Nunca a velha denominação cão de companhia se mostrou tão apropriada como
na pandemia. Com o afastamento de parentes, amigos e colegas de trabalho
iniciado nos meses mais duros do isolamento social, muita gente que mora
sozinha passou a conviver única e exclusivamente com o próprio cachorro, tirando
eventuais e insossos encontros virtuais e as breves interações com atendentes de
supermercado e companhia.
Para inúmeras pessoas, foi o suficiente para atravessar os períodos mais críticos da
eterna quarentena sem sucumbir a estados depressivos, dos quais até quem divide
o teto com mais gente se queixou – o cerco à convivência explica inúmeros casos.
Por outro lado, muita gente virou dona de pet em meio à pandemia de olho no
conhecido conforto psicológico que cães e gatos propiciam – há quem não veja
muita diferença entre a companhia desses últimos e a solidão, mas essa é uma
outra discussão.
O aquecimento do mercado pet é fruto disso tudo. “O isolamento social despertou
uma necessidade generalizada de dar e receber afeto”, acredita Paulo Nassar,
cofundador e CEO da Cobasi, tentando explicar o fenômeno. “De maneira geral,
quem já tinha animais passou a dar preferência a rações de melhor qualidade e a
tratá-los com produtos veterinários que não eram usados. Muita gente, por
exemplo, passou a aplicar com regularidade em seus pets o spray antipulga, antes
relegado. Já a adoção de animais na pandemia motivou a formação de inúmeros
enxovais, digamos assim, com tudo que eles precisam para serem bem acolhidos.”
A receita bruta da rede cresceu 22% em 2020 e para este ano prevê-se um salto de
36%. O faturamento do ano passado foi de R$ 1,5 bilhão e a previsão para 2021 é de
R$ 2,1 bilhões. A antiga estratégia de expansão da companhia saiu incólume. Hoje
com 123 lojas, todas próprias, ela inaugurou 18 no ano anterior e 12 neste, para
quando estão prometidas mais 28 unidades. A meta é terminar o ano marcando
presença em 50 cidades e 16 estados, 5 a mais do que hoje em dia.
Um aporte de R$ 300 milhões, feito em abril deste ano pela plataforma de gestão de
investimentos Kinea, uma empresa do grupo Itaú Unibanco, turbina a expansão.
“Crescemos até agora com caixa próprio, mas podíamos abrir mais 15 lojas dessa
forma e queríamos 40”, diz Nassar, explicando a parceria com a Kinea. A plataforma
ganhou um assento no conselho de administração da Cobasi e terá voz nas decisões
estratégicas da companhia, incluindo as relativas a eventuais aquisições e fusões.
A inclusão dos pets shops na lista de atividades essenciais ajudou a empresa a se
manter em alta. “O primeiro mês de pandemia foi difícil para nós, pois a população
estava com muito medo de circular”, lembra Nassar. “Mas a partir do segundo mês
os clientes foram voltando.” Iniciada em 2012 e acelerada a partir de 2018, a
digitalização favoreceu a manutenção das vendas para consumidores ressabiados
em frequentar lojas físicas. As entregas podem ser feitas pela própria Cobasi, em até
quatro horas, ou por aplicativos como iFood e Uber Eats, aos quais ela se aliou na
pandemia
Outra novidade motivada pelo surto viral em curso é a possibilidade de comprar no
site com retirada em seguida na loja mais próxima, sem descer do carro – os
funcionários da rede se encarregam de acondicionar os produtos no porta-malas.
“Essa opção bombou”, orgulha-se Nassar. “Confirmado o pagamento, a retirada
pode ser feita em até 45 minutos, sendo que as farmácias estabelecem uma hora
como prazo para o mesmo serviço.”
Tudo somado, os meios digitais agora respondem por 25% das vendas da
companhia. Antes da pandemia correspondiam a 13%. “O futuro das redes de
varejo está atrelado à omnicanalidade”, completa o empresário, citando a aposta
tanto em canais on-line como off-line. “A digitalização do comércio não vai matar as
lojas físicas, pelo menos aquelas que promovem experiências como as da Cobasi.”
