de atenção para a população de Rua é sobre os vínculos familiares, pois uma parcela relevante mantém algum contato com parentes, embora muitos relatem contato raro ou inexistente, revelando fragilidade das redes de apoio. Os dados apresentados até o momento, reforçam que a população em situação de rua em Sergipe enfrenta um problema multidimensional, em que fatores econômicos se combinam com questões sociais, familiares e de saúde mental.
É preciso evitar que a população em situação de rua em Sergipe cresça, pois a tendência é de crescimento. Geograficamente, há forte concentração em poucos municípios (especialmente Aracaju e região metropolitana).
O perfil predominante é de homens adultos em idade economicamente ativa e a situação decorre de uma combinação de fatores econômicos, familiares, habitacionais e de saúde. Diante disso, o desafio exige políticas integradas envolvendo assistência social, saúde, habitação, qualificação profissional, geração de renda e segurança alimentar.
