Muita gente pode não saber, mas o profissional de Medicina Veterinária compreende um elemento importante na quebra do ciclo de violência doméstica. Quando o veterinário atende animais em situação de maus-tratos e denuncia o fato às autoridades, pode também livrar uma pessoa de uma situação de agressão. É o que indica a teoria do elo (ou do link).
Essa argumentação permeia o trabalho de conclusão de curso de Ylka Priscilla Alves dos Santos, do curso de Medicina Veterinária do campus do Sertão da Universidade Federal de Sergipe (UFS), em Nossa Senhora da Glória.
“Por perceber que os profissionais, médicos veterinários principalmente, não conheciam ou não conhecem o que é a teoria do elo, senti a necessidade de poder disseminar esse conhecimento tão importante para que todos estejam cientes e educados do que se trata essa teoria e assim ter um maior cuidado ao se presenciar tais violências”, diz Ylka.
O trabalho procurou mostrar como o trabalho em conjunto dos veterinários com outros profissionais ganha relevo para o desmantelamento dessas agressões. Buscou-se também conscientizar as pessoas sobre a ligação que existe entre a violência contra os animais e a violência interpessoal e como elas podem intervir em casos de maus-tratos aos animais através da denúncia.
Ainda de acordo com o estudo, a teoria do elo indica que os maus-tratos aos animais estão intimamente conectados com outros atos de violência, principalmente a violência doméstica, envolvendo na maioria das vezes todo o seio familiar, muitas vezes uma violência passada e reproduzida por gerações.
“Por isso, crimes contra os animais precisam ser tratados como um potencial indicador de violência interpessoal e assim servindo de alerta para as autoridades e toda sociedade, sendo imprescindível a intervenção por parte dos profissionais e outros órgãos competentes para que esse ciclo seja quebrado”.
A teoria do elo
A capacidade de um agressor em agir de forma violenta, por ações diretas ou indiretas, contra animais e pessoas, especialmente no âmbito doméstico e familiar, caracteriza os estudos atinentes à teoria do elo. A ocorrência dos maus-tratos aos animais de companhia não é um fator isolado – esse abuso serve como sinalizador de problemas na família.
Segundo a professora Roseane Nunes, do Núcleo de Graduação em Medicina Veterinária do campus do Sertão, os estudos sobre a relação entre os maus-tratos aos animais e a violência doméstica iniciaram-se há décadas. Entretanto, somente em 2012 Frank Ascione e Phil Arkow perceberam a ligação que há entre abuso infantil, violência doméstica e crueldade animal e, dessa forma, deram início às pesquisas sobre a teoria do elo.
No campus do Sertão, o tema está sendo desenvolvido em grupos de estudos e em parceria com o grupo de pesquisa Xique-Xique da UFS/CNPq que trabalha com a temática das violências de gênero.
Como denunciar
A professora Roseane, que orientou o TCC de Ylka, conta que muitos médicos veterinários clínicos que atuam com animais de companhia (cães e gatos) não conhecem a teoria do elo.
Esses profissionais, portanto, ao se depararem com um caso de maus-tratos podem não associar à violência doméstica. Ainda segundo ela, o médico veterinário deve estar apto para diferenciar lesões acidentais de maus-tratos a fim de que, quando for o caso, realizar a denúncia.
“A denúncia deve ser feita em qualquer delegacia ou delegacia especializada, como a que temos atualmente em Sergipe, a Depama”, diz. O telefone da Delegacia de Proteção Animal e Meio Ambiente, que fica no conjunto Orlando Dantas, em Aracaju, é (79) 98819-4576.
“Pretendo continuar pesquisando sobre essa área a fim de me capacitar e, quem sabe, poder trabalhar nela. Esse assunto mexe muito comigo, é algo que desde o primeiro contato com o tema me fez querer conhecer mais e poder aprender e disseminar esse conhecimento”, conclui Ylka Priscilla.
Fonte: Ascom UFS