Ele lembra que as unidades da rede também vendem plantas e flores, itens cuja
procura também aumentou na pandemia. “Não seguimos apenas o conceito de pet
shop, criamos um ambiente que as pessoas gostam de frequentar em família”,
acrescenta.
Registre-se que o e-commerce da Cobasi também faz as vezes de marketplace para
fabricantes de produtos que não pertencem ao mundo pet, como guarda-sóis,
cadeiras de praia e ombrelones. Em maio deste ano, a companhia abocanhou 100%
da plataforma Pet Anjo, que intermedeia a contratação de profissionais como pet
sitter e serviços como banho e tosa para animais em casa. Até o fim do ano, entrará
no ar um marketplace da Cobasi cuja razão de ser é conectar ONGs protetoras de
pets a interessados em adotar bichos abandonados.
Uma pesquisa do Nubank apontou que o gasto de clientes do banco com animais
de estimação cresceu 19,1% no ano passado. Concluiu, também, que a parcela dos
que adquirem produtos para pets aumentou 73,1%. Constatou, ainda, que a
quantidade de clientes que prefere arrematar itens do gênero por meio de canais
digitais cresceu 80%. O Nordeste liderou a transformação. Na região, o número de usuários que investem em bichos cresceu 119,1%. O número de compras dos
nordestinos no segmento aumentou 37%, o valor médio delas subiu 16,4% e o valor
total ficou 59,5% maior.
Segundo a empresa de pesquisas de mercado Euromonitor International, o setor
pet brasileiro faturou 17,8% a mais em 2020 do que no ano anterior. É a maior taxa
de crescimento entre os dez países que mais embolsam com o segmento – o Brasil
ocupa o sétimo lugar no ranking, do qual foi o terceiro colocado em 2017, atrás dos
Estados Unidos e da China. O levantamento leva em conta o volume de vendas em
dólares, logo a desvalorização do real iniciada em 2020 impactou a nossa posição.
Alemanha, França e Japão, países cujas moedas ganharam força em relação ao
dólar, registraram maior faturamento com o setor que o Brasil.
Pelas contas do Instituto Pet, o segmento no país faturou R$ 40,8 bilhões em 2020.
Pet shops de pequeno e médio porte, aqueles com no máximo 19 funcionários,
foram responsáveis por 48,4% desse montante (R$ 19,7 bilhões). Clínicas e hospitais
veterinários responderam por 17,9% (R$ 7,3 bilhões). Demais representantes do
setor, a exemplo de megarredes como Cobasi e Petz, contribuíram com os 33,7%
restantes (R$ 13,8 bilhões). O faturamento das lojas on-line do setor em 2020 foi de
R$ 1,6 bilhão, e até pet shops acanhados resolveram investir em canais digitais
como o Instagram para sobreviver na pandemia.
A receita bruta de 2020 da Petz, maior rival da Cobasi, foi de R$ 1,7 bilhão, o que
representa um crescimento de 46,6% em relação a 2019. Listada na bolsa desde
setembro do ano passado – e por isso impedida de divulgar projeções financeiras -,
ela reportou um faturamento de R$ 598 milhões no segundo trimestre de 2021, um
desempenho 57,5% maior que o do mesmo ciclo do ano anterior. Outro dado que
não poderia passar sem registro é o do crescimento das vendas digitais em 2020, de
341,8%. A Petz promete entrega em algumas regiões em até uma hora.
Das 148 lojas da rede, espalhadas por 18 unidades da federação, 28 foram
inauguradas no ano passado e 12 em 2021 – todas são próprias e somam 150 mil
m2 de área de vendas. “Nos consolidamos como a maior rede de pet shops do
Brasil não só em faturamento, mas também em número de unidades e abrangência
geográfica”, vangloria-se Sérgio Zimerman, CEO e fundador da Petz, cujo IPO
movimentou R$ 3 bilhões. “Continuamos confiantes em relação à sequência de investimentos em novas lojas e focados no processo de diversificação geográfica da
rede.”
