A política de juros restritiva, com a Taxa Selic em 15%, maior nível em quase 20 anos, desacelerou o crescimento econômico de 2025 para 2,3%, ante os 3,4% de 2024, e a escalada bélica no Oriente Médio poderá aumentar ainda mais a restrição. Cotações do petróleo em alta poderão voltar a pressionar a inflação e diminuir o alívio esperado nos juros para este ano.
O Banco Central (BC) já tinha avisado na reunião de janeiro do Comitê de Política Monetária (Copom) que um ciclo de baixa na Selic começará no próximo encontro, neste mês.
As projeções de economistas captadas pelo Boletim Focus, do BC, apontam para uma Selic de 12% ao ano em dezembro. Apesar da queda de 3 pontos percentuais, o alívio para o crescimento econômico já ficaria mesmo para a virada de 2026 para 2027 — já que as estimativas são de alta de apenas 1,82% no Produto Interno Bruto (PIB) deste ano.
A dúvida agora é se a nova guerra mudará ou não o plano de voo do BC. A primeira reação aos ataques dos EUA e de Israel ao Irã, que reagiu atacando países vizinhos no Oriente Médio, foi disparar as cotações do petróleo. Ainda há incerteza sobre até onde a alta poderá ir, já que esses preços vinham em tendência de queda, mas um barril mais caro pressiona a inflação.
“De um lado, somos um país exportador de petróleo, e isso tem um reflexo positivo via receita exportação, mas tem outro lado, que são preços de combustíveis e preços de insumos na veia. Estamos vendo altas em fertilizantes e vários insumos da cadeia do plástico”, disse a economista Alessandra Ribeiro, diretora de Macroeconomia da Tendências.
Esses aumentos têm “efeito mais direto na inflação”, completou a economista.
“E o BC, que já está supercauteloso nesse processo de redução dos juros, pode ser um pouco mais lento. Sendo mais lento, a política monetária pesa ainda mais na atividade econômica e tem um risco sim de maior desaceleração (em 2026)”.
A Tendências projeta um crescimento econômico de apenas 1,6% neste ano, já considerando os efeitos restritivos dos juros altos, mesmo com o ciclo de queda. Segundo Alessandra, num primeiro momento, a equipe da consultoria está mantendo a estimativa, mesmo diante da escalada bélica.
Para Claudio Considera, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), um adiamento no início do ciclo de baixa da Selic é praticamente certo.
Isso porque a guerra no Oriente Médio traz um grande risco para a inflação no Brasil em 2026, com o aumento do preço do petróleo, que pode resultar no encarecimento de diversos produtos e serviços.
“Embora a taxa de juros alta atrapalhe muita coisa, principalmente na venda de produtos duráveis, estamos vivendo um momento de muita incerteza, de muito risco dessa guerra se espalhar mais ainda pelo Oriente Médio. É uma situação muito arriscada para investimentos. Se a taxa de juros atrapalha o investimento, a situação de risco e de incerteza atrapalha ainda mais”, disse Considera.
Exportações de petróleo são ‘amortecedor’
O banco Bradesco sustentou, em relatório divulgado mais cedo nesta terça-feira (3), que uma elevação nas cotações de petróleo poderia ter um efeito positivo sobre a economia brasileira, quando se pesam prós e contras.
Para Alessandra, da Tendências, o lado positivo de o Brasil ter se tornado exportador de petróleo serve mais como um “amortecedor” de novas crises do que de impulso para a economia.
Em outros momentos da história marcados por saltos nas cotações da matéria-prima, o país já esteve mais exposto — dada a importância do petróleo nas economias, cotações em alta provocam rombos na balança comercial, na conta corrente e costumam fazer disparar a taxa de câmbio nos países importadores.
Fonte: O GLOBO







