Da redação CS, Felipe Maceió
As manchas de óleo que atingem todo o litoral sergipano, e que têm causado inúmeros prejuízos ao meio ambiente, tem sido agora a preocupação de comerciantes de bares e restaurantes que atuam nas praias de todo o estado. De acordo com alguns empresários, o incidente tem afetado o movimento nos estabelecimentos que sentem o impacto do que já é considerada a maior tragédia ambiental com petróleo da história do país.
O Brasil tem acompanhado ao longo das últimas semanas o avanço das misteriosas manchas de óleo, já identificadas por laboratórios especializados como petróleo cru de origem não-brasileira, e as consequências irreparáveis aos biomas que são afetados por elas. Os danos são catastróficos, apontam especialistas ligados ao meio ambiente.
Além de comprometer a cadeia de um ecossistema complexo como a do litoral brasileiro, os efeitos negativos do óleo começam a dar sinal agora na economia local. Na Barra dos Coqueiros, por exemplo, um dos locais afetados pelas manchas, donos de bares e restaurantes localizados na faixa de areia na Praia da Costa têm reclamado da queda no movimento, fato que é traduzido em números pelo secretário de Turismo, Indústria e Comércio da Barra dos Coqueiros, Adailton Martins.
“Somente nesta região a gente já percebeu a redução de cerca de 40% no movimento desde o aparecimento das manchas de óleo na Barra dos Coqueiros. Os empresários de bares e restaurantes estão preocupados, e não é para menos. A queda tem sido gradativa a partir do surgimento de novas manchas, fato que ninguém sabe ao certo quando isso irá cessar, e esse tem sido o maior receio dos comerciantes”, explicou o secretário.
O gestor revelou ainda que o setor hoteleiro no município também tem sido impactado pelo problema.
“Temos registrado cancelamentos nas hospedagens, principalmente em um dos principais hotéis da região que tem como maior atrativo o fato de ser o único hotel ‘pé na areia’ do estado. Mas como o turista vai se sentir seguro em colocar o pé na areia em um litoral onde a faixa de areia está suja com esse petróleo?”, questiona Adailton Martins, que garantiu que há uma equipe de engenheiros ambientais e biólogos acompanhando diariamente a situação na região.
Aracaju
Ao contrário da apreensão dos empresários do município vizinho, na capital sergipana a situação é bem diferente. Apesar das praias do litoral aracajuano também terem sido afetadas pelas manchas de óleo, o problema parece não comprometer o trade turístico local.
De acordo com a vice-presidente da Associação Brasileira de Indústria e Hotéis em Sergipe, Daniela Mesquita, o fato não tem afetado a procura de turistas por reservas em hotéis localizados, principalmente, na Orla de Atalaia, um dos principais cartões postais de Aracaju que também foi atingida pelas manchas de óleo.
“A procura por reservas neste feriado do dia 12 continua a mesma, dentro da expectativa do setor para o período e sem registro de cancelamentos. Na verdade o que percebemos é que até o presente momento ainda temos grande procura por hospedagem”, afirma Daniela Mesquita, que também é diretora do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do Estado de Sergipe.
Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), referentes a agosto deste ano, mostram que o turismo brasileiro teve uma receita R$ 18,6 bilhões, descontada a inflação. O Nordeste respondeu por cerca de 13% desse volume, com R$ 2,4 bilhões, ficando atrás do Sudeste, que ocupou o topo da lista com R$ 11,5 bilhões, seguido pelo Sul, com R$ 2,9 bilhões. Essa conta inclui o que é movimentado pelas empresas que prestam serviços ligados a atividades turísticas, como o transporte de passageiros, cultura e lazer e restaurante.
Quanto à demanda dos donos de bares e restaurantes em Aracaju, Daniela afirma que o setor segue sem nenhum impacto econômico.
“Estamos acompanhando a atuação do Governo do Estado quanto às iniciativas para resolver a questão das manchas nas praias do nosso litoral e recebendo informações constantes da Setur [Secretaria de Estado do Turismo]. Até agora não recebemos nenhuma queixa por parte dos proprietários de bares e restaurantes quanto ao impacto desse problema no fluxo de clientes”, pontua.
Até agora, os reflexos podem ter sido pequenos na economia porque o problema, identificado no dia 24 de setembro em Sergipe, dava sinais no início que seria algo pontual, que não teria grandes proporções. Mas, agora, o problema atinge todos os estados do Nordeste, comprometendo, em maior ou menor proporção, 2.100 quilômetros de praia, de um total de 7.367 quilômetros de litoral – ou seja, aproximadamente 29%.
Banho
Por meio de nota, a Setur informou que a faixa litorânea de Sergipe possui alguns pontos de presença de óleo, mas que a maior parte está livre e liberada para banho. O texto afirma ainda que os teste de balneabilidade da água estão dando liberadas para banho, mesmo onde encontra-se o óleo na areia, o que podem estar contribuindo para a presença de frequentadores nesses locais.
Porém, apesar da ‘liberação’ para banho, banhistas têm reclamado da presença de óleo nas principais e mais movimentadas praias de Aracaju, como a da Aruana. De acordo com Alberto Júnior, que gerencia um dos bares no local, frequentadores têm se queixado com frequência da poluição da água.
“Muitos vão tomar banho de mar e voltam reclamando que pisaram em uma mancha de óleo, ou que perceberam que saíram do mar com marcas pretas pelo corpo. A praia está suja sim, e apesar dos técnicos dizerem que elas estão próprias para o banho, muita gente prefere ficar sentada só olhando o mar mesmo. Nosso receio é que isso acabe contribuindo para a queda do movimento de clientes”, afirma.
Impacto
Ainda de acordo com a Setur, o Governo do Estado não tem registrado queda adrupta do movimento turístico em Sergipe. A informação coincide com o que foi divulgado pelas três principais companhias aéreas que operam no estado: Gol, Latam e Azul. A Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav) também não registrou até agora consultas de seus associados nos estados afetados quanto a possíveis medidas que podem ser tomadas para minimizar os efeitos que venham a acontecer nos negócios.
Mas para Antonio Everton, da divisão de economia da CNC, o impacto será inevitável.
“O acidente vai afetar a economia local, especial o setor de serviços, principalmente aqueles negócios que dependem ou tem relação direta com o ambiente marítimo”, adverte.
De acordo com o economista da CNC, a velocidade da recuperação da economia nas áreas afetadas pelo acidente com o óleo cru derramado no mar vai depender da capacidade de o poder público conter o problema. Quando mais rápido, avalia, menor será o impacto.
“Se o problema se estender e a dificuldade de remoção das manchas de óleo persistir, os problemas serão maiores”, analisa Everton.