Quando veio a pandemia, a empresa estava apta a enfrentá-la de cabeça erguida,
diz ele. “Nossa operação estava bem preparada para o impacto do isolamento
social”, afirma. “Fomos capazes de provar nossa agilidade, adaptabilidade e
resiliência em observar o aumento abrupto de demanda e capturar a transformação
de hábitos de consumo.”
Ele acredita que o setor continuará em plena ascensão, apesar da gradual e
esperada concorrência com outras atividades, todas praticamente já a salvo de
medidas de restrição.
Zimerman também não fareja riscos ao futuro das compras presenciais em pet
shops. “Embora a pandemia tenha impulsionado a migração do varejo físico para os
canais digitais, as lojas ainda suprem necessidades como serviços de estética,
consultas veterinárias, imunização e exames, por exemplo”, argumenta,
acrescentando que a Petz dispõe de 120 centros veterinários. No segundo trimestre
deste ano, as vendas digitais representaram 30% da receita bruta da companhia, um
recorde que corresponde a R$ 181,2 milhões. O aplicativo da empresa responde por
60% dessa cifra.
Em agosto, para ampliar a presença no universo on-line, a rede adquiriu o Zee.Dog
por R$ 715 milhões. Trata-se de uma plataforma de produtos para cães com
presença em mais de 45 países – a operação internacional responde por cerca de
30% do faturamento. “A transação expande as perspectivas globais de novos
negócios e o potencial de parcerias estratégicas em outros continentes, ampliando
nossos horizontes e trazendo novas avenidas de crescimento por meio da expertise
em gestão de marca e lifestyle, desenvolvimento de produtos e conteúdos
exclusivos”, afirma Zimerman.
Em junho, a Petz arrematou, por um valor não divulgado, a plataforma Cansei de Ser
Gato, especializada em produtos e conteúdos para os bichanos. “Temos o objetivo
de criar um ecossistema completo, confiável e integrado de soluções para atender
com excelência as necessidades dos pets e de seus tutores”, diz o CEO da rede A empresa também credita boa parte do sucesso atual ao aumento do número de
“tutores”, como os donos de bichos são chamados por algumas vozes desse meio,
que não admitem a ideia de que animais possam pertencer a alguém. “O crescente
número de adoções de pets é um fenômeno observado em vários países”, registra
Zimerman.
Outra consequência da pandemia é o aumento do que define como “humanização
dos pets”, que dispensa explicações. “A maior permanência dos tutores em casa
potencializou a interação, a proximidade e os cuidados com a saúde dos pets”,
afirma o executivo. “A relação proporcionou, mais do que nunca, momentos de
alegria, afeto e cumplicidade.”
Estima-se que a população pet global tenha aumentado 1,7% no ano passado. Os
gatos lideraram o crescimento, com um salto de 3,1%. Depois vieram os cães, com
2,1%; répteis e pequenos mamíferos, com 1,7%; peixes ornamentais, com 1%; e aves
ornamentais, com 0,5%.
Para o Instituto Pet, o sentimento de solidão decorrente da pandemia explica o
fenômeno. “É importante diferenciar conceitualmente o isolamento social e a
solidão”, ressalta a entidade. “O primeiro refere-se ao estado objetivo de ter poucas
relações sociais ou contato social infrequente com outras pessoas, enquanto a
solidão corresponde a um sentimento subjetivo de estar isolado.” Os animais
dariam conta, portanto, de resolver só o segundo problema.
Psicanalistas ouvidos pelo Valor enxergam com bons olhos a busca pelos animais
para aplacar a falta de convívio com outras pessoas. Alertam, porém, para possíveis
desdobramentos patológicos. “O ser humano precisa de conexões psicoafetivas,
que os bichos de estimação podem ajudar a suprir”, explica a psicanalista Glaucia
Araújo, coordenadora geral do IBCP (Instituto Brasileiro de Ciências e Psicanálise).
