ARACAJU/SE, 21 de maio de 2026 , 11:04:41

Pesquisa revela como entregadores por aplicativo se mobilizam nas redes sociais

 

A “uberização do trabalho”, modelo desenvolvido a partir dos aplicativos digitais, vem modificando não apenas as relações de trabalho em si, mas também a forma de mobilização e organização dos trabalhadores vinculados a estas plataformas, como motoboys, entregadores e motoristas. Esta é a principal conclusão da pesquisa “Novas formas de resistência e organização coletiva no trabalho por plataformas digitais: redes sociais fomentando solidariedade de classe”, realizada pela advogada sergipana Debora Leite dos Santos. O estudo se transformou em uma dissertação de mestrado aprovada recentemente em um programa de pós-graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP).

A autora, que fez sua graduação em Direito na Universidade Tiradentes (Unit), construiu seu estudo a partir da coleta de mais de 134 mil mensagens em oito grupos públicos de entregadores no Telegram, publicadas entre abril de 2023 e setembro de 2025. O período inclui o chamado “Breque dos Apps”, uma paralisação nacional que aconteceu entre 31 de março e 1º de abril do ano passado e reuniu milhares de motoboys em mais de 100 cidades do Brasil, exigindo melhores condições de trabalho. Após um recorte analítico, ela selecionou 4.626 publicações, identificadas com base em 11 palavras-chave relacionadas à mobilização coletiva e à realidade da categoria. E estas postagens passaram por um processo de Análise Crítica do Discurso (ACD).

De acordo com Débora, os resultados demonstram que as redes sociais e os aplicativos de mensagens são ferramentas essenciais para os entregadores, servindo como espaços de comunicação, mobilização, denúncia e apoio mútuo, fortalecendo a identidade da categoria. Elas apontaram ainda aspectos como a coexistência de discursos contraditórios (ideário empreendedor x solidariedade de classe); rejeição dos sindicatos tradicionais e do modelo atual da CLT (considerado burocrático e ineficaz); estratégias de manipulação (como a astroturfing) utilizadas pelas empresas contra movimentos da categoria, precarização de trabalhadores negros e pertiféricos; e o cooperativismo de plataforma, no qual eles recuperam o controle sobre os meios de produção digitais.

“Embora existam vários achados, todos convergem para uma conclusão central: apesar da fragmentação e do isolamento impostos pelos algoritmos, os aplicativos de mensagens (como o Telegram) e as redes sociais, funcionam como catalisadores fundamentais para a reconfiguração da ação coletiva e da resistência”, argumenta Débora, pontuando ainda que o tema da dissertação está no centro das transformações contemporâneas do mundo do trabalho e das desigualdades sociais. “O avanço das plataformas digitais vem modificando profundamente as relações de trabalho, as formas de organização coletiva e as condições de vida de milhares de trabalhadores. Trata-se de uma agenda urgente e socialmente relevante, com impactos diretos sobre direitos, renda e proteção social”, completa.

Um estudo anterior

O tema da dissertação de Débora foi uma continuidade das pesquisas que ela fez ao longo do curso de Direito na Unit, onde estudou entre 2017 e 2021. A principal delas foi o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre “Organização coletiva como instrumento de emancipação: uma análise acerca do fenômeno da uberização”, com orientação do professor Ricardo das Mercês Carneiro. Segundo ela, a pesquisa analisou como esse modelo de trabalho, baseado na flexibilidade e na ausência de vínculos formais, produz desafios inéditos para a representação coletiva e para a garantia de direitos trabalhistas.

“Ao longo da pesquisa, discuti as possibilidades de mobilização e organização dos trabalhadores por aplicativos, observando que, mesmo diante de um contexto de fragmentação e precarização, surgem novas formas de articulação coletiva e reivindicação por direitos. A principal conclusão do trabalho foi a de que a organização coletiva, especialmente por meio da sindicalização e do fortalecimento de entidades representativas, permanece um instrumento fundamental para assegurar proteção social, ampliar a capacidade de negociação desses trabalhadores e enfrentar o processo de dessindicalização que enfraquece as lutas coletivas contemporâneas, bem como a precarização imposta pelo modelo de trabalho das plataformas digitais”, diz a autora.

O interesse pelo tema surgiu da percepção de que as relações de trabalho no Brasil estão sendo profundamente transformadas pelo trabalho por aplicativos, sem que isso fosse plenamente compreendido pelo Direito. “Além disso, me chamou atenção como esses trabalhadores, mesmo em condições adversas, constroem formas próprias de participação e mobilização. Na pós-graduação, pude ampliar essa investigação, desenvolver uma metodologia mais consistente e refinar as categorias analíticas utilizadas na pesquisa. De certa forma, o TCC foi essencial para consolidar meu interesse pelo tema e orientar os caminhos da minha trajetória acadêmica”, afirmou a pesquisadora.

A dissertação de mestrado fez a ex-aluna da Unit ser apresentada recentemente como “Bolsista em Destaque” pelos canais de comunicação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O órgão destacou que, “em sua tese, a pesquisadora investiga como entregadores de aplicativos se organizam coletivamente em um contexto marcado pela precarização e pela gestão algorítmica do trabalho”. Ao longo do mestrado, Débora foi bolsista na Cátedra Oscar Sala, vinculada ao Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA/USP) e dedicada aos estudos sobre impactos sociais e regulatórios da internet e das tecnologias digitais de informação e comunicação. Além de investigar temas na área de governança de agentes de inteligência artificial, ela foi monitora da disciplina: “Economia, Cultura e Poder na Internet”, ministrada para alunos de pós-graduação da própria USP.

Fonte: Asscom Unit

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