ARACAJU/SE, 17 de julho de 2024 , 14:20:51

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Vendas de motos 50cc caem após anúncio da obrigatoriedade de emplacamento

Reportagem especial
Joângelo Custódio, da redação AJN1

 

Os ciclomotores de 50 cilindradas (cc) se multiplicaram na última década e tomaram as ruas da capital e do interior do Estado de forma tão expressiva que, já são apontadas, por alguns especialistas, como o transporte que mais mata ou deixa sequelas em seus condutores, ao lado, é claro, das motocicletas de cc superiores.

 

Para pilotá-las, bastava o condutor dirigir-se a uma concessionária, efetuar o pagamento e já sair guiando, sem necessidade da Carteira Nacional de Habilitação (CNH), por causa da baixa potência, e muito menos preocupar-se em licenciar ou emplacar no Departamento Estadual de Trânsito (Detran/SE).

 

Essas facilidades ocasionaram a multiplicação das “cinquentinhas”, sob a batuta da famosa marca chinesa Shineray, usadas por trabalhadores que fogem do sistema de transportes e por aqueles que usam apenas por capricho, contribuindo para o caos no trânsito aracajuano. As regalias, entretanto, têm dia e hora para acabar.

 

Isso porque o Detran anunciou uma série de medidas no último dia 31 de agosto, que obriga, terminantemente, a partir do dia 1º de janeiro de 2016, os condutores a emplacarem e licenciarem seus ciclomotores, além de possuírem CNH nas categorias A ou ACC para poder conduzi-las.

 

Caso contrário, os agentes da Secretaria Municipal de Trânsito (SMTT) poderão apreender e autuar quem estiver em situação irregular. A medida segue cumprimento à Lei Federal Nº 13.154 de 30 de julho de 2015.

 

A lei também exige o Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo (CRLV). O condutor, inclusive, deve pagar pelo primeiro emplacamento cerca R$ 77,85. Já o licenciamento anual será de R$51,06 e o seguro DPVAT R$292,01.

 

Redução drástica nas vendas

 

O alinhamento dos ciclomotores de 50cc às rédeas da lei vem preocupando os donos de concessionárias que vendem esse tipo de veículo. E os motivos para tanta apoquentação são óbvios: redução vertiginosa das vendas.

 

Junior Matos é gerente de uma concessionária na capital e disse que, por um lado, a adequação dos condutores às normas de trânsito é louvável, mas no sentido econômico, vai penalizar as empresas que vendem e até mesmo os condutores, que em sua maioria, são pessoas humildes que utilizam as “cinquentinhas” para ajudar no deslocamento de casa para o trabalho.  “Já estamos sofrendo com a diminuição das vendas. Estou preocupado. Nossa loja só vende esse tipo de produto, e confesso, vamos fechar outubro com 40% a menos com relação ao mesmo período do ano passado”, disse ele, com ar de insatisfação.

 

Gildo Santana é outro gerente de loja especializada em ciclomotores de 50cc. Mais eloquente ainda, ele disse que as vendas despencaram cerca de 60% após o anúncio do Detran. “Em outubro passado, vendemos cerca de 160 motos. Esse mês, foram 25. A população ficou com medo de comprar. Este final de ano vamos amargar as piores vendas da história”, profetizou ele.

 

Queixas

 

João Paulo, de 26 anos, trabalha no comércio de Aracaju. Ele conta que comprou um ciclomotor há seis meses e já se arrependeu. “Se eu soubesse que iria precisar tirar a CNH e pagar por emplacamento e licenciamento, eu não gastaria minhas economias. Essa determinação do Detran é injusta e penaliza os mais pobres”, opina ele, já arrependido da aquisição.

 

Gabriel da Silva, 30, é operário da construção civil e também comunga da opinião de João Paulo. Para ele, o pobre é quem vai “pagar o pato”. “Sou contra. Tanta gente depende da cinquentinha para trabalhar… E agora? Eu não tenho condições de pagar pela CNH, muito menos emplacar a moto. Falta sensibilidade ao governo”.

 

Durante o anúnio das novas medidas, o presidente do Detran, Edgard Motta, disse que as mudanças são essenciais e os condutores precisam correr para deixar a documentação em dia. “Estamos reforçando a necessidade de portar esse documento, porque muitos condutores achavam que não havia a obrigatoriedade, porque transitavam com um veículo que era dispensável de registro. Quem já tiver o veículo e não tiver a habilitação deverá providenciar o quanto antes. Deverá procurar uma autoescola e realizar as aulas teóricas e práticas, realizar os exames, só então poderá ter a sua habilitação”.

 

Motocicletas x acidentes

 

Sergipe é o estado com maior média de motociclistas mortos ou com sequelas por causa de acidentes de trânsito. São mais de 17,6 óbitos para cada 10 mil motos, número quase três vezes maior que a média do Brasil (6,6).

 

Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, os acidentes e mortes no trânsito envolvendo motocicletas e motonetas ultrapassam o número de mortes pelo câncer e estão sendo considerados como a doença do século, matando mais que agressões por armas brancas e armas de fogo.

 

De janeiro a junho de 2015, foram registradas no hospital João Alves 3.495 vítimas de acidentes motociclísticos. Cerca de 40% dos traumatismos cranianos no hospital são em decorrência dos acidentes de moto.

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