“Ajudam a manter vivo o necessário contato com o mundo, interagindo com a
energia que investimos neles.”
Para quem se encontra em estados depressivos, acrescenta, a convivência com pets
pode se mostrar curativa. “A interação com animais desperta o cuidado com algo, o
que uma pessoa depressiva não está fazendo com ela mesma. Logo, pode ajudá-la a
sair desse estado”, afirma. “Mas desde que seja uma relação saudável.”
O desdobramento patológico mais comum é o que leva alguns donos de pets a abrir
mão do convívio com outros seres humanos – você já deve ter ouvido falar de
alguém que se contenta em viver recluso, na única e exclusiva companhia de gatos
ou cachorros. “Mas isso é tratável”, tranquiliza a coordenadora geral do IBCP.
Ela convida os donos de pet a refletir sobre a maneira como estão tratando de seus
bichos. “Nós nos identificamos com os animais e cuidamos deles exatamente da
forma como gostaríamos de ser tratados”, afirma. “Quem recolhe um cachorro
abandonado na rua faz isso porque se identificou com aquela situação de
abandono. Não significa, necessariamente, que vivenciou uma situação do tipo, mas
que já cultivou esse sentimento.”
Até aí, nenhum problema. “O perigo é darmos para os bichos só aquilo que
gostaríamos de receber e nos esquecermos das reais necessidades deles”, alerta
Araújo. Nenhum cachorro ou gato precisa de festa de aniversário surpresa, deve
circular só com as unhas pintadas ou usar laço na cabeça, emenda ela. “É mais
saudável percebermos quais são os nossos vazios que estamos tentando
compensar por meio dos pets”, recomenda.
Quem viu similaridade na relação entre pais e filhos pequenos não tem um
parafuso a menos. “Não são raras as crianças que recebem não aquilo de que
necessitam para se desenvolver, mas o que seus pais gostariam de ter recebido na
infância deles, por exemplo”, diz a psicanalista.
Professor titular de psicanálise e psicopatologia do Instituto de Psicologia da USP,
Christian Dunker escreveu sobre o assunto em “Reinvenção da intimidade – políticas
do sofrimento cotidiano”, publicado pela editora Ubu. “Animais de estimação são
como filhos, mas filhos que não crescem nem nos abandonam”, diz um trecho do
livro. “Retribuem nosso amor com sua presença e solicitude, sem conflitos ou
oscilações na qualidade afetiva, oferecendo suporte simbólico para experiências de
reconhecimento, metafóricas e metonímicas, centrais na formação e na
reconstrução de nossa capacidade de amar.”
Diz o autor em outra parte da obra: “Eles podem ser parte de nossa recuperação
psíquica […] mas também se prestam a suportar, silenciosos, nossas formas mais
patológicas de amar, como os acumuladores de cães e gatos, os que submetem animais a uma vida ‘demasiadamente humana’ e, no limite, os estupradores crônicos de animais. Está em jogo aqui a sutil diferença entre ‘ser como’ um filho, amigo ou amante e ser o ‘próprio’ bebê, companheiro e objeto de satisfação
erótica.”
“O risco é usarmos os pets para satisfazer nosso narcisismo”, disse Dunker ao Valor.
“Vestimos eles como humanos e damos a eles a nossa comida, mas achamos
inaceitáveis quando latem ou, no caso de gatos, arranham o sofá, como se não
fossem atitudes absolutamente normais. Conversamos com eles e nos felicitamos
com a interação que oferecem, mas ignoramos o fato de que só um lado está
realmente falando.”
Se você não admite deixar seu pet com nenhuma pessoa ou em um hotel para
animais pois julga que ninguém é capaz de cuidar dele direito, é sinal de que a
relação ganhou contornos patológicos, alerta Dunker. “Não é difícil perceber quando
a dedicação aos bichos cruzou a fronteira do saudável”, resume. O risco, no final das
contas, é o de nos tornarmos más companhias para quem não nos abandona nem
numa pandemia.
Por Daniel Salles — Para o Valor, de São Paulo







