ARACAJU/SE, 13 de maio de 2026 , 11:16:43

O cuidado começa antes do colo da mãe

 

Diante da desinformação e das dúvidas que chegam aos consultórios, a infectopediatra Maria Isabel de Moraes-Pinto reúne evidências sobre como a vacinação protege a infância, reduz internações e gera benefícios ao longo da vida.
*Por Maria Isabel de Moraes-Pinto, infectopediatra e coordenadora de Vacinas da Dasa*
Escrevo este artigo a partir de uma realidade que se repete no consultório. Vejo mães cuidadosas, atentas e profundamente comprometidas com a saúde dos filhos hesitarem diante da decisão de vacinar. Não por falta de amor ou de responsabilidade, mas porque chegam carregadas de dúvidas alimentadas por boatos, vídeos alarmistas e informações falsas que circulam nas redes sociais.
Não é raro, por exemplo, que mães relatem ter adiado uma vacina depois de assistir a um vídeo que questiona sua segurança — mesmo sem qualquer base científica.
Esse tipo de situação, que há alguns anos seria pontual, hoje aparece com frequência no dia a dia clínico.
Nos últimos anos, vacinas passaram a disputar espaço com opiniões sem base científica apresentadas como se tivessem o mesmo peso da medicina baseada em evidências. Quando o assunto envolve crianças, é natural que o medo encontre terreno fértil. Nenhuma mãe quer errar quando se trata de proteger um filho.
Por isso, reuni aqui alguns dados de pesquisas nacionais e internacionais que ajudam a dimensionar esse cenário — e mostram que, apesar das dúvidas, a confiança na vacinação ainda é predominante. Ainda hoje, em diversas famílias, são as mães que concentram grande parte das decisões relacionadas à saúde infantil: organizam consultas, acompanham sintomas e mantêm o calendário vacinal em dia.
Dados recentes de uma plataforma de saúde digital reforçam esse comportamento: as mulheres representam a maioria dos usuários e seguem como principais gestoras da saúde familiar, sendo responsáveis por agendar consultas e acompanhar o cuidado de filhos e familiares. Ao mesmo tempo, a maioria dos pacientes apontam os médicos como sua principal fonte de confiança para decisões em saúde, evidenciando o peso da orientação profissional nesse processo.
Em estudo transversal publicado em 2024 pelos pesquisadores Berna Turhan Aksoku, Cenk Aypak e Deniz Güven, com 320 mães de crianças menores de cinco anos, 73,7% afirmaram receber informações sobre vacinação diretamente de médicos, indicando que a orientação profissional segue como principal fonte de confiança no tema [1].
Ainda assim, essa confiança convive com uma rotina exigente e, é nesse cotidiano que a decisão de vacinar realmente acontece. Entre tantas imagens que costumam marcar o Dia das Mães, quase nunca aparece uma das mais reais: a mãe que confere a carteira de vacinação, reorganiza a agenda para uma consulta, segura a mão da criança antes da picada e volta para casa com a tranquilidade de quem acabou de proteger alguém que ama.
Por trás dessa cena cotidiana existe uma carga invisível de responsabilidades. Além dos cuidados diários, as mulheres também precisam lidar com um ambiente de desinformação crescente, em que opiniões sem base científica disputam espaço com evidências médicas.
Este cenário já causa impacto em decisões práticas: sabe-se que uma parcela dos pacientes busca informações de saúde primeiro em mecanismos como Google ou até inteligência artificial antes de procurar um médico, o que evidencia como o excesso de fontes, nem sempre confiáveis, pode influenciar escolhas relacionadas ao cuidado.
É importante reconhecer que hesitar nem sempre significa negligenciar. Em diversos casos, significa apenas tentar decidir com cuidado diante de mensagens contraditórias. No mesmo estudo, 96,6% das mães consideraram a vacinação necessária, embora parte delas relatasse receio em relação a possíveis eventos adversos [1].
Os impactos da imunização aparecem de forma concreta também no Brasil. A vacina rotavírus, incorporada ao Programa Nacional de Imunizações em 2006, esteve associada à redução significativa das internações por gastroenterite aguda em crianças menores de cinco anos, com quedas observadas especialmente nos primeiros anos após sua introdução [2].
De forma semelhante, a vacina pneumocócica conjugada, incluída no SUS em 2010, contribuiu para diminuir hospitalizações por pneumonia e doenças invasivas na infância [3]. Já a ampliação da vacinação contra influenza em crianças ajudou a reduzir complicações respiratórias sazonais e a pressão sobre serviços pediátricos [4].
Mais recentemente, a proteção passou a começar antes mesmo do nascimento. Documento técnico publicado em 2025 pela Dasa Educa destaca a vacinação contra o vírus sincicial respiratório (VSR) em gestantes como estratégia capaz de proteger o bebê nos primeiros meses de vida [5]. Segundo o material, a imunização materna apresentou 82% de eficácia contra formas graves da doença até 90 dias de vida do bebê e 69% até 180 dias [5].
Esses dados mostram que vacina não evita apenas doenças futuras. Evita pronto-socorro lotado, noites em hospitais, sofrimento familiar e afastamento do trabalho dos pais. Também não basta apenas acreditar na importância das vacinas. Entre intenção e prática existem barreiras reais. Pesquisa publicada em 2025 na revista científica PLOS ONE, conduzida com mães em contexto de atenção à saúde infantil, mostrou que 94,8% apresentavam atitude positiva em relação à imunização, mas apenas 43,3% conseguiam manter práticas vacinais adequadas, em geral por dificuldades de acesso e disponibilidade [6].
Por isso, falar de vacinação infantil também é falar de apoio às famílias. Significa garantir informação confiável, atendimento acolhedor, horários acessíveis e campanhas responsáveis. Vacinar continua sendo uma das decisões mais efetivas de cuidado na infância. Em meio a tanto ruído, informação de qualidade e confiança seguem como os melhores caminhos para proteger crianças, famílias e comunidades.
*Referências*
[2] CARMONA, Rita de Cássia C. et al. Impact of rotavirus vaccine on reduction of hospitalizations for acute gastroenteritis in Brazil. Revista de Saúde Pública, 2011. https://sbim.org.br/images/files/revista-imuniz-sbim-v9-n4-2016-161214-bx.pdf
[3] DOMINGUES, Carla Magda Allan Santos et al. Impact of pneumococcal conjugate vaccination on childhood pneumonia and invasive disease in Brazil. The Lancet Regional Health – Americas, 2022. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S2213260014700608?
[4] BRASIL. Ministério da Saúde. Boletins epidemiológicos de influenza e vacinação infantil. Brasília: Ministério da Saúde. https://stacks.cdc.gov/view/cdc/18973/cdc_18973_DS1.pdf
[5] DASA EDUCA. Vacinação contra o vírus sincicial respiratório (VSR) em gestantes: uma estratégia direcionada à saúde da mãe e da criança. 2025. https://dasaeducaeventos.com.br/biblioteca-cientifica/artigos/vacinacao-contra-o-virus-sincicial-respiratorio-vsr-em-gestantes-uma-estrategia-direcionada-a-saude-da-mae-e-da-crianca
[6] SALEH, Sara; CHEDID, Pia. Knowledge, attitude and practice regarding childhood immunization among mothers in Lebanon. PLOS ONE, 2025.